Moradores do Bairro da Cruz Vermelha realojados até final de 2019, saindo do Lumiar para a freguesia de Santa Clara

REPORTAGEM
Sofia Cristino

Texto

URBANISMO

Lumiar
Santa Clara

9 Outubro, 2018

Os bairros da Musgueira e da Charneca, na freguesia de Santa Clara, terão vizinhos novos até ao final do próximo ano. Já arrancou a construção do empreendimento que albergará 130 famílias, 110 do Bairro da Cruz Vermelha e 20 concorrentes a programas de habitação acessível da Câmara Municipal de Lisboa (CML), anunciou o presidente da autarquia, Fernando Medina, na manhã desta segunda-feira (8 de Outubro). A futura urbanização foi feita a pensar na população mais envelhecida e tendo em conta a importância da sustentabilidade ambiental. Haverá portas mais largas, de forma a permitirem a passagem de cadeiras de rodas, polibans em vez de banheiras e pisos lisos, com menos irregularidades. Vão ser ainda criadas hortas privadas, soluções de reaproveitamento de águas e os edifícios não terão espaços comuns. Durante a tarde desta segunda-feira foram ainda entregues 40 chaves de apartamentos, no âmbito de vários programas de acesso a habitação municipal.

No final do próximo ano, os moradores do Bairro da Cruz Vermelha, na freguesia do Lumiar, vão ter uma casa nova junto ao Bairro dos Sete Céus, na freguesia de Santa Clara. Ao todo, serão  realojadas 110 famílias, a viver actualmente na Cruz Vermelha, e vinte famílias concorrentes ao programa municipal de rendas acessíveis. O presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Fernando Medina, lançou a primeira pedra da nova urbanização, na manhã desta segunda-feira (8 de Outubro), sob o olhar atento de alguns moradores de bairros contíguos, que aproveitavam o momento para reclamar por habitação. Alguns, não se inibiram de dizer que estavam mesmo a ocupar casa ilegalmente, depois de vários anos a concorrer a habitação municipal. “Ocupei uma casa que estava fechada há nove anos, não tive alternativa. O Bairro da Cruz Vermelha está muito velho, há muitas pessoas a não quererem vir para aqui, mas eu estou ansiosa”, comenta Cidalina Silva, 25 anos, que espera ser ali realojada. Os fogos vão variar entre as tipologias T1 e T4 e deverão estar concluídos no final do próximo ano.

No terreno do novo empreendimento, onde já se ouvem as máquinas retroescavadoras, vai surgir uma construção diferente da característica dos bairros municipais. A futura urbanização foi pensada pelos arquitectos Alexandre Dias, Bruno Silvestre e Luís Spranger e o projecto escolhido pelas suas características inovadoras, como a inexistência de partes comuns e de elevadores, a possibilidade de converter um T2 em T3 através da deslocação de paredes modelares – numa espécie de “casa que cresce com a família”, adaptando-se às novas necessidades do agregado familiar – e a ausência de contadores de água, electricidade e gás. Outras das peculiaridades deste tipo de construção são a criação de hortas individuais, reservatórios de água potável, painéis solares, a possibilidade de aproveitamento de luz solar para aquecimento de águas, a reconversão de águas da chuva para regas e despejos e o reaproveitamento da água para consumo doméstico, permitindo reduções na factura da água.“

 


A nível das acessibilidades, o projecto foi concebido para acolher pessoas idosas ou com mobilidade reduzida. Haverá portas mais largas, de forma a permitirem a passagem de cadeiras de rodas, polibans em vez de banheiras, para facilitar os cuidados de higiene dos mais idosos e pisos lisos e sem irregularidades, para evitar as quedas. Este projecto já começou a ser implementado nos bairros da Boavista e do Padre Cruz, explica Alexandre Dias, um dos arquitectos responsáveis. “Já fizemos um teste piloto e, agora, o projecto ganha uma terceira vida no Alto do Lumiar. A forma como será construído – não é um apartamento nem uma casa– permite uma vivência completamente diferente. Não é uma construção em altura. Os próprios materiais utilizados são amigos da mobilidade e pretende-se reduzir os custos de manutenção”, explica.

Além de realojar os moradores com condições mais dignas, Fernando Medina diz que esta é uma forma “diferente” de pensar a construção dos bairros municipais. “O Bairro da Cruz Vermelha é uma das situações de infra-estruturas mais difíceis de resolver, não só por causa do processo histórico do seu nascimento, mas também do modelo das alienações de fracções parciais, porque a Câmara não pode substituir-se aos particulares na gestão dos espaços comuns”, diz. “Estas soluções arquitectónicas são muito mais felizes. São dois apartamentos quase um em cima do outro, só que num sai-se por baixo e noutro entra-se pelo piso superior, não tendo necessidade de um elevador. Estamos, também, numa cidade com uma grande percentagem de população envelhecida e é necessária uma adaptação do espaço físico às capacidades de mobilidade”, acrescenta.

A vontade de realojar os moradores de um dos bairros sociais mais problemáticos de Lisboa já é antiga e tem, finalmente, um desfecho. “Estamos há muito tempo a procurar soluções para o bairro, chegamos a equacionar a aquisição de edifícios nas proximidades, mas não foi possível e decidimos fazer a construção de raiz. Acho que foi uma decisão feliz, é um sítio muito bem estruturado do ponto de vista dos transportes e onde vão nascer novas infra-estruturas, equipamentos escolares e desportivos”, diz Fernando Medina. O actual Bairro da Cruz Vermelha será demolido aos poucos, conforme os lotes de prédios forem ficando vagos e os inquilinos tiverem a nova habitação garantida.

 

“Estamos a estudar a possibilidade de as pessoas irem saindo por lotes e, à medida que saem, esvazia-se mais um lote e faz-se a demolição por lotes. Não se espera até à última família para se fazer a demolição”, informa a vereadora da habitação Paula Marques.  A ideia, diz ainda, é “juntar moradores com renda acessível e realojados do Bairro da Cruz Vermelha”. “Não sabemos precisar quantas pessoas poderão ficar com casa a renda acessível, vai depender muito da decisão das famílias realojadas, algumas preferem continuar no Lumiar. Em função desse trabalho, veremos quantas casas sobrarão para renda acessível”, explica ainda. O actual Bairro da Cruz Vermelha vai dar lugar a um jardim e espaço público, que fará uma ligação ao Parque Oeste, na freguesia de Santa Clara.

 

A empreitada, da responsabilidade da construtora Gabriel Couto, representa um investimento camarário de cerca de 11,3 milhões de euros. A deslocalização do antigo Bairro da Cruz Vermelha para a freguesia de Santa Clara é explicada pela falta de espaço disponível na freguesia do Lumiar. “Todas as pessoas que usufruem dos nossos serviços, na freguesia do Lumiar, têm acompanhamento nesta fase de transição, e podem continuar a fazê-lo mesmo que estejam fora do território”, garante o presidente da Junta de Freguesia do Lumiar, Pedro Delgado Alves (PS).

Depois da cerimónia de lançamento da primeira pedra do Bairro da Cruz Vermelha, seguiu-se a visita ao estaleiro de obra e, ao final da manhã, foram ainda entregues três casas na Quinta do Ourives, Marquês de Abrantes e Quinta dos Alfinetes, nas freguesias de Marvila e do Beato. Débora Pereira, 33 anos, está desempregada e esperava por casa municipal há doze anos. “Estava a morar com a minha mãe, dormia na sala com o meu marido e a minha filha de dois anos, e os meus filhos, um rapaz de 12 anos e uma rapariga de 9 anos, partilhavam um quarto. O meu filho agora vai ter mais privacidade”, diz emocionada, depois de receber as chaves do novo T3. Já Paula Silva, 23 anos, teve mais sorte. “Concorri em Junho, pela segunda vez, e já tenho casa. Estou muito feliz”, diz a nova inquilina da câmara, no T1 onde vai viver com o filho de quatro anos, com vista para o rio Tejo. Durante a tarde desta segunda-feira (8 de Outubro), foram ainda entregues 40 chaves, no âmbito de vários programas de acesso à habitação, e realizada a afectação de 240 fogos municipais a famílias de Lisboa.

 

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