O Senhor José Coutinho é um dos comerciantes com porta aberta há mais tempo em Campo de Ourique. Chegado a Lisboa em 1955, trabalha desde então naquela que é agora uma das duas únicas mercearias sobreviventes no bairro. Gere um lugar onde se vende fruta e apostas. Bananas, totoloto, melões, euromilhões, laranjas ou raspadinhas, lado a lado.

 

Texto: Rui Lagartinho

 

Se pensarmos bem, existe pelo menos uma coisa em comum entre os melões e a Lotaria Instantânea, popularmente conhecida como raspadinha. Um bom melão é um mistério antes de ser cortado, e as raspadinhas antes de serem raspadas são todas iguais. Nos dois casos, é tudo uma questão de sorte se, claro, nos esquecermos de todos os profetas que advinham a qualidade do fruto apenas pelo toque.

Em Campo de Ourique, existe um local onde a fruta e os jogos da Santa Casa convivem em harmonia. Onde se pode comprar fiambre, um pacote de arroz e registar o Euromilhões.

José Novais Coutinho foi um dos primeiros comerciantes a aceitar o repto da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa de apostar, em 1961, num novo jogo, o Totobola: “Fartei-me de carregar resmas de boletins e de explicar a novidade aos clientes”.

A febre do 1X2 tinha vindo para ficar. Mas a história deste minhoto em Lisboa começara uns anos antes, com bilhete de ida e volta. Em 1955, apenas com doze anos, desembarca em Santa Apolónia vindo de Fafe. À espera tinha a tia, que estava encarregue de lhe dar guarida e de o pôr a trabalhar com o marido, um comerciante próspero com estabelecimento de mercearia fina em Campo de Ourique, no 49A da Rua 4 da Infantaria.

 

mercearia1

 

A tia achou-o “enfezadinho e lingrinhas” e quando chegou à mercearia brincou com o marido, por esses dias a sarar um braço partido, dizendo-lhe: “aqui tens o teu braço direito”.

Sem lhe acalentarem grandes esperanças, deram-lhe duas semanas à experiência, para mostrar o que valia: “Aqui estou até hoje”. Acompanhou o tio, até que este morreu em 1990, e passou a dono do negócio, que geriu até ao final do ano passado, quando o prédio entretanto desabitado de inquilinos foi vendido.

 

mercearia3

 

Morria a mercearia, nascia mais um prédio devoluto. O senhor Coutinho, inquilino da loja, pegou nalguns móveis, nas caixas da fruta, na máquina de apostas e atravessou o passeio. No início deste ano, abriu o espaço onde hoje está, com a fotografia do tio em grande destaque na parede do fundo e os móveis antigos de madeira bege claro que, entretanto, restaurou e, como sempre, guardam latas de atum, garrafas de azeite e pacotes de massa.

“Olha Zé, parece que entrou alguém agora no prédio. Há novidades? É agora que vão começar as obras?”, pergunta um cliente habitual. “Devem estar a mostrar o espaço. Nunca mais se resolve.” Responde o comerciante.

Pelo movimento de gente que entra e sai, avalia-se a popularidade do anfitrião. Percebendo a presença dos repórteres, os mais habituais entre os habituais lá vão deixando entender que o merceeiro não cresceu muito desde que chegou com doze anos a Lisboa e incentivam-nos a perguntar-lhe pela sua altura. Em vão.

Aqui há dois segredos, que não serão revelados: a altura do proprietário do estabelecimento e o volume de negócios da máquina de apostas. O terceiro revelar-se-á de polichinelo: o senhor Coutinho é do Benfica, com emblema dourado e tudo.

 

mercearia2

 

Vai animada a tarde de sexta-feira, a grande maioria dos clientes conferem boletins, renovam apostas, compram bananas, batatas fritas para a neta, enquanto actualizam o merceeiro sobre a saúde do marido ou comentam os jornais. Sem grandes alaridos: “Não gosto muito de falar de política aqui no estabelecimento.” Diz o merceeiro.

Sobre o negócio, concede: “O jogo é hoje a parte mais significativa do negócio. Antigamente, existiam em Campo de Ourique mais de cinquenta mercearias. Hoje somos apenas duas com as portas abertas. Mas eu sou um lutador”. Esta é uma das suas frases preferidas, que repetirá, vezes sem conta, durante a nossa visita. A outra é claramente um vício de merceeiro: “diga lá o que quer saber mais.” Como quem avia um rol, em que os itens são pedaços de uma vida longa que, desta vez, por acaso, até é a sua.

Comentários

Deixe um comentário.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografías 

Paula Ferreira
Fotografía

Margarita Cardoso de Meneses
Dep. comercial e produção

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com