Na loja do sapato amarelo mantêm-se a tradição e o saber trabalhar o couro

REPORTAGEM
Isabel Braga

Texto

Paula Ferreira

Fotografia

VIDA NA CIDADE

Santa Maria Maior

2 Março, 2015

Contrariar a tendência actual de que tudo é descartável é a filosofia da Casa Forra, especializada em arranjos em artigos de pele. Sacos e malas, cintos e peças de roupa destinados ao lixo ganham nova vida na Rua Poço do Borratém.

A Casa Forra, situada no Poço do Borratém, uma velha rua que liga a Rua da Madalena ao Martim Moniz, é fácil de encontrar. O molde em tamanho grande de um sapato amarelo pendurado à porta assinala a entrada de um estabelecimento fundado em 1920 e que, ao longo dos seus noventa anos de existência, não fez quaisquer cedências a inovações estilísticas.

Entrar lá dentro é como fazer uma viagem no tempo. Os velhos balcões de madeira ostentam as marcas do uso diário. É sobre eles que os empregados martelam as ilhozes em cintos, cravam botões de pressão em malas de mão e casacos ou riscam com x-ato as peças de couro antes de as cortar à medida dos desejos dos clientes.





As paredes estão ocultas por estantes onde se empilham caixas e caixas de ferramentas e acessórios destinados a trabalhar o couro: alicates, tesouras, fios, calcadeiras, lixas, palmilhas, molas, atacadores, solas e respectivos protectores, escovas, fivelas, tintas, colas, produtos para hidratação das peles, pregos e grampos de toda a espécie. Num canto, está empilhado o “stock” de peles. Na sua maioria são de vaca, carneiro e coelho, mas também é possível encontrar peles de cobra e até de crocodilo. Os couros são trabalhados de diversas maneiras e há algumas – de vaca, ovelha e cabra – que se vendem inteiras, para tapetes, ou a retalho.

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A clientela da Casa Forra é o mais variada que se pode imaginar. Todos os dias, entra ali gente de todas as classes sociais e de todos os géneros: sapateiros, fabricantes de calçado e artesãos que vão adquirir o material de que necessitam para o seu trabalho, pessoas de poucos meios que querem prolongar a vida de um “anorak” cujo fecho éclair se estragou e que aguardam a sua vez ao lado de mulheres de aparência “chic” que desejam recuperar a mala de mão vintage herdada da avó, do jovem que pretende adaptar às novas modas o seu fato de motard, ou ainda do executivo que quer devolver à pasta de trabalho o brilho que tinha quando era nova.

“Há um senhor japonês que vem cá arranjar a pasta todos os anos. Mas não é o único, temos muitos clientes estrangeiros que ficam entusiasmados com a nossa loja porque dizem que conseguem recuperar aqui peças de que gostam e que deitariam fora, se estivessem na terra deles”, conta Sónia Holm, mulher do gestor da Casa Forra, que, por sua vez, é bisneto do fundador, Alfredo Pires Forra.

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No andar de cima, duas costureiras executam os trabalhos mais elaborados, que envolvem, muitas vezes, o desmantelamento da peça a recuperar, sejam sacos e malas ou peças de roupa. Os preços são em conta. Por tudo isto, a Casa Forra é uma autêntica instituição, na baixa de Lisboa. O molde de sapato amarelo pendurado à porta remete para uma área de negócio que, em tempos antigos, foi o ponto forte da Casa Forte: o fabrico de moldes para sapatos.

“Dantes, quando os sapatos eram feitos por medida, esta casa fornecia os moldes de madeira para todo o tipo de sapatos, que eram fabricadas no Poço do Bispo. As formas faziam-se a partir das medidas do pé do cliente. Nunca fizemos nem arranjámos sapatos, apenas fornecíamos os moldes. Mas já não fazemos, aliás, hoje em dia, muito pouca gente fabrica sapatos por medida, em Portugal. Em Cascais, há ainda um senhor que os faz”, afirma Sónia Holm.

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A Casa Forra já chegou a ter vinte estabelecimentos abertos em todo o país, mas actualmente está reduzida a duas em Lisboa e duas no Porto. “O Sr. Alfredo Pires Forra ia todos os anos ao estrangeiro, trazia as últimas novidades. O negócio era próspero, tanto assim que ele deu sociedade a vários empregados. Mas foi preciso reduzir, e agora está tudo concentrado na família. Não nos queixamos do negócio. Vivemos na época do descartável, e nós contrariamos isso”, sublinha Sónia Holm.

Licenciada em comunicação social, Sónia Holm faz jus à sua formação académica, desdobrando-se em simpatia e conselhos a quem lhos pede. “Há gente que vem aqui apenas comprar umas palmilhas para os sapatos ou para fazer mais um furo no cinto, mas também há quem não vem comprar nada, apenas ouvir conselhos. E nós ajudamos no que podemos”.

Sem cedências à modernidade, a Casa Forra está igual a si própria, por dentro e por fora. E é raro o dia em que não haja filas de gente à espera de ser atendida.

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COMENTÁRIOS

  • Carlos Lopes
    Responder

    Como se pode ver na fotografia não é um sapato, é uma forma.

  • Sulamita
    Responder

    boas as informa

  • Maria Joao Saude
    Responder

    Quanto tempo levam a enviar uma encomenda

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