Uma comunidade de aproximadamente 200 morcegos-de-peluche (Miniopterus schreibersii) reside no Museu do Traje, no Lumiar, em Lisboa, local escolhido para assinalar o Ano do Morcego, que termina a 27 de Outubro e visa promover a preservação e conservação das mais de 1200 espécies deste animal no mundo.

A exposição assinala aquela comemoração e, naturalmente, celebra o morcego-de-peluche – espécie carnívora que normalmente cria e hiberna em grutas e minas e é o anfitrião da campanha internacional.

“A interação dos morcegos com o património histórico tem contribuído para as entidades gestoras de muitos monumentos, tendo-se convertido num instrumento promocional de grande eficácia, com a obtenção de resultados muito expressivos”, diz Gabriel Mendes, coordenador do Centro de Investigação da Quinta da Regaleira, em Sintra, com trabalhos científicos sobre a espécie.

Este tipo de morcego, classificado em Portugal como vulnerável, com pelagem acinzentada, orelhas muito curtas e pesando cerca de 12 gramas, acabou por repartir a sua atividade entre o Museu do Traje e oito locais de abrigo na região da Área Metropolitana de Lisboa.

Em Portugal, os primeiros estudos sobre este mamífero voador tiveram lugar na década de 80 do século passado, através de Faculdade de Ciências de Lisboa, em parceria com o então Instituto de Conservação da Natureza.

A maioria das espécies alimenta-se sobretudo de insectos, juntamente com peixes, rãs, sucos de frutos, mas também há os que sugam o sangue de aves ou de gado doméstico. Existem 27 espécies destes mamíferos no país, sendo na sua maioria insectívoras.

 

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Eles estão entre nós e voam incógnitos na escuridão da noite. Mas são simpáticos.
Em 1992, o então Serviço Nacional de Parques e da Conservação da Natureza editou em livro o Plano Nacional de Conservação dos Morcegos Cavernícolas, da autoria de Jorge Palmeirim e Luísa Rodriguez.

A grande projeção internacional do morcego talvez tenha sido da responsabilidade do escritor irlandês Abraham Stoker, que, inspirando-se na espécie que suga o sangue, em 1897 publicou o livro Drácula, considerado no seu género o melhor da literatura de terror. Aliás, existe hoje um festival internacional de cinema em Londres (de 24 a 27 de Outubro) com o seu nome e que homenageia aos realizadores cinematográficos que trabalham nesta temática.

A obra Bram Stoker baseia-se em lendas populares que imortalizaram a crueldade de um aristocrata da Valáquia (na Roménia) do século XV, Vlad III, que bebia o sangue das suas vítimas, na luta que desenvolveu pela independência relativamente ao Império Otomano. Recordado como um cavaleiro cristão que lutou contra a expansão do islamismo na Europa, Vlad III é hoje considerado na Roménia e Moldávia como herói.

Contudo, esta imagem ficcionada associada ao morcego poderá ser desmontada facilmente, pois este mamífero tem um papel fundamental na biodiversidade: efetua a polinização de muitas espécies de plantas, assim como as abelhas e borboletas, e é grande consumidor de insectos durante a sua atividade noturna. Os morcegos podem consumir, por noite, até 100 por cento do seu peso.

“Algumas espécies de insectos considerados pragas agrícolas são consumidas pelos morcegos, que desta forma contribuem para uma melhoria da economia agrícola”, refere o folheto entregue aos visitantes da exposição patente no Museu do Traje.

Na Idade Média, os morcegos eram associados a figuras e efeitos demoníacos e utilizados para mezinhas e atos perversos, uma imagem que vem sendo desmistificada com o surgimento de estudos científicos.

Uma das qualidades do morcego está relacionada com o facto de “ver” através dos ultrassons, sendo desta forma que captura as suas presas. Os sons ultrassónicos que produzem para além do intervalo da audição humana têm a capacidade de, através da ecolocalização, utilizarem uma frequência entre os 20 e os 80 quilohertz, chegando nalguns casos aos 210. No caso humano, está entre os 20 hertzs e os 20 quilohertz.

“A ecolocalização ajuda os morcegos a evitar colisões e permite-lhes localizar as presas, já que os ultrassons são refletidos quando encontram presas ou obstáculos. A emissão dos ultrassons e os subsequentes ecos permitem aos morcegos construir um mapa sonoro que os ajuda a navegar pela noite”, refere o folheto da exposição.

Mas este mamífero voador tem ainda outros pontos de interesse. Nalgumas culturas, como na chinesa, por exemplo, considera-se que a presença do morcego é sinónimo de fortuna e sorte, enquanto os Maias e os Zapotecas achavam que eram espíritos de vida e ressurreição. Actualmente, na Bósnia e Herzegovina a sua presença é sinal de sorte.

Uma das ameaças à espécie reside nos parques eólicos devido ao risco de colisão, que “tem causado elevada mortalidade”. Uma das propostas é que estes parques sejam construídos num raio de 5 quilómetros dos abrigos de hibernação de importância nacional e a 10 quilómetros dos locais criação.

Na exposição é ainda possível ver muitos e criativos trabalhos de alunos do 1º ou 3º ciclo do ensino básico sobre morcegos em conjunto com abundante informação científica.

 

Texto e Fotografias: Mário de Carvalho

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