Na nova sede da Guilherme Cossoul, junto à Rua de São Bento, já se ouve poesia e preparam-se serões de música

REPORTAGEM
Sofia Cristino

Texto

CULTURA

Misericórdia

18 Outubro, 2018

A Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul mudou-se das instalações antigas, na Madragoa, freguesia da Estrela, onde estava há 70 anos, para a zona de São Bento, na freguesia da Misericórdia. Na nova sede, as salas não têm mais de dez metros quadrados e muito do espólio da instituição centenária ainda está guardado em caixas, mas as noites de quizz e os serões de literatura já arrancaram. É possível visitar o bar, a galeria e a livraria e, até ao final do ano, serão conhecidas as datas dos cursos de literatura portuguesa e de teatro. As formações tiveram de ser canceladas, devido à falta de espaço, mas a direcção promete o regresso para Janeiro, no Pólo das Gaivotas. “Queremos ter uma programação ecléctica. Quem vem aqui pode comprar um livro, mas também pode vir só beber um licor”, diz o director da Cossoul.

“Esta obra está sempre esgotada, assim que descobri que havia aqui vim logo a correr. É a primeira vez que estou neste espaço e é muito agradável”, diz Rui Pereira, 48 anos, na nova sede provisória da Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul. A associação centenária, no número 66 da Rua Nova da Piedade, onde ainda se vêem livros encaixotados e materiais espalhados pelas pequenas salas, aos poucos vai ficando composta. Nas estantes da livraria – que esteve em risco de fechar – alinham-se centenas de livros de um espólio de 8 mil obras. Pelas escadas do edifício de três pisos, vão-se amontoando pessoas para assistirem ao Vão de Escada, um círculo de leituras dinamizado pelo poeta Vasco Gato.

 

 

Na passada quinta-feira (11 de Outubro), noite em que O Corvo esteve na Cossoul, arrancou a primeira sessão. Filipa Martins, a escritora convidada, neste momento a redigir a biografia de Natália Correia, partilhou excertos de livros de Eugénio Andrade, Thomas Mann e Joana Bértholo, e de cartas trocadas entre José Saramago e Jorge Amado. Uma vez por semana, às quartas-feiras, um escritor é chamado a partilhar passagens de obras à sua escolha, num convite à reflexão sobre o estado actual da sociedade. “Podem trazer temas pessoais, paixões da vida ou do momento, ou assuntos mais gerais. Quero, também, convidar músicos e outro género de artistas”, explica Vasco Gato.

Na antiga sede da Cossoul, os degraus eram mais largos, permitindo outra utilização do espaço, mas Vasco não se sente limitado pelos constrangimentos espaciais. “O objectivo deste projecto foi sempre criar uma ligação a outras valências da Cossoul. As pessoas, ao sentarem-se nas escadas, acabam por ir à livraria, no piso de cima, ao bar ou à galeria de arte, em baixo. Agora, não há tanto espaço, só há duas pessoas nas escadas, mas até pode ser que idealize uma nova forma de fazer os serões de leitura”, diz o autor do projecto.


 

Em pouco mais de um mês, mudou-se o espólio que congrega 133 anos de teatro, música, literatura e espectáculos, para a nova casa. A mudança está a ser feita devagar, mas já se pode frequentar o bar e a esplanada, de segunda a sábado (das 10h às 24h), visitar a livraria Snob, de terça a sábado (das 18h às 21h), e a galeria de arte, onde fotografias a preto e branco retractam memórias centenárias. As noites de quizz semanais, às quintas-feiras, já foram retomadas e, duas vezes por mês, a livraria vai estar aberta até mais tarde, numa iniciativa denominada de Livraria à Noite.

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A livraria, especializada em arte, teatro e poesia, tem no seu catálogo oito mil unidades

Nestes dias, além do lançamento de livros, vai realizar-se o Clube de Escuta, organizado por Nuno Fonseca, que consiste na audição de um álbum de música em silêncio. A associação ainda está a retomar as actividades, mas o presidente da Cossoul, Paulo Tavares, já faz um balanço positivo. “As noites de quizzs têm estado lotadas e já começam a aparecer algumas pessoas na livraria. Queremos ter o melhor dos dois mundos, uma programação ecléctica, que chame pessoas de diferentes idades e gostos. Quem vem aqui pode comprar um livro, mas também pode vir só beber um licor”, explica.

 

Até ao final do ano, serão conhecidas as datas dos cursos de literatura portuguesa e de teatro. As formações de actores agendadas para este ano lectivo tiveram de ser canceladas por falta de espaço, mas a Cossoul prevê que arranquem em Janeiro, no Pólo Cultural das Gaivotas. Neste equipamento, também vai estar novamente em exibição a peça “Desmaterialização”, do grupo Prisma, com a qual se despediu do espaço antigo. A concretização do Reverso, um festival internacional que recebe escritores, artistas e editores independentes, também está dependente da disponibilidade de novos parceiros. “O Reverso foi criado por nós e foi crescendo, de ano para ano, e gostávamos de continuar a organizá-lo. O grande desafio vai ser fazê-lo aqui”, diz Paulo Tavares.

 

 

Com a mudança de instalações, a direcção espera atrair mais alunos para o projecto Novos Alunos da Guilherme Cossoul, através do qual cerca de trinta crianças carenciadas da Madragoa e da Estrela, aprendem a tocar instrumentos de sopro e percussão. “A ideia é chegarmos a crianças da freguesia da Misericórdia, onde estamos agora instalados. Até foi boa a mudança, no sentido que estamos a ver oportunidades para crescer. Pouca gente tem consciência, mas somos a primeira banda infanto-juvenil deste género e temos uma vertente social muito importante”, diz Rui Pinto, director artístico do projecto. O projecto musical resulta de uma parceria da Cossoul com a Fundação Calouste Gulbenkian e a Junta de Freguesia da Estrela, a que posteriormente se juntou o Grupo Dramático e Escolar Os Combatentes.

 

Depois de, em Junho de 2017, o antigo senhorio da Cossoul vender o prédio situado na Avenida D. Carlos I, instalações da colectividade durante 70 anos, a Câmara Municipal de Lisboa (CML) começou a procurar soluções. A autarquia acabaria por ceder um espaço à Cossoul, durante dois anos. Em 2020, a associação deverá mudar para o Centro Comunitário da Madragoa, pelo menos foi este o acordo verbal feito com a Junta de Freguesia da Estrela.

 

 

Numa altura em que várias associações culturais em Lisboa encerram por falta de meios e recursos, a Cossoul estava a crescer, com novas actividades e cursos de formação. Com a venda das instalações históricas da colectividade, deu-se um “retrocesso inevitável”. “Não era suposto estarmos a reinventar-nos nesta fase”, diz Cláudio Henriques, adjunto da direcção, na nova esplanada do bar, um pequeno terraço interior. “A mudança é sempre um processo difícil, tivemos de abdicar de grande parte do mobiliário, foi guardado noutro espaço. O que nos tranquiliza é que, ao contrário de outras colectividades, conseguimos, ao longo dos anos, captar gente nova e há uma continuação, um rejuvenescimento do público. Não acredito que vamos fechar”, acrescenta.

 

Os maiores obstáculos ao funcionamento da colectividade na sua plenitude são, agora, a falta de uma sala de teatro para dar aulas de interpretação. “Deixamos de ter o teatro, a matriz forte da Cossoul. Perdemos o espaço para formação de actores, tínhamos três turmas a funcionar com uma média de doze alunos”, explica o também actor do colectivo Prisma, companhia de teatro residente da Cossoul. Para manter os cursos, mas também espectáculos de criação própria do Prisma e eventos culturais, a Cossoul está agora a estabelecer parcerias com outras associações.

 

 

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