De uma estratégia inventada por um homem para combater a solidão deverá nascer um ícone de grande dimensão, pairando sobre um dos locais com melhor vista sobre a cidade onde ele viveu. O colectivo artístico multidisciplinar belga BERLIN deixou-se tocar pela força da bem conhecida estória de João Manuel Serra, o Senhor do Adeus, que durante cerca de uma década acenou aos passantes nas zonas do Saldanha e do Restelo – recebendo de volta semelhante gesto de quem com ele simpatizava. A intervenção faz parte de um conjunto mais alargado de sete obras artísticas, a realizar sob o mote das sete colinas que enformam a cidade de Lisboa.

 

Falecido em Novembro de 2011, o Senhor do Adeus deixou órfã uma heterogénea comunidade de admiradores. Agora, deverá ver o seu gesto eternizado de forma gráfica, através de um painel gigante interactivo composto por 729 azulejos, colocados na fachada lateral de um edifício localizado na Senhora do Monte, na Graça. O projecto encontra-se em fase de preparação e, apesar de contar com alguns apoios institucionais – entre os quais do governo belga -, deverá ser financiado sobretudo com verbas recolhidas através do sistema de crowdfunding, que pretende juntar 32.805 dólares (29.366 euros). Lançada na semana passada, ao final da tarde desta terça-feira (2 de Junho), a campanha tinha conseguido recolher 3.170 dólares (correspondentes a 10% do total).

 

Mais do que apenas replicar o aceno, a obra tentará reproduzir a relação que existia entre o Senhor do Adeus e as pessoas que lhe acenavam. Isto porque o painel, cuja construção apenas deverá arrancar em 2016, será interactivo. Cada um dos 729 azulejos terá “36 pequenas bolas, pretas de um lado e brancas do outro, programadas para rodar, num comportamento semelhante aos dos pixeis de um écran”, num dispositivo concebido por Manu Siebens e Joris Festjens e que se inspirou na tecnologia utilzada nos painéis de informação dos aeroportos. O braço esquerdo da representação acenará a todos os que assim o desejem, através de uma ordem desencadeada por uma aplicação (app) de smartphone criada para o efeito. Ao mesmo tempo, faz-se uma releitura provocatória da tradição azulejar portuguesa.

 

Formado, em 2003, pelos artistas Bart Baele and Yves Degryse, o colectivo BERLIN sempre desenvoveu uma actividade em torno da vida de cidades espalhadas pelo mundo (como Moscovo ou Jerusalém), realizando retratos através de várias disciplinas artísticas: teatro, performance, música ou artes plásticas. Sempre com um forte componente tecnológica. Em Lisboa, já apresentaram as suas criações no âmbito do Alkantara Festival 2008 e 2010. Foi aliás na sequência de uma residência no Espaço Alkantara, em 2011, que surgiu a ideia de avançar com o Septimontium Project, que tem como ambição intervir nas sete colinas da cidade, “criando, em colaboração com artistas e comunidade local, obras que têm como matéria de trabalho a recolha de histórias locais, e a exploração e cruzamento da azulejaria portuguesa com a experimentação tecnológica”.

 

“O processo de trabalho deles é imensamente participado e envolve entrevistar imensa gente, sejam pessoas conhecidas ou transeuntes. A dada altura, depararam-se numa rua com um stencil (representação gráfica) do Senhor do Adeus e quiseram saber quem era. Contaram-lhes e eles acharam a história fantástica”, explica ao Corvo Maria Manuel Ferreira, representante da dupla na sua acção lisboeta, salientando o facto de que, com o painel planeado, “ser a primeira vez que os BERLIN quiseram deixar um marca na cidade, tendo o espectador que se deslocar a Lisboa para a ver”. Até aqui, as intervenções tinham um carácter móvel, circulando de cidade em cidade. Esta manter-se-á na capital portuguesa, num local que garante uma grande visibilidade e uma relação única com o rio Tejo.

 

Texto: Samuel Alemão

 

 

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