A Assembleia Municipal de Lisboa votou ontem, por surpreendente unanimidade, a favor do baptismo do Jardim dos Coruchéus, em Alvalade, como Jardim João Ribas. O vocalista dos Censurados e Tara Perdida, falecido a 23 de Março, será o primeiro músico punk a dar nome a um espaço público da capital. A institucionalização de quem fez carreira cantando contra as instituições.

 

Texto: Fernanda Ribeiro                               Fotografia: Pedro Lopes

 

Inédito, inesperado e, até, “emocionante”, nas palavras de Helena Roseta, presidente da Assembleia Municipal de Lisboa (AML), foi o momento que ontem se viveu naquele órgão, quando foi apresentada uma petição que, surpresa, mereceu o voto favorável e o aplauso de todas as bancadas. A mesma propunha a atribuição do nome do músico punk João Ribas ao Jardim dos Coruchéus, em Alvalade.

Para que tal aconteça, e após a aprovação por unanimidade dada pela Assembleia Municipal, a proposta ainda terá de ser submetida à Comissão de Toponímia da Câmara Municipal de Lisboa. Mas ontem, no Fórum Lisboa, casa da AML, a ideia já ganhou, sem margem para dúvida. Pelo menos no plano das intenções.

Apresentada por Mário Rui Souto, um “orgulhoso funcionário da Câmara Municipal de Lisboa” e amigo do músico João Ribas, falecido há três meses, esta petição surgiu por “um impulso puro de cidadania apolítica”, como fez questão de sublinhar o seu primeiro subscritor, segundo o qual “Coruchéus e Lisboa eram e são a casa de João Ribas”.

A cidadania apolítica teve, neste caso, de imediato grande sucesso, e rapidamente a petição angariou perto de 1500 assinaturas, o que justificou levá-la à Assembleia Municipal.

“João Ribas personificou uma vivência em grande sintonia com o seu estilo. Era punk. Foi um resistente que privilegiou o “português”. Dizia e cantava o que sentia em relação à sociedade. Sabemos quanto isso é incómodo”, disse Mário Rui, falando sobre o percurso do músico, nascido e criado em Alvalade, que fundou a banda Censurados, em 1988.

As palavras de Mário Rui – às quais juntou a exibição do vídeo do tema “Lisboa”, dos Tara Perdida e de Tim, dos Xutos e Pontapés – emocionaram a Assembleia, que se rendeu à petição. “Emocionante”, dizia no final a presidente, Helena Roseta. E a apresentação da ideia cedo se transformou numa homenagem pública a João Ribas.

“Quer queiramos, quer não, o jardim dos Coruchéus já é o Jardim João Ribas. A marca dele ainda lá está!”, dizia, inflamado, André Caldas (PS), presidente da Junta de Freguesia de Alvalade, ainda antes de ser votado o parecer da Comissão de Cultura da AML, em concordância com a proposta dos peticionários.

E ,de repente, a revelação inesperada de que entre os eleitos da Assembleia Municipal de Lisboa havia não só amigos e vizinhos, como inúmeros admiradores de João Ribas, a considerar merecida e justa a pretensão de dar o seu nome à zona evolvente da Biblioteca Municipal dos Coruchéus.

Do CDS-PP ao Bloco de Esquerda, do PS ao PCP, dos deputados independentes ao PAN, todos elogiaram a postura do músico, um anarquista “que sempre disse o que queria”. E todos quiseram homenageá-lo.

Diogo Moura do CDS-PP foi o primeiro eleito a surpreender, na apreciação feita em que justificou o apoio à proposta: “João Ribas era um artista não associado ao mainstream, mas Lisboa também se faz de minorias artísticas. E assim o prova esta homenagem”, disse o deputado centrista.

“Mais do que um artista, João Ribas foi um activista político, porque o punk-rock sempre foi muito isso, activismo político”, disse, por seu turno, a representante do Bloco de Esquerda.

José Alberto Franco, deputado independente, e “freguês de Alvalade”, como se reivindicou, disse ser com “alguma emoção” que se associava à iniciativa.”Este artista, pelas características de combate, merece ter uma homenagem na freguesia de Alvalade”.

Também Miguel Santos, do Partido pelos Animais e pela Natureza (PAN) exaltou o exemplo de João Ribas: “São estes os exemplos de que nós precisamos, de pessoas que se mantêm fiéis aquilo que pensam. O jardim dos Coruchéus era o sítio onde ele costumava tocar, e o PAN associa-se pois à petição e à memória de João Ribas”.

Já o PCP destacou a raridade que é surgirem artistas como João Ribas. “Não é comum em artistas tomarem posições políticas desta forma e João Ribas nunca deixou de transmitir a sua e de tomar partido. Por isso, o PCP saúda a iniciativa, esperemos que o Jardim João Ribas seja uma realidade”, disse uma deputada comunista.

João Afonso, vereador com o pelouro da Juventude, disse ser, “no mínimo, contagiante” a ideia de atribuir o nome de João Ribas ao Jardim dos Coruchéus, para quem cresceu em Alvalade. “Marcar a presença na cidade de pessoas como João Ribas é essencial. Viva o João Ribas!”, disse.

Menos calorosa foi Catarina Vaz Pinto, vereadora da Cultura, que, apesar de ter aplaudido a ideia da petição, que “faz todo o sentido”, lembrou que a proposta de “atribuição do nome de João Ribas ao Jardim dos Coruchéus terá ainda de ser submetida à Comissão Municipal de Toponímia”.

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