A poucos dias de terminar, aquela que é uma das mais tradicionais feiras de Lisboa continua a animar Carnide. Organizada pela primeira vez pela junta de freguesia, nela os vendedores esforçam-se por afastar os fantasmas da crise e fazer algum dinheiro. Mas o negócio já teve melhores dias. O que vale é que há ingleses a ensinarem danças escocesas.

 

Texto: Mário de Carvalho

 

As farturas são uma das guloseimas indispensáveis no enriquecimento das feiras, em conjunto com as tendas de venda de artesanato, de loiças, de roupas ou de calçado, mas encontrar um espaço para aprender a dança escocesa, só mesmo na Feira da Luz.

Organizada pela primeira vez pela Junta de Freguesia de Carnide, a feira que decorre até ao próximo domingo, dia 28, no Jardim da Luz, tem diversos aliciantes para o visitante. Isto apesar de muitos dos vendedores habituais dizerem que existem muitos visitantes, mas menos compras.

No recinto existem pelo menos quatro locais onde se vendem farturas a um euro cada, com promoções especiais do tipo “leve sete e pague cinco”. Manuel Fonseca, que está neste negócio dos churros e das farturas há alguns anos, observa que “circula menos dinheiro”. “Dantes, compravam duas farturas para cada um, agora é uma para dois”, queixa-se.

Na feira, a diversidade é grande. Por isso, no espaço de venda de roupa, houve-se apregoar bem alto: “não meta no saco sem pagar”.

Neste recinto de festa, entre o grande bazar da Turquia, o artesanato e a padaria saloia, as pessoas cruzam-se na procura da diversão, quando são surpreendidas com uma atuação no palco principal. Não é Herman José, um dos artistas do cartaz deste ano das festividades, nem nenhum cantor pimba. A música e a dança são da Escócia.

O casal inglês formado por Roger Picken, professor de matemática, e Sue Willdig, reformada, que vivem em Portugal há cerca de 30 anos, são os responsáveis pela divulgação da dança escocesa. “Somos amadores, mas ficamos apaixonados por esta dança há uns anos, quando vivíamos no Estoril”, disse ao Corvo Sue Willdig, que juntamente com o seu marido – docente no Instituto Superior Técnico – criou, em 2004, o Grupo de Dança Escocesa da Associação de Residentes de Telheiras.

“Não ganhamos a vida com isto. Trabalhos para a comunidade, numa atividade de convívio e educativa, que as pessoas gostam”, adianta Willdig, que faz questão em destacar o apoio da Junta de Freguesia de Carnide, através da cedência de espaço para as atividades do grupo de dança. “Começamos a ter mais gente interessada”, comenta.

Questionada sobre a sobre a necessidade de usar ou não o kilt nas aulas – a típica saia de pregas de xadrez escocês -, que o seu marido enverga na dança, Sue explica que não é obrigatório. Basta a boa disposição e umas sapatilhas. No entanto, alguns homens vestiam o traje tradicional e várias mulheres usavam uma echarpe de diferentes padrões de quadrados (xadrez) escoceses, que representam diferentes clãs.

 

Feira Luz 2

O referendo pela independência já ficou para trás, mas as danças existirão para sempre.

 

A presença do casal no recinto da Feira de Luz foi a forma de dizerem às pessoas que a dança escocesa é acessível a todos. Sue lembra que, apesar de ser inglesa, compreende a posição dos escoceses em lutarem pela sua independência. Findo o sonho imediato – ditado pela vitória do “não” à independência no referendo -, concorda com as promessas do governo britânico em conceder mais poderes a Edimburgo. “É uma boa solução”, diz.

A Feira da Luz estava integrada, na Idade Média, num roteiro de procissões, onde o “círios”, tocha de cera transportada pelos romeiros para oferecer à divindade, eram um dos símbolos de união das comunidades – pois cada local tinha o seu santo de culto, sendo o Espírito Santo o que reunia maior número de crentes.

Aliás, os designados “círios saloios”, nomeadamente de Nossa Senhora do Cabo (Espichel), que este mês também se celebrou em “Chão de Meninos” (Sintra), são uma antiga prática religiosa e cultural que une comunidades afastadas geograficamente. No século XV, envolviam as populações do que são hoje os concelhos de Lisboa, Sintra, Cascais, Mafra, Loures, Odivelas e Oeiras. A procissão de Nossa Senhora de Luz integra-se neste conjunto dos “círios saloios”, que ainda hoje se mantém.

A realização da Feira de Luz estava igualmente associada ao final das primeiras colheitas de verão. A nobreza instalada, nomeadamente, nas suas quintas do Lumiar, Benfica e Carnide, era visitante de feira de devotos da Santa. O recinto chegou a ter um mercado de gado muito concorrido.

  • Um Graçista
    Responder

    Não tendo nada a haver com a dança escocesa, visitei a Feira da Luz este ano e, na secção da roupa, assisti à banalização da mesma, devido à venda de roupa falsificada, como nas outras feiras 🙁

  • Ana Paula Cardoso
    Responder

    Eu vou na sexta depois da Massa Crítica Lisboa 😉 Herman José Blog 😀

  • Gilberto Gustavo
    Responder

    Vais lá Isabel? Diz, para irmos papar umas farturas. São capazes de ser melhor que as da Luz de Tavira,eh!eh!eh!

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