Moradores do Beato surpreendidos e indignados com fecho do balcão dos CTT em Xabregas na véspera de Natal

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Sofia Cristino

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VIDA NA CIDADE

Beato

28 Dezembro, 2018

Em Xabregas, ninguém estava à espera de não conseguir levantar encomendas e correspondência, esta semana. O posto de correios da zona fechou, esta segunda-feira (24 de Dezembro), sem qualquer aviso antecipado. Quem se desloca ao balcão dos CTT depara-se apenas com um folheto, colado na porta, com a indicação das lojas onde se deve deslocar agora. Algumas são, porém, demasiado longe, para pessoas com dificuldades de locomoção e financeiras. O presidente da Junta de Freguesia do Beato, também surpreendido pelo encerramento nesta altura do ano, garante estar a dialogar com responsáveis por outros balcões dos correios na zona, para se encontrar uma solução. Criar um posto de correios com menos serviços, gerido por entidades locais privadas, é uma das hipóteses apresentadas. Os habitantes da zona, enquanto não surge uma alternativa, sentem-se desesperados e pedem mais apoio para conseguirem realizar tarefas quotidianas, como levantarem as reformas, acto até agora feito no balcão dos CTT entretanto fechado. Mas também há jovens a lamentarem a situação.

No número 29 da Calçada Dom Gastão, em Xabregas, na tarde desta quinta-feira (27 de Dezembro), dezenas de pessoas bateram com o nariz na porta da loja dos correios. O posto dos CTT de Xabregas encerrou, na passada segunda-feira (24 de Dezembro), sem qualquer pré-aviso à população. Adelina Garcia, 85 anos, que ia levantar uma carta registada, está incrédula. “Isto é uma vergonha, malditos dos correios. Onde vou agora? Não está aqui ninguém para nos ajudar?”, questiona, com um olhar desorientado. Adelina, a morar há mais de quarenta anos na freguesia, anda com a ajuda de duas canadianas, e é com dificuldade que se desloca até ao quiosque e à farmácia, ali ao lado, para pedir apoio. No trajecto, insulta a empresa privatizada em 2014, e queixa-se da degradação dos serviços de interesse público.

Na porta da estação dos CTT, um aviso indica que os clientes devem deslocar-se ao posto de correio de São Vicente de Fora, na Graça, onde estarão disponíveis as correspondências afectas a este balcão. O posto de correios do Beato, na Calçada do Carrascal, e a loja dos CTT na Rua Morais Soares, são as outras alternativas apresentadas. “Agora, vou ter de apanhar um autocarro até à Rua Morais Soares e, depois, talvez apanhe o eléctrico. Não tenho dinheiro para andar de táxis, que vergonha de país”, critica Adelina Garcia. Os impropérios à gestão da administração dos CTT surgem espontaneamente por parte de todos os que se dirigem à loja, encerrada há quatro dias. Joana Alemão, 34 anos, a viver há três anos e meio nesta parte da cidade, não consegue esconder a desilusão. “Nesta zona, já faltam muitos serviços básicos e os correios são fundamentais, principalmente para os idosos e aposentados que levantam aqui a reforma. Sempre que vim cá, havia fila, ninguém estava à espera que fechassem. Estamos chocados”, desabafa.

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Depois da manifestação de há alguns meses, muita gente pensava que o encerramento dos CTT não aconteceria

Algumas pessoas vão-se amontoando junto à loja, agora com a montra forrada a cartões, para perceberem o que aconteceu. Todos estão surpreendidos e dizem ter sido apanhados completamente desprevenidos. “É mesmo verdade? É vergonhoso o que estão a fazer, muitas pessoas de Marvila, uma das freguesias com mais habitantes de Lisboa e vizinha do Beato, deslocam-se aqui, e ninguém quer saber delas”, critica Nuno Ferreira, 42 anos. A data escolhida para o encerramento, véspera de Natal, também está a gerar desconfiança nos moradores. “Quiseram fechar discretamente, quando as pessoas estavam todas em casa, não foi ao acaso”, especula a moradora Joana Alemão.


 

Ezequiel Pereira, 83 anos, vive há 55 anos na Calçada Dom Gastão, mesmo em frente aos CTT, e conheceu o destino da loja logo no dia 24 de Dezembro. Habitado a observar a dinâmica daquele arruamento, há dezenas de anos, teme o pior cenário. “Vai fazer muita falta, principalmente aos idosos, a maioria da população. Há centenas de pessoas a virem aqui, como farão agora?”, questiona. O morador e proprietário de um restaurante na zona, apesar de não utilizar este serviço de interesse público com tanta frequência, está preocupado com as deslocações que terá de fazer. “Vou ter de andar de transportes públicos quando precisar de ir aos correios, vai ser um grande gasto. Vendem tudo aos estrangeiros e nós é que andamos aflitos”, lamenta. Noutro estabelecimento de restauração, ao lado, Joaquim Almeida, 60 anos, anda mais distraído. “Não dei por nada, encerraram a loja discretamente. Sei que ainda andou a circular uma petição contra o fecho, por isso não esperava este desfecho, foi uma surpresa. As pessoas que têm dificuldades de mobilidade estão muito insatisfeitas”, conta.

 

 

 

Miguel Antunes, 24 anos, está menos preocupado. Enquanto procura numa aplicação no telemóvel o melhor trajecto para se deslocar ao balcão de correios mais próximo, não deixa de criticar a decisão da administração dos CTT. Mas até diz compreendê-la. “Isto é um disparate e vai afectar a minha vida, mas também havia lojas de correios a mais abertas. Provavelmente, muitas não davam lucro e tiveram de fechar. Há, também, pessoas que querem tudo à porta de casa”, diz o morador no bairro Madre Deus, na freguesia do Beato. O Corvo bateu várias vezes à porta da estação de correios de Xabregas e, depois de alguma insistência, uma das duas funcionárias desta loja, agora desempregada, abriu a porta. Não quis, porém, prestar declarações. Enquanto O Corvo a tentava interpelar, despediu-se de alguns moradores, nostálgica, e com a promessa de que se deveriam voltar a ver.

 

O presidente da Junta de Freguesia do Beato, Silvino Correia (PS), em declarações a O Corvo, lamenta a extinção do posto de correios e garante estar a procurar soluções. “O fecho da loja já está a causar muitos constrangimentos, principalmente à população idosa. Hoje, já falei, por isso, com responsáveis de lojas dos CTT na zona, e eles estão empenhados em encontrar uma alternativa. Estamos a ver se existe alguma possibilidade, entre os correios e uma entidade privada, como uma papelaria por exemplo, para se abrir uma loja que disponibilize alguns serviços dos correios”, conta.

 

 

O autarca socialista garante ter feito tudo o que estava ao seu alcance para impedir o encerramento dos CTT de Xabregas. “Em algumas reuniões que tivemos com os CTT, tentámos que o posto não fosse desactivado, e até se pôs a possibilidade de assegurarmos estes serviços. Mas concluímos que não temos conhecimento, nem capacidade”, recorda. O autarca diz que, à semelhança dos habitantes da freguesia que lidera, não teve conhecimento antecipado do encerramento do posto dos correios. “Percebemos que, com a privatização dos correios, ficamos sujeitos a estas questões, mas não aceitamos. A véspera de Natal também não foi a melhor data para fazer isto, e suspeito que tenha a ver com uma época de menor fluxo de pessoas, mas não tenho a certeza”, conjectura.

 

Há cerca de meio ano, quando houve a primeira suspeita do encerramento da loja, um grupo de pessoas manifestou-se em frente ao posto de correios de Xabregas. Depois do episódio, segundo Silvino Correia, os CTT prometeram encontrar uma solução até ao fim deste ano, mas faltam apenas três dias para 2018 acabar e as alternativas ainda estão a ser estudadas. “Eles disseram-me, em conversa telefónica, que tinham registada, no plano de gestão interno das lojas deles, a intenção de fazerem um acordo com uma entidade privada para os serviços funcionaram. Nunca avançaram datas de fecho da loja, foi uma surpresa completa este desfecho, recebemos o presente de Natal que ninguém queria”, conclui.

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COMENTÁRIOS

  • Maria
    Responder

    Votaram no Paços Coelho? Agora olha…

  • ANTONIO DIAS
    Responder

    A ONDA DE ENCERRAMENO DE BALCÕES DOS CTT CONTINUA!
    TODA A PARTIDARITE É CULPADA UNS VENDERAM OUTROS CONSENTIRAM!
    É PRECISO MUDAR DE POLITICOS POR ISSO O PURP!

  • Jorge
    Responder

    O mais grave é que fecham os balcões e removem os marcos de correio, e depois temos de ir tratar da correspondência a lojas de comerciantes sem qualquer preparação, e a que chamam pomposamente de “postos de correio”.
    Por ex., na loja de São Vicente de Fora as encomendas que chegam estão espalhadas pelo chão à mão de semear, sem qualquer segurança, e o ambiente é mais próprio de uma tasca, sempre a contarem piadas e a mandarem bocas uns aos outros.

  • Paulo Só
    Responder

    Fechados ou abertos é a mesma coisa: as cartas e os pacotes não chegam. Todo o dia eu refaço a distribuição de correio na minha rua, vai tudo para a caixa errada. Com tanta loja a acabar, com a impossibilidade de achar em alguns bairrros um jornal do dia, desempregados, lojistas e jornais deveriam se unir e fazer um serviço de corrreio paralelo, em lojas que vendam jornais também. Bastaria o seguinte: no endereço põe-se também o telelfone da pessoa. paga e a carta vai para loja mais próxima. Chegando lá liga-se para a pessoa para saber se quer ir buscar. se não quiser há um serviço de motos que leva, e é pago pela pessoa que recebe a carta., dando metade à loja. Se a pessoa for pegar à loja, paga na loja. Se a pessoa não quiser a carta não paga nada e vai para o lixo. Há alternativas possíveis. Esses gajos do correio querem é fazer mais um banco para papalvos tipo Eepírito Santo. A sociedade tem de aprender a se organizar sem esses malandros todos.

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