Mulher e cão a viverem em autocaravana comovem e dividem moradores dos Anjos

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Samuel Alemão

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VIDA NA CIDADE

Arroios

10 Junho, 2016


Uma autocaravana estacionada ilegalmente, uma mulher italiana a denotar evidentes sinais de precariedade social e a sorte de um cão de grande porte que se encontra quase sempre fechado dentro do veículo têm estado a provocar reacções emocionadas no antigo Bairro das Colónias (cuja designação oficial é Bairro das Novas Nações), nos Anjos, freguesia de Arroios. As autoridades policiais alegam nada poder fazer, mas, de dia para dia, cresce a indignação popular. Tanto que há mais de uma semana que o veículo foi vandalizado, com os pneus a serem furados e os limpa para-brisas partidos.

As últimas duas semanas têm sido de alvoroço no início da Rua da Guiné, junto ao entroncamento com a Rua de Angola. Há gente a mostrar revolta com o que julgam ser o mau trato do animal, a trazer-lhe comida e garrafões com água e a polícia a tentar falar com a mulher – que apenas se expressa em italiano, aparenta perturbação mental e terá dificuldades em explicar as razões da sua actual condição. Mas, tirando isso, nada acontece. O que aumenta a sensação de desconforto ante tal cenário de miséria, bem no coração da cidade.

De acordo com as autoridades, para além do parqueamento ilegal – cuja fiscalização é responsabilidade da EMEL -, nenhuma outra infracção ou crime estarão a ser cometidos. Desde que o veículo de matrícula italiana estacionou naquele arruamento, junto a um café, a sorte da mulher e do canídeo têm sido alvo de olhares, comentários, especulação e discussão acalorada entre vizinhos. As pessoas tentam conversar com ela, perceber o que se passa, mas a incompreensão prevalece. O Corvo tentou falar com a mulher, o que se revelou infrutífero.

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Quase todos os dias, há patrulhas policiais a chegar e a registarem a ocorrência. Mas, após falarem com a dona da autocaravana, e verificarem a sua identidade, acabam por ir embora. Nesta quinta-feira (9 de junho), isso aconteceu por duas vezes. E a situação apenas poderá ter um desfecho, diz a PSP, quando a EMEL conseguir mobilizar os meios para rebocar o veículo. O facto de ser uma viatura pesada parada num plano inclinado estará a dificultar a operação, garantem agentes policiais que ali acorrem.

De acordo com um agente da Polícia Municipal (PM) de Lisboa com quem O Corvo falou, ontem ao fim da manhã – numa altura em que ali estavam uma patrulha da PM e outra da PSP -, “nada pode ser feito em relação ao cão, porque a senhora diz que lhe dá comida e água e o leva a passear”. “Não posso arrombar a caravana e causar danos para tirar o animal. Temos que seguir o que está na lei”, afirmou o mesmo agente.

Mas a precepção de muitos moradores é a de que o animal estará em sofrimento, uma vez que, além de se encontrar grande parte do dia confinado à cabine do veículo, sofrerá as consequências térmicas agravadas pelo calor que se tem feito sentir. Ainda para mais, sendo husky siberiano, raça não acostumada a temperaturas muito elevadas. “Um bicho destes não devia estar aqui, é uma tortura. Não está habituado a este calor”, indignava-se uma senhora, que passeava o seu cão.

Têm sido muitas as pessoas a expressar o mesmo tipo de preocupação. Mas ontem O Corvo também ouviu opiniões contrárias de vizinhos. “Isto que está a acontecer é porque as pessoas não têm vida própria e gostam de má-língua. Estão a meter-se na vida da rapariga, que deve estar a passar um mau momento, mas ela cuida do cão, dá-lhe comida e água e vai passear com ele”, argumenta uma mulher que vive no prédio em frente. Outros moradores seguiam a mesma linha.

À margem desta discussão, um agente da PSP dizia ao Corvo, ontem ao final da tarde, que conseguiu perceber que a senhora – cuja idade rondará os 40 – terá vindo de Espanha com autocaravana e estacionou na Rua da Guiné por não ter mais dinheiro. De acordo com o mesmo agente da autoridade, há pessoas que garantem tê-la visto mendigar na Avenida Almirante Reis. A Embaixada Italiana fica localizada a pouco mais de 400 metros de onde o veículo está parqueado.

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