O ambiente era mais de convívio entrecortado pela azáfama do que de pesar ou de revolta. Ao início da tarde desta segunda-feira (25 de julho), já ia bem adiantada a operação de despejo e limpeza da mercearia Casa Alves, que desde 1957 ocupava o número 112 da Rua de São João da Praça, na zona da Sé, em Alfama. Há caixas empilhadas, prateleiras que se esvaziam, mas também risadas. Lá fora, de onde turistas ruborescidos esboçam máscaras de esforço para tentar perceber o que era aquela loja, o calor é insuportável, mas cá dentro, à sombra, respira-se um ar de resignação aliviada.

 

É um adeus, claro. Sábado foi o último dia de actividade comercial, após quase seis décadas naquele local, como já havia sido anunciado há algum tempo pelo proprietário, José Alves, 64 anos. Atarefado, vai agora carregando caixotes de cartão para uma carrinha que está estacionada do outro lado da rua. Os amigos, todos homens da mesma banda etária, dão uma mão. Mais uns que outros. Já houve espumante, a seguir a uns petiscos, por isso nem todos estarão operacionais para a tarefa. O que virá a seguir para aquele espaço, ele desconhece. Mas suspeita que será qualquer coisa de “comes e bebes para turistas”.

 

Na verdade, trata-se de um desfecho anunciado com alguma antecipação. Desde que o imóvel foi vendido, em Outubro do ano passado, que se sabia que as intenções do novo senhorio passavam por outra coisa que não a manutenção daquela loja tradicional. O que está planeado é fazer obras no prédio, que tem estado vazio nos restantes pisos, para o tornar mais rentável. O rés-do-chão onde funcionava a loja não será exceção. E, em consequência, as rendas terão que subir. Isso já era sabido.

 

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“Como as coisas estavam, já não dava para aguentar. Se tivesse um fundo de maneio bom, poderia resistir. Mas não era o caso. Fico com pena, claro”, diz ao Corvo José Alves, num intervalo nas arrumações e mudanças que o têm ocupado desde a manhã. São três décadas de labor intenso cujos vestígios são agora empacotados ou atirados para o lixo. O comerciante herdou, nessa altura, a loja do pai, que havia ali começado o negócio outros 30 anos antes. Apesar da parceria, surgida no início do ano, com A Vida Portuguesa, da empresária Catarina Portas, já não havia condições para continuar, garante.

 

“Li nos jornais essa história toda das Lojas com História, que a Câmara de Lisboa criou para ajudar os estabelecimentos mais antigos, mas já não dava mesmo para continuar”, afirma José Alves, confessando também o cansaço de tantos anos atrás do balcão. Ainda assim, o pequeno empresário diz que recebeu a “garantia da câmara de que vão manter as prateleiras de madeira que aqui estão”. Muito possivelmente, funcionarão como cenário para um novo estabelecimento comercial mais vocacionado para servir os muitos turistas que ali passam, cada vez em maior número. “Qualquer dia, Alfama é só para o turismo”, desabafa.

 

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Uma observação repetida, à vez, pelo seus amigos, muitos deles antigos funcionários, ou em situação de quase reforma, das muitas empresas de despachantes alfandegários que existiam na zona. “É uma tristeza que isto seja assim. Esta era a única mercearia onde a gente vinha abastecer-se”, diz, inconformado, Rui Marques, 59 anos, empregado de uma dessas empresas – a qual teve de se mudar daquela rua para a Quinta do Lambert, no Lumiar, “por causa da pressão para abrir alojamentos turísticos”. A Lei das Rendas veio criar uma dinâmica nesse sentido.

 

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Também Carlos Silva, 65, lamenta o destino deste bairro lisboeta. “Agora, já nem conhecemos bem Alfama, é só hotéis e hostels, uns atrás dos outros”, critica, lamentando o desaparecimento da Casa Alves, onde vinha sempre comer uns petiscos com os amigos. Por vezes, “assava-se um chouriço, lá atrás, e ficávamos aí a conversar”, recorda. Ao que se assiste por estes dias, em Alfama, é, então, uma espécie de elegia resignada. Mudam-se os tempos, mudam-se os estabelecimentos comerciais.

 

Texto: Samuel Alemão

 

  • Mario Fernandes
    Responder

    Pelo menos o interior mantém-se. Mas também é preferível uma Alfama mais turística e cosmopolita do que a favela terceiro mundista que tem sido e ainda é.

  • Joao Villalobos
    Responder

    Na hora da despedida da Casa Alves, é tudo para ir embora, menos as prateleiras https://t.co/bhTPwbndxv

  • Maia Elbling
    Responder

    mais uma loja trasformada em meciaria moheee

  • Paulo Ramos
    Responder

    O que interessa é “camones” o resto que se lixe infelizmente é a política desta vereação camarária

    • Vasco
      Responder

      Uma loja não vende e a culpa é da Câmara?

  • Nâhdja Alanna
    Responder

    Portugal está a ficar cada vez menos português..

  • São Lopes
    Responder

    Espero mesmo que conservem o interior e fachada. Estão a acabar as minhas lojas/museu… 🙁

  • João Barreta
    Responder

    Reitero a sugestão ao “CORVO” para um trabalho, inclusive de alguma investigação jornalística, que tente saber qual o ponto de situação da Recomendação feita pela Assembleia da República ao Governo sobre a questão das “Lojas Históricas”. No fundo tentar perceber o que se estará a fazer sobre o assunto e quem é responsável por tal trabalho

  • Ana Maria Coutinho
    Responder
  • Luís Marques
    Responder

    Aqueles que estão contra o fecho da loja, quando o próprio dono diz que “já não dava”, qual a solução que preconizavam? Subsídio aos proprietários para manter a loja aberta se der prejuízo? E depois, como se motiva o proprietário a esforçar-se para não ter prejuízo, dado que já recebeu subsídio?

    Enfim…ser de esquerda é sempre muito fácil.

    • Vasco
      Responder

      E muito provavelmente nunca entraram na tal loja. Por vontade da esquerda Lisboa seria só ruínas e coitadismo.

  • João Barreta
    Responder

    Pensar o Comércio nunca foi “coisa” de esquerda ou de direita, o que acontece é que de ambos os lados não tem existido … cabecinha para isso!!!!!!!!!!!!!!

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