Uma autocaravana estacionada ilegalmente, uma mulher italiana a denotar evidentes sinais de precariedade social e a sorte de um cão de grande porte que se encontra quase sempre fechado dentro do veículo têm estado a provocar reacções emocionadas no antigo Bairro das Colónias (cuja designação oficial é Bairro das Novas Nações), nos Anjos, freguesia de Arroios. As autoridades policiais alegam nada poder fazer, mas, de dia para dia, cresce a indignação popular. Tanto que há mais de uma semana que o veículo foi vandalizado, com os pneus a serem furados e os limpa para-brisas partidos.

 

As últimas duas semanas têm sido de alvoroço no início da Rua da Guiné, junto ao entroncamento com a Rua de Angola. Há gente a mostrar revolta com o que julgam ser o mau trato do animal, a trazer-lhe comida e garrafões com água e a polícia a tentar falar com a mulher – que apenas se expressa em italiano, aparenta perturbação mental e terá dificuldades em explicar as razões da sua actual condição. Mas, tirando isso, nada acontece. O que aumenta a sensação de desconforto ante tal cenário de miséria, bem no coração da cidade.

 

De acordo com as autoridades, para além do parqueamento ilegal – cuja fiscalização é responsabilidade da EMEL -, nenhuma outra infracção ou crime estarão a ser cometidos. Desde que o veículo de matrícula italiana estacionou naquele arruamento, junto a um café, a sorte da mulher e do canídeo têm sido alvo de olhares, comentários, especulação e discussão acalorada entre vizinhos. As pessoas tentam conversar com ela, perceber o que se passa, mas a incompreensão prevalece. O Corvo tentou falar com a mulher, o que se revelou infrutífero.

 

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Quase todos os dias, há patrulhas policiais a chegar e a registarem a ocorrência. Mas, após falarem com a dona da autocaravana, e verificarem a sua identidade, acabam por ir embora. Nesta quinta-feira (9 de junho), isso aconteceu por duas vezes. E a situação apenas poderá ter um desfecho, diz a PSP, quando a EMEL conseguir mobilizar os meios para rebocar o veículo. O facto de ser uma viatura pesada parada num plano inclinado estará a dificultar a operação, garantem agentes policiais que ali acorrem.

 

De acordo com um agente da Polícia Municipal (PM) de Lisboa com quem O Corvo falou, ontem ao fim da manhã – numa altura em que ali estavam uma patrulha da PM e outra da PSP -, “nada pode ser feito em relação ao cão, porque a senhora diz que lhe dá comida e água e o leva a passear”. “Não posso arrombar a caravana e causar danos para tirar o animal. Temos que seguir o que está na lei”, afirmou o mesmo agente.

 

Mas a precepção de muitos moradores é a de que o animal estará em sofrimento, uma vez que, além de se encontrar grande parte do dia confinado à cabine do veículo, sofrerá as consequências térmicas agravadas pelo calor que se tem feito sentir. Ainda para mais, sendo husky siberiano, raça não acostumada a temperaturas muito elevadas. “Um bicho destes não devia estar aqui, é uma tortura. Não está habituado a este calor”, indignava-se uma senhora, que passeava o seu cão.

 

Têm sido muitas as pessoas a expressar o mesmo tipo de preocupação. Mas ontem O Corvo também ouviu opiniões contrárias de vizinhos. “Isto que está a acontecer é porque as pessoas não têm vida própria e gostam de má-língua. Estão a meter-se na vida da rapariga, que deve estar a passar um mau momento, mas ela cuida do cão, dá-lhe comida e água e vai passear com ele”, argumenta uma mulher que vive no prédio em frente. Outros moradores seguiam a mesma linha.

 

À margem desta discussão, um agente da PSP dizia ao Corvo, ontem ao final da tarde, que conseguiu perceber que a senhora – cuja idade rondará os 40 – terá vindo de Espanha com autocaravana e estacionou na Rua da Guiné por não ter mais dinheiro. De acordo com o mesmo agente da autoridade, há pessoas que garantem tê-la visto mendigar na Avenida Almirante Reis. A Embaixada Italiana fica localizada a pouco mais de 400 metros de onde o veículo está parqueado.

 

Texto: Samuel Alemão

 

  • Francisco Braz Teixeira
    Responder

    Está ao pé de que ciclovia?

  • Vera Fernandes
    Responder

    Deviam tentar ajudar em vez de criticar e chamar a polícia os vizinhos que o fazem. De certeza que a senhora não está nesta situação por querer. Tristeza a raça humana!

  • Sónia Corvo
    Responder

    Bem na minha rua… Uma tristeza mesmo☹️

  • Artur C. Margalho
    Responder

    Tanto quanto sei, uma autocaravana pode estacionar como outro qualquer veículo. Só não pode acampar (ou seja: abrir toldos, colocar cadeiras na via pública). Agora estacionar pode, desde que cumpra as regras, como qualquer outro veículo.

  • Responder

    é do baril

  • Cláudio da Silva
    Responder

    Uma situação que me está a incomodar… Lá vou eu ter de ir meter o bedelho onde não sou chamado… Ajudar o cão… https://t.co/4TA30Y4XMW

    • Cristina Luis
      Responder

      Se precisar de ajuda diga-me alguma coisa.

    • sonia verdix
      Responder

      força

  • Paula Costa
    Responder

    é de lamentar a natureza humana, adoro animais, mas ver nos comentarios originais e aqui que a unica preocupação é com os maus tratos ao cão e ninguem fala na Sra. que nem sabe o que ali faz é desumano.

  • Eduarda Costa Ferraz
    Responder

    Mulher e cão a viverem em autocaravana comovem e dividem moradores dos Anjos https://t.co/gicLpH5HwL

  • Angelita Gaiteira
    Responder

  • Adriana Boto
    Responder

    finalmente alguem que nao se recusa a falar disto

  • Adriana Boto
    Responder

    Clau Di Mar

  • maria fernanda peres
    Responder

    Se for priciso traducao o meu marido ajuda ,,sendo do mesmo Pais talves possa falar com a senhora ,,,se for preciso e so contactar ,,,

  • Cláudio da Silva
    Responder

    O cão por agora está controlado. Vou estar a par de tudo para ver o que se vai passando. Moro aqui. Segunda feira se tudo estiver na mesma vou à Embaixada de Itália saber o que pretendem fazer ou se podem deslocar-se ali para falar com a senhora e ajuda-la. preocupem-se em ajudar em vez de dizerem barbaridades e de vandalizarem a caravana que a mulher agora nem consegue sair dali com os pneus furados…

    • sonia verdix
      Responder

      Obrigado.

    • Miguel M
      Responder

      Isso de furarem os pneus foi mesmo malvade pura.
      Como ficou a situação?
      Obrigado

  • Ema Silva
    Responder

    Em vez de criticar e chamar a polícia, deviam era tentar ajudar e perceber o que se passa, furar os pneus e partir o para brisas, é mesmo de má índole, demonstrando a indiferença pelo próximo, é provável que a mesma se encontre com problemas psicológicos e precisa de ajuda para ela e para o animal ! Todos nós somos potenciais futuros sem abrigo , da maneira que o mundo está basta perder a casa o emprego e por fim a saúde mental, para se encontrar nesta situação , é só percorrer as noites de uma cidade, como o Porto e deparamos com situações de seres humanos a dormir na rua , tendo como companhia um animal, triste não?

  • Cláudia Ferreira
    Responder

    Antes de me sentar a escrever um texto sobre o nosso dia 10, passo os olhos pelas notícias…
    E volto a reparar… https://t.co/6k3MOrM5YF

  • José Martins
    Responder

    Tristeza… A raça humana é realmente perversa…

  • Fátima Eduardo
    Responder

    Acho bem que se preocupem com o cão!!! E o humano não merece preocupação? Algo não está bem com a semhora.

    • Manuela Duarte
      Responder

      o cao esta preso numa caravana. nao sabe falar…nao sabe abrir portas…a dona anda, toma cafe, sabe falar, andar e correr…nao consegue distinguir a diferença??

  • Filipe
    Responder

    Olá. Obrigado por ter partilhado a notícia. Sugiro só que corrija o título, sendo que ela NÃO partilha a caravana com o cão. Ela está hospedada na Av. Almirante Reis num hostel há semanas, e não passeia o cão. Não sei se teve a oportunidade da espreitar para dentro da caravana, mas quando lá fui e a janela estava vandalizada consegui ver que está coberta em fezes e urina e um cheiro insuportável. Somente vai atualizar o parquímetro uma vez por dia, dar comida e se por acaso o cão tiver a sorte de conseguir sair, apanha algum ar.
    Agradecia que retificasse o título, porque seria completamente diferente se ela partilhasse aqielas condições com o cão.

  • Maria boucho
    Responder

    em vez de criticar porque é que nao procuram saber por detalhe o que se passa.se as autoridades nao fazem nada é porque sabem mais do que quem esta a preocupar com isso so porque a senhora vive na sua rua ja procuraram saber porque a senhora esta ali se ela tambem precisa de ajuda.criticam porque gostam de meter na vida dos outros porque nao preocupem com a vossa vida em vez de preocupar com a vida alheia.

  • Maria boucho
    Responder

    sera!?que por ser italiana o cao dela esta a incomodar as pessoas,aqui temos muitos caes abandonados e muita gente nao se preocupa por ser estrangeira ja estao a meter o bedelho!

  • Filipe Raposo
    Responder

    Olá. Obrigado por ter partilhado a notícia. Sugiro só que corrija o título, sendo que ela NÃO partilha a caravana com o cão. Ela está hospedada na Av. Almirante Reis num hostel há semanas, e não passeia o cão. Não sei se teve a oportunidade da espreitar para dentro da caravana, mas quando lá fui e a janela estava vandalizada consegui ver que está coberta em fezes e urina e um cheiro insuportável. Somente vai atualizar o parquímetro uma vez por dia, dar comida e se por acaso o cão tiver a sorte de conseguir sair, apanha algum ar.
    Agradecia que retificasse o título, porque seria completamente diferente se ela partilhasse aqielas condições com o cão.

    • O Corvo
      Responder

      A senhora tem passado muitos dias dentro da auto-caravana. Em todo o caso, obrigado pela informação.

    • sonia verdix
      Responder

      A sério? Mas isso é que tem que vir a público .

  • José Ferreira
    Responder

    Mulher e cão a viverem em autocaravana comovem e dividem moradores dos Anjos https://t.co/n7gfWamnZc

  • Elisabete Álvares
    Responder

    Com as temperaturas actuais, o cão vai morrer não tarda nada.

  • Maria Duarte
    Responder

    A mulher em causa aparentemente já desapareceu. levou a autocaravana e o cão depois de convencer muita gente que era pobre e desvalida, umas vezes, outras recusando-se a falar e respondendo como quem não entende nada do que se lhe estava a dizer quando isso não lhe agradava, outras ainda contando histórias a quem a queria ouvir, de que estudava em Portugal, que o cão era da avó, que lhe tinha um amor acrisolado. Aparentemente tudo falso. Fumava umas coisas estranhas e pintava-se ao espelho dentro da carrinha, dormindo noutro lado, e pagando parqueamento, para o que não lhe faltava dinheiro. Ao mesmo tempo cravava quem passava e convivia com algumas pessoas que conseguiu convencer da sua desgraça. Apenas a partir do momento em que começou a ver a coisa mal parada, ao fim de mais de dez dias de sofrimento do cão, é que passou a guardar mais obsessivamente a sua propriedade, o cão-objeto que deixara lá dentro, ao abandono, dias inteiros. Esses dias foram infindáveis e cheios de sofrimento para o cão e para todos os que por ali passaram e se mobilizaram para resolver o problema do cão, velhos e novos. A embaixada italiana conheceu os factos, como todas as autoridades e organismos implicados na proteção dos animais, mas apenas colaboraram em uma ou outra palhaçada que alimenta a sociedade do espetáculo e em defesa do status quo. Este texto é dedicado a todos os que têm muitas opiniões e à terrível perversidade dos seres humanos.

    • Miguel M
      Responder

      Como é que ela arranjou os pneus?
      obrigado

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