Moradores de São Vicente pedem demolição da Vila Macieira

REPORTAGEM
Fernanda Ribeiro

Texto & Fotografias

URBANISMO

São Vicente

8 Outubro, 2014

Não é fácil entrar na Vila Macieira. Ocupada há décadas, e com cães de guarda a afastar os forasteiros, parece uma fortaleza. Mas para quem lá vive, pessoas que já fizeram a sua descida aos infernos, também não é fácil sair. Só mesmo se for demolida. É o que defende uma petição a circular na freguesia de São Vicente, pedindo o realojamento dos ocupantes.

Há mais de uma década desempregado, António Trindade da Silva, 57 anos, é o mais antigo ocupante da Vila Macieira – à qual se chega passando o arco existente junto ao número 140 da Calçada dos Barbadinhos.

É ali que vive há 12 anos. A primeira “habitação” na vila foi um vão de escadas, onde mais não cabia do que o seu próprio corpo magro e uma manta. Só mais tarde veio a ocupar a casa onde agora vive, sem água, gás ou electricidade, à qual não franqueia as portas, porque, diz, “parece a feira da ladra”.

António mostrou-se cortês no primeiro contacto e não se coibiu de falar da forma como se vive ali. Mas chegar até ele significou ultrapassar a barreira dos cães, que ladram, saltam e rosnam em volta das canelas de qualquer visitante imprevisto, assim que se põe o pé no pátio da vila. E foi isso que fez o “Manel”, cão de guarda de António, quando O Corvo lá apareceu.

Da má fama, granjeada junto dos vizinhos, moradores na Calçada dos Barbadinhos, já não se livram os actuais ocupantes da Vila Macieira, correntemente apelidados de ladrões de bicicletas, autores dos mais diversos furtos e pequenos delitos e causadores de problemas de segurança e de saúde pública.

“Não viu por aí entrar um tipo com uma bicicleta? Roubaram-na agora mesmo a um rapaz que estava ali em baixo a pintar um prédio. De certeza que foi alguém daqui. Amanhã, vão vendê-la à Feira da Ladra, é quase certo”. Foi desta forma, e com este cartão-de-visita, que um vizinho, residente da Calçada dos Barbadinhos, se dirigiu a O Corvo, no momento em que se preparava para entrar na Vila Macieira e contactar os moradores.

Quem veja hoje esta antiga vila, erguida em 1907, numa zona operária da freguesia de São Vicente, não imaginaria que alguém pudesse lá viver.

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O acesso à vila faz-se pelo 140A da Calçada dos Barbadinhos.

Tal como o edifício que lhe dá acesso – o 140 A da Calçada dos Barbadinhos, abandonado há mais de 40 anos –, as casas da vila foram entaipadas pela câmara e desligados foram os abastecimento de água, gás e electricidade, precisamente para evitar que intrusos pudessem ali pernoitar.

Mas nem cimento, nem tijolos resistiram. As portadas de várias habitações foram quebradas e, mesmo sem água, nem luz, estima-se que 15 pessoas vivam actualmente no que antes eram as casas dos operários.




E como se sobrevive naquelas condições? Para se lavar, António Trindade diz que vai aos balneários municipais, onde lava também meias e cuecas. “As camisas é que vão para casa da minha madrinha, que me ajuda com alguma coisa e me trata da roupa”. De resto, para viver faz “uns recados” aos donos de um café que frequenta.

Até há três anos, recebia rendimento mínimo, mas isso acabou e, para comer, agora safa-se com a refeição improvisada por moradores da vila, que quando cozinham, recorrendo a fogueiras, dividem o repasto por quem está.

“Hoje, fui eu quem fez o almoço e comi-o com mais oito pessoas daqui, porque quando cozinhamos é para todos. Mas alguns só cá vêm pernoitar”, conta Wilson, um morador mais recente, que vive na Vila Macieira “há pouco mais de um ano”.

Há quem tenha chegado à vila há menos tempo. Conhecido entre os seus vizinhos como sendo “um bom rapaz”, José António Fernandes (na primeira fotografia), com 51 anos, está lá há apenas “dois meses”. Mas, nesse curto espaço de tempo, já sofreu o infortúnio de ficar sem cama e quase sem documentos.

“Um incêndio queimou tudo o que eu tinha no alojamento”, contou ao Corvo este cabo-verdiano, que durante vários anos trabalhou em Portugal como pedreiro, uma profissão que a crise não poupou, deixando-o desempregado.

“Eu não estava em casa, quando aconteceu o incêndio. Quando cheguei, vi os bombeiros, mas já estava tudo queimado. Só fiquei com o passaporte. Também tinha atestado de residência, mas estava caducado e eu não tinha dinheiro para o renovar no SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras), porque ainda custa 100 e tal euros”, acrescentou, apoquentado, José António Fernandes.

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Mas, no meio de tanta desgraça, houve entretanto quem lhe desse a mão. E, desde o passado dia 1 de Outubro, José António passou a ter um emprego. Está agora a trabalhar como funcionário da higiene urbana da Junta de Freguesia de São Vicente, cuja presidente, Natalina Moura, conhece bem a situação da Vila Macieira e da sua “população flutuante”.

Visitou-a durante a campanha eleitoral para as autárquicas e, agora, à frente da junta, tem acompanhado o que se passa naquele pedaço do território da freguesia, como contou ao Corvo. “A situação é má e complicada”, reconhece, “até porque já há um estigma. Mas não podemos pôr aquelas pessoas na rua”, sustenta a presidente da junta de freguesia.

Corrobora algumas das queixas apresentadas pelos moradores vizinhos, segundo os quais“ têm aumentado os assaltos a viaturas, casas e pessoas na área geográfica da vila”, à qual “os bombeiros têm sido chamados inúmeras vezes”, para acudir aos incêndios originados pelas fogueiras, feitas para a confecção de refeições.

“Eu própria já lá fui duas vezes com o vereador da Protecção Civil, Carlos Castro, devido a este tipo de problemas”, conta a autarca.

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Entre os moradores da vila, conta-se um advogado, que ocupa uma das casas do segundo piso da vila. Há alguns meses, caiu lá de cima e teve de ser levado ao hospital.

“Aquilo está muito perigoso e é muito fácil cair dali, porque já não existe o gradeamento que antes havia no varandim do primeiro andar”, explica a presidente da junta, segundo a qual “mesmo depois do acidente, ninguém conseguiu convencer o advogado a deixar a vila e ir para um espaço ligado à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Nem os médicos, nem os enfermeiros, o conseguiram convencer”. E ele continua a viver no fio da navalha.

Tentando pôr cobro a esta situação, Natalina Moura levou à Assembleia Municipal de Lisboa, no passado dia 30 de Setembro, a petição posta a circular na zona de São Vicente, na qual os residentes da freguesia alegam “questões de segurança e de saúde pública” e solicitam à câmara “uma solução para a Vila Macieira”, que pode passar pela demolição das casas.

Mas nem mesmo os subscritores querem ver na rua os actuais ocupantes da Vila Macieira. “Exigimos que as pessoas que habitam a vila sejam realojadas em locais apropriados e o acesso vedado a estranhos”, afirmam na petição, que conta já 283 assinaturas.

Quanto ao espaço da vila, dizem, “deveria ser reabilitado, mas, nessa impossibilidade, a população exige a demolição da Vila Macieira como solução para o problema de segurança e de saúde pública”.

Por ter mais de 250 assinaturas, a petição terá de ser debatida pela Assembleia Municipal de Lisboa. Mas antes de subir a plenário, será porém analisada pela Comissão de Ordenamento do Território, Urbanismo, Reabilitação Urbana, Habitação e Desenvolvimento Local da Assembleia Municipal de Lisboa.

A comissão terá “um prazo de apreciação até ao final do mês de Outubro”, segundo determinou Helena Roseta, presidente da AML.

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