Estúdios de gravação de som, em Lisboa, há vários. Mas poucos são os que o fazem em formato analógico, como o Scratchbuilt Studio, ao Campo de Santana, onde, entre mesas de mistura modernas e microfones Neumann, se encontram também peças que teriam direito a lugar num museu, mas continuam no activo. É o caso dos microfones dos anos 40, que foram usados em gravações de Carlos Paredes e de Amália, agora explorados em novas experiências musicais. Das electrónicas, às acústicas. O Corvo foi visitá-lo.

 

Texto: Fernanda Ribeiro            Fotografias: Paula Ferreira

 

É uma história de sucessivos encontros em Lisboa, a que deu origem ao estúdio que, há dois anos, surgiu na Rua da Bempostinha, perto do Campo de Santana, o ScratchBuilt Studio. Onde “ainda se dá tempo às pessoas e muita atenção à gravação com qualidade analógica”, como diz André, 23 anos, jovem estudante de engenharia de som, maravilhado com o ambiente deste estúdio, onde agora trabalha e aprende.

 

“É óptimo aqui estar”, diz ao Corvo André. No estúdio, que é também um laboratório de som, há sempre “pessoas a ensaiar, pessoas a gravar e outras a ouvir”. Enquanto Charlotte Joerges, uma saxofonista alemã, ensaia numa sala, noutra há músicos a gravar, sob a supervisão de John Klima, produtor e técnico de som. E noutra ainda está Nuno Morão, músico e professor de bateria na ScratchBuilt, a trabalhar no seu recente projecto.

 

Uma nova sala de gravação está a ser finalizada e André, rodeado de cabos, tem a seu cargo executar a cablagem, fazendo as inúmeras ligações entre a régie e esse novo estúdio.

 

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Toda esta aventura sonora começou um dia em que, em Lisboa, se cruzaram o músico e técnico de som nova-iorquino John Klima, que há sete anos reside em Portugal – “vinha por duas semanas, mas fiquei sete anos, por amor” -, o artista plástico holandês Thomas Kahrel, com formação em música electrónica – que é já um lisboeta adoptado, há 25 anos a viver e trabalhar na capital – e, a completar o triângulo, António Bento, dono da Nacional Filmes, gravadora que antes existia na Calçada de Santana e era a “herdeira” da empresa que, nos anos 50, chegou a ser “o único estúdio de gravação existente em Lisboa”.

 

António Bento trabalhava para o cinema e para a música. Tantos filmes portugueses e discos gravou, que tem já dificuldade em enumerar. “António Calvário, Tony de Matos, Ferrer Trindade, trabalhei com muitos, até porque, na altura, não havia outros estúdios. O Carlos Paredes gravava sempre à noite e era eu quem o gravava”, recorda.

 

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Bento era não só dono de muito equipamento – toda a parafernália necessária às gravações, mesas de mistura, cabos, gravadores, amplificadores, pre-amplificadores, máquinas de reverberação e monitores, entre outro material – como de uma colecção de microfones que cativaram John Klima e o levam agora, com Thomas Kahrel, a adaptar estas peças de museu a novas funções. “Utilizamos muito este microfone, um Transmitter dos anos 40, para a bateria. Para a voz já não dá, mas para o bombo da bateria é muito bom”, conta Thomas, conduzindo O Corvo numa visita guiada.

 

Na mesma sala vê-se também uma peça, que, parecendo decorativa, com a forma de uma cabeça, é afinal um “antigo microfone AKG, um protótipo feito na Áustria, que teve apenas 15 réplicas”, explica John.

 

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No ScratchBuilt, cada um contribui com o que sabe fazer e com os materiais que tem. John, técnico de som, com os seus conhecimentos na matéria e com muito do equipamento musical que ali se encontra, das guitarras, à bateria, passando por mesas de mistura e diversos microfones. Aqui, há instrumentos que pertencem a várias pessoas.

 

“E é isso que dá poder a este estúdio. As pessoas, as suas aptidões e o material que temos (People and skills and the material)”, salienta, em inglês, John Klima.

 

Thomas, além de ter formação na área da música, nos estudos feitos no Instituto de Sonologia, na Holanda, gosta de transformar objectos e dar-lhes novos usos. Essa é uma aptidão que também exerce na ScratchBuilt, onde desempenha o papel de director de arte, redecorando espaços e recriando peças de mobiliário. Como o elegante suporte para as baquetas, existente na parede de uma das salas.

 

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Pelo estúdio têm passado bandas e artistas de várias estilos musicais, alguns dos quais da Infected Records. Post punk, improv jazz, electrónica experimental, near silence, são alguns dos géneros citados por John Klima.

 

A par das experiências feitas no estúdio, o facto de todos os sócios serem também músicos permitiu já a criação de uma nova banda, a Wednesday, com John Klima no baixo acústico, Nuno Morão na bateria e Thomas Kharel, na guitarra lap steel, formação que, recentemente, actuou na Galeria Zé dos Bois (ZDB), no Bairro Alto.

 

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“Estamos muito satisfeitos com o estúdio, com as duas salas activas e ocupadas dia e noite. Também é verdade que praticamos preços acessíveis, para dar a possibilidade a gente nova ou com menos capacidade financeira. Mesmo assim, o estúdio é viável. Sem medos. Ainda que as contas de electricidade atinjam valores muito altos, conseguimos cobrir todas as despesas e dá para viver”, diz, satisfeito, John Klima.

 

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