A instalação de um museu dedicado à saúde na Colina de Santana, tendo por núcleo principal o Hospital de São José, foi por mais que uma vez defendida no quarto de uma série de cinco debates sobre os impactos da operação urbanística em gestação para aquela zona do centro da cidade, organizado pela Assembleia Municipal de Lisboa e ocorrido ao fim da tarde desta terça-feira.

 

A historiadora Raquel Henriques da Silva, membro do painel do debate, foi quem primeiro apresentou a sugestão do museu, que aproveitaria “espólios de qualidade muito significativa”, pertença de diferentes hospitais da colina. Na zona de Santana, em Santa Marta, funcinou, entre 1957 e 1974, um Museu dos Hospitais Civis de Lisboa, agora abandonado e com as colecções dispersas, enquanto nos Capuchos existe o Museu da Dermatologia e no Miguel Bombarda se constituiu uma expressiva colecção de arte produzida pelos doentes que o frequentaram. No São José, ao rico património azulejar, junta-se, por exemplo, uma “biblioteca notabilíssima”.

 

A memória destes hospitais tem que permanecer, disse a historiadora. Para ela, “a vocação fundamental do Hospital de São José será a de núcleo principal” desse futuro Museu da Saúde, independentemente da função que o Estado lhe reserve. Também o cirurgião Damas Mora se pronunciou no mesmo sentido.

 

Para outros, como a médica Elsa Soares Jara, a vocação do São José é manter-se a funcionar como hospital, bem como os outros dois ainda em actividade. Considerando que não há fundamento para a destruição dos estabelecimentos de saúde da colina – num total de seis, nas mãos da empresa de capitais públicos Estamo, que os pretende lotear para construir habitação e hotéis –, afirmou: “Quem não honra o passado não terá nunca futuro”. Em sentido idêntico intervieram deputados municipais do PCP.

 

Num processo que já vem de longe, o Governo, invocando custos pesados das unidades hospitalares da Colina de Santana e a vantagem da sua substituição por um novo hospital – o de Todos-os-Santos, a erguer não se sabe quando, em Marvila –, entregou à Estamo seis unidades de saúde desactivadas ou a desactivar (São José, Miguel Bombarda, Capuchos, Desterro, Santa Marta e Santa Joana) para as reconverter em novas urbanizações. Os processos conducentes ao loteamento das quatro primeiras desta série já deram entrada na Câmara Municipal de Lisboa.

 

“O património é sagrado, mas não é intocável”, sintetizou António Rendas, reitor da Universidade Nova de Lisboa, que assumiu um compromisso: “Vamos ajudar a transformar a Colina de Santana na Colina do Conhecimento. Para isso, “é preciso dar voz aos técnicos e à sociedade”, disse. Aqueles devem “apresentar soluções viáveis, porque não creio que ninguém esteja satisfeito com a degradação da Colina de Santana”, disse. “Digam o que querem fazer e quanto é que custa. Sem isso, ficamos em terreno pantanoso”. Defendeu ainda que se ouçam também os responsáveis hospitalares. Lembrando que a medicina que se faz neste conjunto de hospitais “é de grande qualidade”, perguntou como é que se vai fazer a transição entre estes e o futuro Hospital de Todos-os-Santos.




 

A colina deve manter uma ou mais unidades de saúde, defendeu, por seu turno, José Aguiar, professor da Faculdade de Arquitectura de Lisboa. Este membro da mesa de oradores lamentou que o Documento Municipal de Estratégia para a intervenção não preveja mais do que reabilitar os edifícios mais pobres e que permita a densificação imobiliária no que toca ao “bife” da colina – os grandes recintos hospitalares.

 

Segundo Vítor Freire, administrador hospitalar, o índice de construção proposto pela Estamo para o Hospital de São José, com prédios de cinco andares, é alto e, a ser cumprido, constituirá “um atentado à cultura portuguesa e europeia”. Os projectos não contemplam zonas especiais de protecção, criticou. Propôs, por isso, o congelamento dos projectos para os recintos hospitalares, que só deverão ser negociados após a construção do seu substituto, em Marvila. E sugeriu a criação de um pólo cultural no desactivado Hospital Miguel Bombarda, para a arte “outsider” produzida por antigos doentes, a ser servido por uma linha de eléctrico vinda do Martim Moniz.

 

Os cerca de duzentos participantes no penúltimo debate dedicado ao impacto da intervenção urbanística na Colina de Santana puderam observar que algumas demolições de limpeza já começaram em edifícios desocupados, como é o caso do Desterro, onde se repôs o claustro, que fora fechado.

 

A prevista demolição de edifícios registados na carta municipal do património não é pacífica. Segundo Maria Ramalho, membro do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS), tais intervenções “carecem de fundamentação séria” e “há edifícios muito bons que não estão classificados”. Um deles será o edifício em “poste telefónico” das enfermarias do Miguel Bombarda.

 

Mesmo fora das cercas que delimitam as grandes unidades de intervenção entregues à Estamo, esta é “uma das zonas mais ricas da cidade de Lisboa do ponto de vista patrimonial”, comentou o olissipógrafo José Sarmento de Matos, que ali tem estudado diversos edifícios do século XVIII pós-1755, onde se incluem exemplos de alternativas ao modelo construtivo aplicado pela Sala do Risco na Baixa Pombalina – uma delas é o palacete Tomé Sequeira, na Calçada de Santana.

 

No termo da discussão, a deputada municipal Simoneta Luz Afonso (PS) diria ter ficado “uma certeza: queremos preservar a memória da Colina de Santana”. Da série de debates deverá sair um conjunto de recomendações da Assembleia Municipal ao executivo camarário.

 

Texto: Francisco Neves              Fotografia: Samuel Alemão

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