O que é mau para uns é, por vezes, bom para outros. Mas, no caso dos estabelecimentos comerciais da zona da Almirante Reis, onde é cada vez maior o número de lojas fechadas, tal não sucede. A crise ali afecta todos. E nem a casa de penhores tem razões para estar satisfeita.

 
“Também nós sentimos uma quebra. Começou no último trimestre do ano passado e agora, em 2013, acentuou-se muito. Quem tem ouro já não o penhora, vende-o, porque casas a comprar ouro há cada vez mais”, conta o empregado da casa de penhores da Rua dos Anjos, que ali trabalha há dois anos e nota cada vez menos movimento.

 
Da mesma falta de movimento se queixam os comerciantes que ainda mantêm portas abertas naquela zona. Na Rua de São Lázaro, perto do Martim Moniz, uma loja de têxteis persiste, mas já pouco vende. E os donos acham que nem vale muito a pena falar da situação, quando se lhes pergunta como vai o comércio.

 
“A resposta está nas ruas, à vista de todos. Só não vê quem não quer”, diz a mulher do proprietário, algo enfadada. “Isto agora é ficar à porta a ver passar (os clientes). Não há dinheiro e as pessoas não compram. Estamos num túnel sem saída”, acrescenta. “Chegámos a ter aqui seis empregados. Agora somos só nós e estamos mal, claro”, diz o dono que, com a mulher, assegura o funcionamento da loja.

 
Na mesma rua, vários estabelecimentos já fecharam portas, num cenário que se repete pela Almirante Reis acima. No 18-A, as montras estão forradas de papel. “Era uma loja de pronto-a-vestir que encerrou há coisa de três meses”, conta o lojista vizinho, proprietário da pequena drogaria Raju, que ali está estabelecido há mais de 25 anos.

 
“Estamos aqui horas sem ver ninguém entrar. Isto está complicado”, diz o homem, que mesmo assim mantém ainda a esperança de ver melhores dias. A crise no negócio é algo que já conheceu anteriormente. “Estive em Moçambique e aguentei-me lá até 1984, ainda me mantive nove anos depois da independência. Mas chegou a um ponto em que já não dava mais. Mas em Moçambique era diferente. Havia dinheiro. Não havia era mercadoria”, conta o dono da Raju.

 
Subindo a Almirante Reis, de ambos os lados da avenida, há várias portas com os gradeamentos trancados. Na esquina com a Rua Álvaro Coutinho, fechou uma loja de electrodomésticos e, não longe, do lado oposto, um outro estabelecimento que já não revela o que foi.

 
Um pouco mais acima, mantém-se aberta a Casa Mimosa, uma loja de roupa que há quase 11 anos é propriedade de Maria Noémia Casimiro, que diz ter dado “cinco mil contos pelo trespasse”, um dinheiro que, sublinha, nunca recuperou com o negócio.

 
Calças a 15 euros anunciam-se à porta, mas nem os preços baixos a fazem vender mais. Nem isso, nem a desgraça alheia. “Na Rua de Arroios, fecharam duas lojas de roupa e ainda pensei que talvez passasse a ter mais movimento. Mas não. Entra aqui muita gente, mas é mais para pedir informações”, diz.

 
“Passam-se dias que não vendo nada. Mas ainda não me convenceram a ir para casa, por isso cá estou e vou continuar por mais algum tempo. Estar aqui é sobretudo uma maneira de me sentir activa”, diz a proprietária, que, com 70 anos muito bem conservados, revela não depender apenas do negócio, o que lhe permite ser mais persistente do que outros proprietários a quem a falência já bateu à porta.

 

 

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Na Rua de São Lázaro, junto à Avenida Almirante Reis, o cenário também é desolador

 

Texto: Fernanda Ribeiro        Fotografias: Carla Rosado

 

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