O Corvo anda a visitar os ateliers de alguns artistas plásticos que vivem e trabalham na capital. Espaços privados onde nascem sorrateiramente criações que, depois, se tornam públicas.  Quem entra neles espreita a alma de quem os habita.

 

Texto: Rui Lagartinho    Fotografia: David Kong

 

No computador de Pedro Calapez, há uma pasta especial que está sempre a ser actualizada. Chama-se “Vistas do atelier” e é uma janela privilegiada sobre um espaço e as obras de quem o habita, há mais de vinte anos. Um olhar, em primeiro lugar, do próprio artista. Na maioria dos casos, é ele quem capta os dias de instantes decisivos que, depois, se tornam olhares retrospectivos sobre o que aqui se produz.

 

Este é um espaço íntimo. Partilhado apenas o quanto baste, para que quem aqui entre sinta que viveu um momento especial. “Desagrada-me a ideia de ter um atelier sempre aberto à curiosidade do público. Evito uma banalização que, aliás, me desagrada. O que não quer dizer que, quando recebo aqui gente, não o faça com agrado. E às vezes, como aconteceu no último Verão, sou eu quem escancara as portas aos amigos”, conta-nos Pedro Calapez.

 

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Ao atelier de Calapez chega-se depois de subir a uma das colinas mais altas da parte oriental de Lisboa. Esconde-se atrás de um pátio. Em tempos, o espaço dividia-se em três armazéns sucessivos. A um deles, Pedro lembra-se de vir bater à porta, ainda embalado pelo cheiro de uma fábrica de chocolates que existia ali por perto. A Bresélios vendia tintas. Pedro, então estudante, comprou aqui algumas latas. Depois, voltou quando viu que um anúncio de jornal propunha o arrendamento do espaço. Felizmente para ele, os anteriores visitantes, uma agência funerária próxima, “desistiu do espaço ao perceber que a carrinha não cabia no pátio”.

 

Esta não é, aliás, a única história relacionada com a morte e, por isso, com a vida, que o artista recorda: “Lembro-me que, no dia em que vim falar com o então proprietário do primeiro espaço que aluguei – uma fábrica de estores -, ele me ter dito que tinha falado com o meu pai, no dia em que ele morrera. O meu pai fazia muitas démarches por mim e também tinha assinalado este espaço como opção para eu me mudar. Ou seja, estava mesmo fadado a vir para aqui e aqui fiquei”.

 

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São trezentos metros que se organizam em câmaras sucessivas. Há um armazém, uma sala de preparação de trabalhos, uma sala de pintura, uma biblioteca, uma sala de exposição, um escritório. “A grande divisão é entre as salas sujas e as salas limpas”, ironiza o pintor. “O que não quer dizer que a passagem de uma zona a outra seja irreversível. Na sala limpa estão as pinturas já terminadas, que eu fotográfo e preparo para abandonarem o espaço. Muitas vezes, serve também de pousio, que permite que eu próprio veja como respira cada pintura e se estou ou não satisfeito, dando o trabalho por concluído. É uma linha de montagem, artesanal”, brinca Calapez, que assume gostar do espaço assim dividido, contrariando o mito do open space como hangar ideal de trabalho.

 

“Não me importava de ter seiscentos metros em vez dos trezentos actuais, mas se isso acontecesse mantinha este conceito de espaço. Ao longo dos vinte anos que aqui estou, fui abrindo as ligações entre os armazéns arrendados, para haver uma certa continuidade, mas agrada-me a ideia do espaço compartimentado”, afirma.

 

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Pedro Calapez não é artista de grandes rituais. Os sons da cidade chegam difusos, o pátio faz de filtro entre a cidade e o atelier. “Estou recolhido em relação à rua.” Ouve-se música clássica ou jazz. A luz natural  – depende do que a cidade tiver para oferecer nesse dia – chega em doses suficientes. A luz artificial, calibrada, cria as condições necessárias para que aqui se trabalhe de manhã à noite. Afinal, neste espaço a principal iluminação vem das paredes: a pintura de Pedro Calapez é ela própria um arco-íris de luz radioso, em tons e texturas diversas. Basta ver os trabalhos que se espalham pelas salas sujas ou limpas para perceber esse festim de cor constante, quase canibal nas suas relações de interdependência. Apetece concluir que as pinturas de Pedro Calapez se organizam como o espaço onde trabalha, uma porta, um umbral, conduz-nos sucessivamente ao espaço, à emoção seguinte.

 

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“Todos os dias, venho ao atelier, ao qual chego a pé, depois de caminhar alguns, poucos, minutos. E por aqui fico, até à noite, sobretudo em períodos de preparação de novas exposições. Nessas alturas, percebo que o sol já se pôs, quando começo a receber telefonemas de casa, a avisar-me que o jantar está pronto.”

 

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Até 31 de Janeiro, “Pequeno espaço entre as coisas”, pintura de Pedro Calapez, ocupa a histórica galeria novaOgiva, em Óbidos.

 

Mais informações em www.calapez.com

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