Moradores de Telheiras dizem que construção de igreja serve interesses da Opus Dei

REPORTAGEM
Sofia Cristino

Texto

URBANISMO

VIDA NA CIDADE

Lumiar

9 Março, 2018

Há um jardim em Telheiras, entre uma creche e uma escola básica, que pode ser destruído para dar lugar a um centro paroquial, uma igreja e uma casa mortuária. O projecto está a indignar os moradores, que já falam em “muitos interesses envolvidos”, uma vez que a paróquia de Telheiras é a única do país a ter um padre ligado à Opus Dei. “Toda a gente desconfia que aquele terreno vai ser dado ao Colégio Mira Rio, da Opus Dei. Alguém deve estar a ganhar muito dinheiro com isto”, acusa uma moradora. “Estamos a falar de um pedaço verde que foi arranjado há pouco tempo. É uma situação, no mínimo, duvidosa”, diz outra. A Opus Dei garante que “não tem qualquer intervenção nas decisões que dizem respeito à paróquia” e a administração do Colégio Mira Rio diz não ter necessidade de equipamentos adicionais. “A acusação dos moradores carece de fundamento”, afirma.

“Toda a gente desconfia que aquele terreno vai ser dado ao Colégio Mira Rio. Há tanta falta de recursos e vão gastar dinheiro ali?”, questiona Lurdes Martins. A moradora refere-se à parcela de terreno situada entre o Jardim de Infância e a Escola Básica de Telheiras, na freguesia do Lumiar, para a qual está prevista a construção de uma igreja, um centro paroquial e uma casa mortuária. O projecto é da responsabilidade da Paróquia de Telheiras, que apresentou o esboço do equipamento na sua página de Facebook – entretanto, eliminado da mesma. Muitos moradores só se aperceberam desta intenção através da rede social e, descontentes, lançaram uma petição.

“Deixou-nos surpreendidos, não só pela forma como veio a público, mas, também, pelo que encontramos. Aquele projecto, como foi apresentado, com uma igreja de dimensões megalómanas, uma capela mortuária no meio das duas escolas e um centro paroquial de três pisos, quando há uma igreja a 200 metros, não faz sentido. Estamos a falar de um pedaço verde que foi arranjado há relativamente pouco tempo. É uma situação, no mínimo, duvidosa”, critica Inês Barros, uma das cinco promotoras da subscrição, que já conta com 2429 assinaturas.

Os principais motivos para o descontentamento prendem-se com o facto de o sítio escolhido para a obra ter sido requalificado pela Câmara Municipal de Lisboa (CML), há pouco tempo, e, além disso, aquela paróquia já ter uma igreja, também recentemente reabilitada, num investimento que rondou os 497 mil euros. “A Igreja da Nossa Senhora da Porta do Céu estava muito degradada, foi gasto muito dinheiro na sua requalificação. Não faz sentido ser criada outra e gastar-se mais dinheiro ainda”, diz Maria Costa, 53 anos, funcionária de uma padaria.

Além disso, ressalva, “a Câmara de Lisboa remodelou aquele jardim e, agora, vai ser deitado fora esse trabalho, retirando-se, também, as vistas aos alunos”. Mafalda Alves, 21 anos, é da mesma opinião. “Já há uma igreja e nunca está cheia. Fazem falta espaços verdes, com isso é que se deviam preocupar”, sugere.

A Igreja da Nossa Senhora da Porta do Céu pertenceu à paróquia de São João Baptista do Lumiar até 2004, ano em que Telheiras foi elevada a paróquia pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, entregando à Opus Dei o seu cuidado pastoral. Dom Manuel Clemente, bispo de Lisboa, disse, na altura, que a criação da nova comunidade paroquial era “uma necessidade pastoral, numa zona da cidade de Lisboa de população crescente e com características próprias”.

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Lurdes Martins diz que a polémica tem preenchido viagens de família e os serões em sua casa. “Ontem, estive a noite toda a falar disto com os meus filhos. Querem fazer de nós parvos, aquele espaço é para os miúdos brincarem. Acho que a petição não vai chegar, quando se junta o poder político e a igreja, ganha sempre a igreja. Alguém deve estar a ganhar muito dinheiro com isto, é o exercício de poderes a funcionar”, acusa. Conceição Bento, 60 anos, mora ali há muitos anos e diz que “alguma coisa não bate certo” nesta decisão. “Já temos uma igreja e, muitas vezes, está fechada. Eles não são donos da religião”, critica.

Nazaré Cunha foi professora na Escola Básica de Telheiras durante 18 anos e diz que a construção da capela mortuária é a intervenção que menos se percebe. “As crianças precisam de liberdade e espaço, podiam poupá-las a isto. A morte é uma realidade, mas não têm de lidar com ela já”, diz a professora reformada.

Inês Barros, 42 anos, explica que aquele terreno faz a ligação entre as duas escolas e constitui o percurso de muitas crianças. “Até podiam construir um ginásio ou um centro comercial, que rebateríamos na mesma. Os pais deixam-nas e conseguem vê-las até entrarem. Quando as aulas terminam, vão buscar primeiro os filhos ao jardim de infância e, depois, à escola. Nesse intervalo de tempo, estão ali num convívio saudável”, diz Inês, que também é mãe de duas crianças utentes das escolas. “O que querem fazer é uma invasão à privacidade e ao bem-estar delas. Qualquer coisa que seja ali construída é uma barreira arquitectónica a tapar-lhes o sol, que faz toda a diferença na sua vivência”, frisa, ainda.

Paula Correia, comerciante, 52 anos, tem uma perspectiva diferente. “Não há problema nenhum em construírem uma igreja naquele jardim. Fazem falta igrejas e é bom para quem aqui vive poder ter uma capela mortuária perto”, diz. Avelino Loureiro, 48 anos, pensa da mesma forma. “É indiferente o que querem fazer. Na aldeia onde nasci, havia um cemitério lá no meio”, afirma o proprietário de uma frutaria, a residir em Telheiras desde 1986.

A maioria dos moradores diz, contudo, sentir-se enganada pela Câmara deLisboa. Segundo o editorial de um boletim da Associação de Residentes de Telheiras (ART), a autarquia reservou aquele espaço para a construção de um jardim público e hortas de apoio às escolas. A promessa já remonta a 1996, a primeira vez que os habitantes apelaram à construção de um jardim de apoio à escola primária. Durante muitos anos, explica Inês Barros, “aquele jardim foi um terreno baldio, com muito mato seco e um caminho de terra batida”. “Quando vimos o terreno arranjado, ficámos felizes, até porque aquele quadradinho verde foi prometido à população”, recorda.

O padre da paróquia de Telheiras, João Paulo Pimentel, reconhece, em declarações a O Corvo, que a obra vai retirar espaço ao jardim. “Não há dúvida que se perde um espaço verde e, por isso, vai ser construído um adro com 900 metros quadrados. Faz falta este átrio para as pessoas conviverem depois das eucaristias, em vez de estarem a falar na estrada. Não podemos arborizá-lo, porque vai ser construído um parque subterrâneo”, explica. O pároco admite, ainda, que a Igreja da Nossa Senhora da Porta do Céu “é suficiente durante os dias da semana”, mas que a obra projectada vem colmatar outras situações “absolutamente necessárias”, como um centro de acolhimento de idosos, uma loja solidária e mais salas de catequese.

“Muitas vezes, tenho de subdividir as salas de catequese, porque não cabem todos. Não conseguimos armazenar roupa e comida, não há sítio para tanta coisa. Há muitas pessoas que ficam de pé e as crianças estão apertadas na igreja, precisamos de mais espaço”, defende João Paulo Pimentel, que garante, ainda, que “há 800 pessoas a pedirem a esta igreja, há dez anos”. Não conseguiu, contudo, mostrar a O Corvo documentos que comprovam tal convicção.

Quanto à capela mortuária diz que “esta sensibilidade das crianças não terem de conviver logo com a morte deve ser respeitada”, mas que, desde 2006, não realizam funerais e, por isso, é mesmo necessária a sua construção. “A capela vai-se localizar numa parte subterrânea, não havendo um contacto directo com esta realidade”, esclarece.

Outro dos receios das encarregadas de educação é que a situação de trânsito, “já caótica”, venha a piorar com a construção da igreja. “Telheiras, em hora de ponta, é um caos e, naquele sítio específico, ainda é pior, porque é uma zona onde não há possibilidade de paragem dos carros e existe uma rua sem saída. São quase 500 crianças que são deixadas e recolhidas ali todos os dias”, explica Inês. O padre da freguesia garante, contudo, que a construção não vai prejudicar o trânsito. “A igreja vai ter mais afluência ao fim-de-semana, não interfere com o tráfego”, diz.

Em 2003, a CML aprovou um contrato-promessa de constituição do direito de superfície sobre aquela parcela de terreno, entre a Empresa Pública de Urbanização de Lisboa (EPUL) e o Patriarcado de Lisboa. Em 2015, com a liquidação da empresa, esta parcela reverteu de novo para o município, que acabaria por avançar com a construção do prometido jardim. Mas, para surpresa dos moradores, um ano depois, a CML fazia um novo contrato-promessa. A autarquia cedeu o direito de superfície deste pequeno lote, avaliado em um milhão e oitenta e três mil euros, à Paróquia de Telheiras, pelo prazo de 50 anos.

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O “preço simbólico”, lê-se no contrato, “encontrava-se legitimado face às reconhecidas dificuldades do Patriarcado de Lisboa e aos fins a que a cedência se destinava, realidade esta que, presentemente, se mantém”. Segundo o mesmo contrato, a Paróquia de Telheiras seria obrigada a desocupar o Convento da Nossa Senhora da Porta do Céu, vendido, entretanto, à empresa SOCEI, proprietária do Colégio Mira Rio, que integra o grupo Colégios Fomento, criado em 1978 por orientação da Opus Dei.

Contactado pelo O Corvo, o gabinete de comunicação da Opus Dei, garante, em depoimento escrito, que “não tem qualquer opinião ou expectativa quanto à localização desta igreja, ou de qualquer outra, e não tem qualquer intervenção nas decisões que dizem respeito à paróquia e ao patriarcado”. A instituição religiosa confirma, ainda, que, em todo o país, só a paróquia de Telheiras tem por pároco um padre de prelatura da Opus Dei.

A administração do Colégio Mira Rio, que é a mesma da SOCEI, em resposta escrita, diz que a SOCEI e o Colégio “não têm necessidade nem interesse de espaço ou equipamentos adicionais, para além daqueles que adquiriu e construiu em Telheiras, pelo que a acusação dos moradores carece de fundamento”. Margarida Santos, membro da direcção, considera, ainda, que deverão ser as entidades locais a pronunciar-se sobre o assunto.

A Paróquia de Telheiras voltou, entretanto, a tecer considerações sobre esta temática, na sua página do Facebook. “O Patriarcado de Lisboa estabeleceu provisoriamente a Igreja da Porta do Céu como igreja paroquial, até se preparar um espaço definitivo adequado à dimensão da população, tendo em conta que as atuais instalações são pequenas e desconfortáveis”, justifica. Escreve, também, que vai reservar uma “ampla área” do terreno para uso público e circulação livre de pessoas e construir um parque de estacionamento subterrâneo, com 80 lugares. Quanto à capela mortuária, diz que, devido à preocupação de a localizar de forma compatível com a existência de escolas vizinhas, está a ser ultimada uma “solução satisfatória”.

O presidente da Junta de Freguesia do Lumiar, Pedro Delgado Alves (PS), em depoimento escrito a O Corvo, diz que a nova estrutura se afigura “desequilibrada”. “Não nos queremos substituir à avaliação que a própria paróquia faz das suas necessidades, mas muitos dos ecos que recebemos, até de alguns paroquianos, vão no sentido de que não há uma verdadeira sobrelotação do templo existente, salvo casos pontuais de maior afluência”, informa. Delgado Alves afirma que, apesar de ainda só conhecer o esboço, já lhe reconhece fragilidades.

“Há problemas muito claros de compatibilidade com o Plano Director Municipal (PDM) no que respeita à volumetria, altura, impacto na estrutura urbana existente e pressão de circulação e estacionamento envolventes. O impacto na privação da luminosidade da escola também se afigura problemático”. Quanto à localização da capela mortuária, diz que esta é “desadequada”, não só pelo impacto que pode ter junto dos alunos mas, também, por “privar as pessoas em luto do recato que o momento convoca”. A realização de vários velórios, diz, ainda, contribuirá para um aumento do trânsito.

Os vereadores do PCP, João Ferreira e Carlos Moura, foram os únicos a votar contra a proposta do contrato-promessa de cedência daquele terreno. Em declarações a O Corvo, Ferreira informa, agora, que lhe foi dito que o Patriarcado não estava disponível para alternativas. “A CML é que tinha de ver alternativas, porque era quem estava a ceder o espaço. Não faz sentido dizerem que o Patriarcado não está aberto a mais opções, é uma responsabilidade da CML, que terá certamente outros espaços para ceder”, revela. “Se avançarem com a obra, as crianças ficam entre muros. Este projecto é um absurdo. Espero que se considerem outras opções”, advoga.

O Corvo perguntou à Câmara de Lisboa se este projecto cumpre com a legislação urbanística em vigor e quanto investiu na construção do jardim que se prepara para ser destruído, entre outras questões. A autarquia não responde, dizendo apenas que, “até ao momento, não deu entrada nos serviços da Câmara Municipal de Lisboa qualquer projecto para aquela parcela de terreno”. “Quando e se tal se verificar, a CML não abdicará de analisar o projecto e de fazer valer todas as suas prerrogativas para fazer cumprir a legislação urbanística em vigor”, conclui a câmara.

O presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, falou, entretanto, sobre o assunto, na última Assembleia Municipal, realizada na terça-feira (6 de março). “Vamos ver como corre o diálogo entre a freguesia e a população. Tem havido pronunciamentos de parte a parte e a câmara estará sempre disponível para fazer parte da solução e não parte do problema”, garantia.

O padre da Paróquia de Telheiras reforça a O Corvo que este projecto é “provisório” e que ainda há espaço para ser discutido. Mas, o que é certo é que o contrato-promessa cede o direito de superfície “exclusivamente à construção de um novo equipamento religioso”, cujo projecto final terá de ser entregue à CML até novembro deste ano. O jardim deverá permanecer como está até 2019, uma vez que este acordo prevê que “as construções e ocupações existentes, até à data em que se venha a iniciar a construção, por um período nunca inferior a dois anos, sejam mantidas”.

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COMENTÁRIOS

  • Xavier Lemos
    Responder

    O vosso artigo parece-me bastante correcto e equilibrado, dou-vos os parabéns por a maioria dos artigos têm só intoxicado a discussão com meias verdades e até algumas mentiras.
    Existem algumas imprecisões relativamente ao terreno da futura igreja:
    O terreno em causa não é um jardim. E nunca o foi. Como diz o artigo, o terreno foi prometido à igreja em troca do convento anexo à igreja actual. Espaço que a CML vendou à SOCEI (dizem que por 5M€ – o palácio da maçonaria em frente à igreja foi vendido por 1M€ e ainda reclamam parte do jardim público).
    Em 2015, quando a EPUL se extinguiu, o vereador Sá Fernandes, com o apoio do presidente da junta, apesar de não ter competências sobre o património da CML decidiu construir nesse espaço hortas destinadas a associações do bairro. Mas nenhuma associação aceitou, na medida que foram alertadas para este compromisso já anteriormente assumido.
    Desde aí o terreno ficou abandonado e tem-se degradado continuamente, tendo até a redes dos talhões sido removidas tal o estado em que se encontravam.
    O agora chamado de jardim, tem um talude para uma passagem inferior para a Estrada de Telheiras que não foi construída. Tornando o espaço muito perigoso para as crianças.
    Obviamente que nunca se viram crianças a brincar lá, falar em tal é pura fantasia. Até porque mato por vezes tem mais de 25 a 30cm de altura e a junta só limpa aqui raramente.
    A petição tem bastantes assinaturas, mas dado a carga política que lhe deram acaba por ter apenas uma ínfima parte subscritores que são de realmente residentes em Telheiras. Basta ver as reacções nas páginas de alguns políticos que a divulgaram e logo encontrará gente de todo o país a dizer que já assinou.
    Por último realçar a falta de sentido de serviço do Presidente da Junta, que contra a maioria silenciosa dos habitantes de Telheiras, prefere apoiar a pequena parte que criou visibilidade e colocar a máquina da Junta de Freguesia a promover a petição. Seria mais sensato que promovesse o diálogo e o entendimento entre todos.

  • Cristina Prieto
    Responder

    A petição nada tem de político. São os direitos dos moradores que estão aqui em causa. Além de ser verdade, que as crianças brincam no jardim (às vezes até com os meus cães que aí passeio diariamente) também à noite se juntam grupos de adolescentes a ver vídeos nos telemóveis e a conversar, sentados nos bancos, junto às mesinhas de madeira que a autarquia aí colocou. A sua estadia ao ar livre é bem mais saudável do que se fossem conviver para cafés! Só alguém com má fé é que pode dizer que o jardim não é utilizado. Além disso, a zona não suporta mais tráfego do que o actual, dado que funerais, casamentos ou baptizados iriam tornar aquelas ruas apertadas num completo pesadelo. Antes de se implantar um equipamento que induza tráfego rodoviário há que pensar na capacidade de escoamento do mesmo da zona em questão.

  • Paulo Só
    Responder

    Não sei por que razão apenas os habitantes de Telheiras se poderiam manisfestar sobre essa operação imobiliária, e porque a “carga política” seria de ostracizar. Política é o que diz respeito à Polis, e que eu saiba o Senhor Cardeal Patriarca também não mora em Telheiras. Por minha parte associo essa obra ao crime que vai ser cometido na Sé de Lisboa com a aposição de uma chapa de cimento sobre os vestígios de outras épocas e religiões que floriram na nossa cidade. Tudo isso me parece muito simbólico de uma visão triunfalista da História, associada ao affairismo que se instalou na Cãmara Municipal de Lisboa.

  • Luis Lopes
    Responder

    A petição é claramente política e anti-clerical. Leiam os comentários de ódio à Igreja que vão nessas páginas.

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