Funcionando como um concentrado das diversas fases históricas da cidade de Lisboa, o Núcleo Arqueológico da Casa dos Bicos, inaugurado na noite de segunda-feira (14 de Julho), é como uma cápsula do tempo em que a narrativa se faz na pedra. Dentro do edifício do século XVI, no seu piso térreo e fundações, encontram-se vestígios desde a era romana até ao presente, numa sobreposição e assimilação de diferentes períodos, como o visigótico, o mouro e o medieval. Fica-se agora a conhecer melhor como poderá ter sido a evolução desta parte ribeirinha da cidade, com a particularidade de, pela primeira vez, se conseguir observar um pequeno troço da muralha romana, com 18 metros de extensão. Outro dos pontos de interesse é o conjunto de quatro cetárias – tanques de salga de peixe.

A parcela da estrutura militar, cuja construção original terá ocorrido no período mais tardio da ocupação romana (final do século III, início do século IV), mas foi sendo alvo de sucessivas intervenções até à época medieval, inclui vestígios de duas torres parcialmente sobrepostas. E para a sua edificação foram utilizados elementos pré-existentes, como um afloramento rochoso. “Temos aqui cerca de dois mil anos de história, desde o século I até à actualidade. O interessante é que podemos assim ver o que aconteceu ao longo deste períodos. É uma boa amostragem da evolução das diversas eras da cidade”, diz ao Corvo Manuela Leitão, arqueóloga municipal que, juntamente com Vasco Leitão, liderou o trabalho científico no núcleo agora aberto ao público. “Isto é muito importante, vale a pena as pessoas virem ver”, diz.

 

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Trata-se da primeira vez que tal se torna possível, apesar de as escavações que originalmente revelaram os vestígios da muralha e os outros elementos construtivos – como as quatro cetárias retangulares – terem ocorrido há já três décadas. Isso aconteceu no início da década de 1980, quando a Casa dos Bicos foi alvo de uma intervenção profunda de reabilitação, no âmbito da XVII Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura, realizada em 1983. Na altura, os trabalhos arqueológicos liderados por Clementino Amaro e José Luís de Matos, ao serviço do Instituto Português do Património Cultural (IPPC), trouxeram à luz contemporânea estruturas que se revelavam importantes para entender como se realizou ali a ocupação do território. Tais escavações foram aprofundadas em 2010, aquando de nova campanha arqueológica, quando o município decidiu que os pisos superiores da Casa dos Bicos seriam destinados à Fundação José Saramago.

 

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Os novos trabalhos permitiram chegar ao que está agora à vista. E o interesse do acervo arqueológico desvelado, é bom recordar, está longe de se cingir aos vestígios da muralha – que se encontra numa posição recuada face à fachada do edifício e cujas mais recentes escavações, faz notar Vasco Leitão, tiveram a “preocupação de ir até ao embasamento”. No fundo, os trabalhos foram retomados onde haviam sido deixados e, por agora, terminados. Apesar de ter durado entre quatro a seis meses, a derradeira intervenção arqueológica teve de esperar que fosse finalizada a sua conversão em espaço expositivo, realizada pelos arquitectos Manuel Vicente e João Santa Rita – este é filho de Daniel Santa Rita, que, juntamente com Manuel Vicente, assinou o projecto original de reabilitação da Casa dos Bicos.

 

Texto: Samuel Alemão

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