No Areeiro, as colónias de gatos estão a ganhar abrigos e funcionam como elo comunitário

REPORTAGEM
Samuel Alemão

Texto

AMBIENTE

Areeiro

6 Setembro, 2018

Por entre os logradouros dos prédios da freguesia do Areeiro, e à imagem do que sucede um pouco por toda a cidade de Lisboa, há gatos a passearem pachorrentamente. Mas também há quem deles tome conta, organizando-se em equipas de voluntários que zelam pelas 25 colónias de gatos do bairro – apenas uma parte das quase três centenas existentes na capital. Trazem-lhes comida e água e, muitas vezes, seja por iniciativa individual desses cuidadores ou numa ligação estreita com a Casa dos Animais de Lisboa (CAL), ajudam a promover um abrangente programa de esterilização da população felina, para que esta não fique fora de controlo. “Quase tudo isto tem sido custeado por nós”, admite a O Corvo Rosário Puga, 54 anos, ao falar sobre as atenções prestadas pelo grupo de uma dúzia de voluntários de que faz parte. A seu cargo têm 18 das 25 colónias da freguesia, as quais contarão com cerca de 180 animais.

As restantes sete colónias daquela zona da cidade localizam-se em quintais e em logradouros privados, sendo por isso acompanhadas por quem ali vive. Agora, a Junta de Freguesia do Areeiro deu uma ajuda, colocando dois abrigos junto a um par delas. “Fomos amadurecendo a ideia, desde há uns anos. A questão era encontrar os parceiros certos para nos ajudarem, os quais acabámos por descobrir com este grupo de voluntários”, garante Fernando Braamcamp (PSD), presidente da autarquia. A disponibilidade da junta veio assim suprir uma necessidade há muito identificada pelos cuidadores. “O projecto de criação de abrigos e refúgios para gatos de rua foi um dos vencedores do Orçamento Participativo de Lisboa 2015, com uma verba de 150 mil euros, mas, até até hoje, a medida não passou do papel”, lamenta Ana Cristina Miguel, 62 anos, uma das voluntárias, agradecida por a junta ter abraçado a ideia, sem bem que a uma escala mais pequena do que a idealizada a princípio.

Depois da colocação do primeiro abrigo, na primavera passada, a Junta de Freguesia do Areeiro inaugurou o segundo a 28 de Agosto, respondendo assim aos pedidos insistentes dos voluntários, que há bastante tempo ansiavam pela instalação de tais estruturas. “Existem muitos casos de pessoas idosas que vão para lares ou morrem e não têm a quem deixar os gatos”, explica Teresa Raposo, 68 anos, uma das cuidadoras. E apesar de inequívoca utilidade social deste projecto, tanto as voluntárias, como os responsáveis da junta de freguesia pedem a O Corvo que, por agora, não divulgue a localização exacta das duas casas de madeira recém-instaladas, com receio de “actos de vandalismo ou pura maldade”. Um estranho cuidado em relação a uma medida que terá tudo para reunir consenso, assinalamos. “Tem havido casos de pessoas que atiçam os cães contra os gatos”, informa Ana Cristina Miguel.

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Rudolfo Castro Pimenta, o vogal com o pelouro do Ambiente e do Bem-Estar Animal

Em todo o caso, autarcas e cuidadores estão convictos de que a larga maioria das pessoas entende a importância dos abrigos, não apenas como forma de apoiar a população felina daquela área da cidade, mas também como elemento de fortalecimento dos elos comunitários entre a própria população. Em preparação, aliás, está já a colocação de mais dois abrigos de madeira junto a outras tantas colónias. O par de casotas disponibilizadas, cada uma com capacidade para cinco bichos, teve um custo médio individual a rondar os 250 euros. Outros abrigos a colocar pelo território da freguesia poderão ser mais caros, pois deverão ter uma capacidade de acolhimento superior. Ainda assim, uma despesa relativamente baixa para erário público, se se tiverem em conta os benefícios, defende a junta.

“Trata-se de um projecto importante, não só pelo apoio às colónias de gatos, esterilizando-os e monitorizando-os, como também é algo que serve para reforçar os laços de solidariedade dentro da comunidade. Ao mesmo tempo, com a colocação destes abrigos, estamos ainda a qualificar o espaço público”, explica Rudolfo de Castro Pimenta, vogal responsável pela tutela do Ambiente e Bem-Estar Animal, pelouro criado há pouco mais de seis meses. Os abrigos ajudam na tarefa de zelar pelos animais abandonados, mas outro dos óbvios propósitos da medida é o controlo sanitário: ao ter as colónias de gatos acompanhadas, é possível realizar a sua esterilização, monitorizando o crescimento da população.


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O presidente da junta, Fernando Braancamp, e a voluntária Rosário Puga, junto a um abrigo

O responsável chama ainda a atenção para outros benefícios sociais trazidos pelo acompanhamento veterinário dos felinos. “Ao ter os gatos cuidados, podemos ter também um aliado no controlo das pestes e na desratização, promovendo uma melhor saúde pública”. O facto de os bichos estarem a ser alimentados quase todos os dias, e ao contrário do que é voz corrente, não os desincentiva de darem azo aos seus instintos predatórios. Muito pelo contrário. “Isso trata-se de um mito, que está bem longe da verdade. Na realidade, é ao contrário: quanto melhor alimentados estão, mais os gatos caçam”, garante a voluntária Ana Cristina Miguel.

E para que os felinos estejam de barriga cheia, há que comprar ração. Encargo coberto pelos cuidadores – como, de resto, sucede na generalidade das colónias felinas de Lisboa. A que se adiciona um outro, bem mais oneroso. “A esterilização de um gato é um acto médico caro”, reconhece Rosário Puga, lembrando que tais intervenções têm, também ali, sido custeadas pelo bolso dos voluntários. Por isso, além de pagar os abrigos, a Junta do Areeiro tem estado também a negociar o estabelecimento de parcerias com associações de protecção animal e com clínicas veterinárias da freguesia para prestar cuidados médico-veterinários a animais abandonados.

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COMENTÁRIOS

  • Raul Nobre
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    As pessoas estão a ficar civilizadas. Felizmente. Parabéns pela iniciativa

  • Anónimo
    Responder

    Convinha é que estas pessoas ou a CML providenciasse a limpeza das ruas onde os gatos fazem as suas necessidades.
    Em frente ao meu prédio há uma colónia autorizada pela CML. Há pessoas que tratam dos gatos dando-lhes comida e outras coisas.
    Eles fazem as suas necessidades mesmo em frente ao prédio, o que leva a que as pessoas, sem querer, as pisem e transportem residuos de fezes e urina para a escada do prédio e a entrada.
    Já falei com as pessoas que cuidam dos gatos e elas recusam-se a limpar seja o que for, dizendo que isso é com a CML.
    A CML está-se nas tintas.
    Então temos de ser nós a limpar diariamente a entrada do prédio (zona no passeio público)?!
    E quem paga a saúde pública por termos de conviver diariamente com restos de fezes de animais que estão no passeio?

  • anónima
    Responder

    Recado para o ”anónimo”: não é hábito dos gatos deixarem fezes destapadas, pelo que a sua afirmação levanta muitas dúvidas. Quanto a limpeza, compete a TODOS e, certamente, tudo estaria bem mais sujo sem voluntários a cuidar dos gatos da rua! ( 😉 tente aprender um pouco mais sobre gatos)

  • Irene
    Responder

    Obviamente, qualquer pessoa que já teve um gato sabe que os felines enterram as próprias fezes, não as deixam à vista. Todas as grandes metrópoles civilizadas têm colónias de gatos de rua bem alimentados, basta ver como é em Roma, onde há quase mais gatos que turistas. São eles que impedem os ratos de saír das inúmeras catacumbas da cidade e espalharem-se entre os habitantes. Só aqui, na parvónia, é que aparecem estes “cuidadosos da saúde pública” muito afectadinhos com as suas preocupações de “limpeza”.

  • Rosa costa
    Responder

    Se não fosem os gatos de rua, Lisboa era colonizadao ratos e estes sim, são bastante mais perigosos. No Areeiro, onde moro, já vi à noite ratos de dimensão apreciáveis perto dos caixotes do lixo dos supermercados e dos restaurantes. No entanto o control da população é fundamental.

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