Pátios & Vilas-01

Muitas já desapareceram e outras estão em vias de ser demolidas, mas Lisboa chegou a ter 350 pátios e vilas, habitações que salvo raras excepções foram construídas em finais do século XIX, inícios de XX, para as classes mais pobres. O Corvo propõe uma visita pelas vilas que ainda existem, como é o caso da Vila Amaral, na Penha de França.

Texto: Fernanda Ribeiro   Fotografias: Carla Rosado

 

Vive-se mal na Vila Amaral, ali para os lados da Penha de França. Com entrada pela Rua Mestre António Martins, a vila é um longo corredor de 14 casas contíguas, numa tira de terreno situado entre fiadas de prédios. Mas a proximidade das habitações mais depressa gera desavenças entre vizinhos, do que laços de amizade. Nem o tempo que muitos moradores já ali passaram em conjunto se traduz em traços de solidariedade. E muito menos de vida comunitária.
“Quem mora aqui é porque não encontra melhor noutro lado”, é a primeira coisa que se ouve dizer a Ana Maria Medeiros, uma viúva de 89 anos que é uma das mais antigas moradoras da vila.
Há um travo amargo nas palavras desta mulher seca, nascida da Guarda, que vive há quase 50 anos na Vila Amaral. “Se o meu marido fosse vivo, íamos fazer este ano as bodas de ouro. Vim para cá quando me casei, por isso, vai fazer 50 anos”. É assim que faz as contas ao tempo que ali já viveu. Habita uma casa minúscula, mas cheia de tralhas: um quarto de dimensões mínimas e uma pequena sala, que está repleta de bonecas antigas, algumas de porcelana, a invadir todo o espaço disponível.

 

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São uma espécie de herança que Ana recebeu e de que é fiel guardiã, num espaço exíguo. “A minha afilhada pediu-me para as guardar. Mudou de casa e não tinha espaço para estas bonecas todas, mas também não queria desfazer-se delas e eu trouxe-as para aqui”, explica. A casa é pouco mais do que isto: a cozinha está reduzida a um nicho na parede onde Ana guarda alguns tarecos e casa de banho não tem.
“Mas não me posso queixar. Quando vim para cá, pagava 200 escudos. Agora pago 15 euros. Não é muito”, admite. Difícil é perceber como sobrevive Ana. Pelo que conta, não recebe qualquer reforma e os únicos apoios que tem vêm ou da Santa Casa da Misericórdia, quando precisa de assistência médica, ou da Igreja de Nossa Senhora da Penha de França, onde foi voluntária durante 32 anos. “Eu não tenho nada. Reforma não recebo. A única ajuda que tenho é da Irmandade”, diz a mulher, que se diz uma vicentina e defensora dos pobres. “Já vesti muito desgraçado”, afirma. Mas nem este espirito católico, nem a longa permanência na Vila Amaral, a tornaram especialmente amada pela vizinhança. Parece estar votada à solidão.

 

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À hora de almoço, Maria do Carmo, a sua vizinha do lado, entra em casa vinda do trabalho, nos Hospital dos Capuchos, onde é empregada de limpeza, mas não se ouve um cumprimento sequer entre as duas, apesar de Ana estar cá fora. Carmo tem 63 anos e vive na vila há mais de 40. “Estou cá desde os 15 anos, quando me juntei”, diz. Em tamanho, a sua habitação, que já tem casa de banho, não difere da vizinha e Carmo conta que já ali viveram quatro pessoas. “A minha sogra criou aqui os filhos. Agora sou só eu e o meu marido”. Sai de casa às seis da manhã e, no regresso, quem a cumprimenta são os pássaros que tem numa gaiola: dois canários e um mandarim, que Carmo diz ter encontrado na rua. A sua vida é assim, todos os dias da semana.
Mais adiante vive Almerinda, que aos 91 anos é a moradora mais antiga. Está na vila há 80 anos, com um pequeno hiato de tempo que passou em Angola, para onde foi com o segundo marido. “Estou cá na vila desde os meus 11, mas vivia noutra casa, no número 18. Foi o meu pai que era pedreiro e ajudou a construir muitos desses prédios da Penha de França, quem calcetou aquele pedaço de chão, ali em frente ao 18”, refere, apontando para a zona calcetada, entre o cimento. “Nessa altura, isto era um campo aberto com oliveiras. Era bom. Faziam-se aqui grandes bailaricos e eu era uma grande dançarina. Mas o chão ainda era terra, não era cimento”, recorda.

 

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Almerinda, que chegou a trabalhar no Porto de Lisboa, no carvão, teve depois um lugar de venda de legumes no mercado da Penha de França. Foi casada duas vezes e já terá tido uma vida melhor do que a que leva actualmente. “A vida dá tanta volta” parece ser a sua expressão favorita. Repete-a várias vezes ao falar com O Corvo.
Está a preparar o almoço, para os netos e para a filha, que virão visitá-la nesse dia, o que, diz,“ é raro”. A sua casa é mais ampla do que as das vizinhas. Tem três divisões, cozinha e casa de banho, algo que foi conquistado com esforço dela e do pai, porque “antigamente, cada um arranjava a sua parte” nas casas, explica. Agora, Almerinda continua a pagar uma renda “barata”, que não explicita. “A senhoria e o filho são boas pessoas. Os inquilinos mais novos é que já pagam rendas mais altas”.

 

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Menos compreensiva, seja com a senhoria, seja com os vizinhos é Ana da Silva Pereira, 77 anos, reformada, que mora numa casa mais adiante e se queixa do valor da renda: “Eu tenho uma reforma de 400 euros e já pago 150 euros por esta casa. Quem é que pode estar num barraco destes a pagar tanto? E o telhado e o soalho fomos nós que pusemos, eu e o meu filho, que mora aqui ao lado. Havia aí casas com 10 e 20 pessoas a morar e a pagarem o mesmo que nós. Não está certo”, afirma, visivelmente insatisfeita.
Ana Pereira é de Lamego e só veio morar para Lisboa quando o marido morreu, há já 20 anos. “Trabalhei muito na terra. Cheguei a apanhar 150 arrobas de milho e outro tanto de batatas e, olhe, estou aqui”, diz Ana. Em Lisboa, agora, faz uma vida bem diferente. “Saí às sete da manhã e fui para o ginásio, agora vou fazer o almoço para o meu filho”.

 

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Em boa verdade, Ana não tem um filho, tem sete. Mas, entre todos, “há dois que são os mais queridos, que melhor me compreendem”, diz. Um é taxista e é para ele que prepara o almoço, depois de lhe ligar para o telemóvel e de trocar impressões sobre o que vai cozinhar para a refeição. Tem uma filha, que vive na margem sul e que a chamou para ir viver com ela, mas Ana recusou.
É voluntariosa e não deixa nada por dizer, nem se coíbe de dizer mal das vizinhas e de criticar a vida dos outros. “As pessoas de hoje não prestam, não. Mas eu nem quero conversas”, remata. Em breve, vai ficar sozinha onde mora, porque o filho, que vive ao lado, vai-se embora. Mas não teme a solidão. “Eu não estou sozinha, estou com a graça de Deus. E não tenho medo de morrer. A única coisa de que tenho medo é do sofrimento”, diz Ana.

 

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Entre os mais recentes e mais jovens moradores da vila, está Maira, brasileira, 27 anos, e a viver em Portugal há 10. Tem uma filha com 15 meses, Bianca, e está desempregada. É cozinheira e trabalhou durante dois anos no Fábulas, no Chiado, mas entrou em litígio com o dono do restaurante e agora aguarda que o processo se resolva em tribunal. “Fui acusada de ter rasurado uma factura, o que eu não fiz e já houve uma sentença em que o juiz me declarou inocente, só que o patrão não quer pagar. Por 1 euro e 65 cêntimos, tive de ir para tribunal do Trabalho. E agora aguardo a execução da sentença. Mas eu adorava trabalhar lá”, confessa.
Maira vive no número 14 da Vila Amaral há três anos e paga pela casa, com duas divisões, 280 euros. Antes, já tinha vivido numa outra casa bem melhor, na Vila do Chaves, no Alto de Santo Amaro, a Alcântara.  “Lá, as casas eram mais bonitas, os quartos eram maiores e estava tudo reformado, tudo novinho, pareciam casas de bonecas, não é como aqui, com esses lixos lá fora. Eu deixo sempre a porta fechada”, conta. “O meu marido, que também é brasileiro, não gosta nada de viver aqui. Acha esse lugar feio e ontem até pintou de branco as paredes dos quartos, para ver se melhorava o aspecto da casa, pelo menos por dentro”, diz Maira.

Comentários
  • Belarmino Teixeira
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    A Maira é uma pessoa que não tem escrupulos.
    Quando a confrontei com o facto de me ter rasurado uma factura, onde corrigiu o 5 para o 8, para ganhar 3 euros, pediu-me desculpa e disse que não voltaria a faze-lo. Sim, apesar disso decidi despedi-la, porque não acredito em pessoas que rasuram facturas para ganhar 3 euros. No entanto a Maira intentou uma ação no Ministério do trabalho. O Ministério do trabalho diz que realmente não se pode provar que foi a Maira, no entanto eu tenho ainda as mensagens no telemóvel em que a Maira pede desculpas e pede para ser recontratada, dizendo que fez o que fez numa altura particularmente dificil da vida dela.
    Hoje a Maira continua com a sua mentira avante. E eu acredito na justiça e que um dia seja pela justiça portuguesa ou pela ordem natuaral das coisas, a Maira vai pagar todas as mentiras que conta.

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