Idosos de Marvila e Penha de França dão rosto às memórias dos bairros e combatem solidão com histórias

REPORTAGEM
Sofia Cristino

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VIDA NA CIDADE

Marvila
Penha de França

8 Fevereiro, 2019

Tornar a memória de Lisboa “mais humana” e contar histórias que não vêm nos livros, com os olhos postos nas pessoas e nos lugares, é o objectivo do projecto “Vidas e Memórias do Bairro: Oficinas Comunitárias da Memória”. A iniciativa foi desenvolvida no âmbito do Orçamento Participativo de Lisboa (OP) e concretizada pela rede de Bibliotecas Municipais de Lisboa (BLX). Até agora, o projecto arrancou nas bibliotecas de Penha de França e Marvila, mas poderá chegar a mais freguesias da cidade. Além da construção de um arquivo digital, pretende-se diminuir o isolamento social da população idosa, a mais afectada pela solidão. O resultado do projecto, um vídeo que reúne vários depoimentos de habitantes, foi apresentado na tarde desta quinta-feira (7 de Fevereiro), na Biblioteca Municipal de Marvila. A vereadora da Cultura quer que “Lisboa seja uma cidade para as pessoas”. E reconhece que a câmara nem sempre consegue fazê-lo. “Às vezes, dizemos estas coisas e depois não sabemos como concretizá-las”, admite.

Marvila foi um bairro fabril e industrial, no século XIX, mas também foi uma zona rural, onde as classes sociais mais altas iam passar férias. Na fábrica do Braço de Prata produzia-se material de guerra, porém, na altura, ninguém podia falar sobre isso. A freguesia foi, ainda, um dos maiores aglomerados de barracas da zona oriental de Lisboa. Nos anos 60, 70 e 80, construíam-se casas ilegais, à noite, quando a polícia não estava de vigília. Os moradores mais velhos desta parte da cidade, hoje em processo de renovação, tiveram, agora, a oportunidade de partilhar estas histórias, através do projecto “Vidas e Memórias do Bairro: Oficinas Comunitárias da Memória”, desenvolvido no âmbito do Orçamento Participativo de Lisboa (OP), e concretizado pela Rede de Bibliotecas em Lisboa (BLX). A compilação dos depoimentos dos moradores de Marvila e da Penha de França foi reunida num vídeo, apresentado, na tarde desta quinta-feira (7 de Fevereiro), na Biblioteca de Marvila.

As histórias de vida e memórias dos habitantes idosos de Lisboa espelham as principais mudanças urbanísticas, sociais e económicas, ao longo do século XX. Neste projecto, a ideia é desenvolver “uma cartografia da memória a partir do bairro, que resultará no reforço da ideia de comunidade”, explica Susana Silvestre, chefe de Divisão da Rede de Bibliotecas da Câmara de Lisboa. “Os rostos que encontramos nos vídeos são as memórias dos bairros que habitam, contadas por gente de Marvila e de Penha de França. Os territórios, de repente, tornam-se humanos, em não têm uma população com mil pessoas, mas têm nome. E essa é a parte mais bonita deste projecto”, explica. A história, explica, “não se acaba ali”, antes “vai começar a ser passada de geração em geração”. “Queremos que este jogo de memórias seja jogado entre várias gerações, contando as histórias que não estão escritas em livros, que não podemos encontrar em mais lado nenhum”, resume.

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"As mulheres ficavam em casa a tomar conta dos filhos", recorda José Fonseca, 72 anos

Ao longo de várias semanas, os participantes reuniram-se na biblioteca de Marvila para partilharem memórias. Durante estes encontros, denominados Oficinas Comunitárias da Memória, foram recolhidos depoimentos e documentos, como fotografias ou recortes de jornais e revistas, que resultaram em filmes. Além da construção de um arquivo digital, pretende-se diminuir o isolamento social da população idosa, a mais afectada pela solidão. “Estas iniciativas são muito importantes para nos entretermos, mas também para os mais novos aprenderem. Precisamos que façam mais projectos deste género”, reforça Alice Barros, 89 anos, moradora na Penha de França, e uma das participantes do projecto. José Sousa, 77 anos, está mais preocupado com o futuro. “Isto só tem validade se os mais jovens ouvirem. A transmissão de conhecimento é muito importante porque, na nossa altura, a vida era muito mais complicada. Agora, comparativamente a nós, os mais novos têm uma vida de príncipies”, diz, entre risos.


 

Durante a exibição do vídeo, ouviram-se histórias sobre a explosão da fábrica de armamento Braço de Prata, de como era fugir à polícia, e a nostalgia de uma Lisboa já obsoleta. “A Rua Morais Soares era muito bonita, e tinha tudo. O bairro das Olaias não existia, só havia quintas e terrenos abandonados e a Quinta dos Peixinhos, onde as pessoas faziam a sua horta”, recorda Maria Gonçalves, moradora na Penha de França. Manuel Antunes, antigo operário, lembra como se construíam bairros ilegais. “A maioria das casas era feita em madeira. A câmara não nos deixava fazer nada no bairro e a polícia patrulhava durante o dia todo. À noite recolhia, e nós começámos a colocar tijolos dentro das barracas de madeira. Ia-se fazendo e, quando estava pronto, tirava-se a madeira, e assim começaram a aparecer a maior parte das casas”, conta.

 

Adriano Almeida, morador em Marvila, também elogia a erradicação das construções precárias. “Tudo se alterou para muito melhor, Lisboa era um autêntico ‘mar’ de barracas, que felizmente hoje não existe. A vida era muito pior”, recorda. A condição da mulher, o regime repressor do Estado Novo, o trabalho infantil e a II Guerra Mundial foram outros dos temas mais relatados pelos participantes deste projecto. “Só os homens é que iam de férias, as mulheres ficavam em casa a tomar conta dos filhos. Era um grande problema cultural”, conta José Fonseca. Os testemunhos das histórias de Marvila – ao contrário dos da Penha de França – só estão representados por homens, e poderá haver uma explicação. “Quando vinham aos encontros para a gravação dos depoimentos, as mulheres sentiam-se retraídas e outras não tinham muita facilidade em expressarem-se verbalmente. O que também espelha a realidade de que falamos no filme. Estas mulheres dedicaram a vida às lides domésticas e é uma pena não terem participado, porque tinham histórias muito bonitas”, lamenta José Fonseca.

 

 

Susana Silvestre, chefe de Divisão da Rede de Bibliotecas da Câmara de Lisboa, garante, porém, que as bibliotecas “nunca estiveram tão empenhadas em valorizar as pessoas”. “As bibliotecas hoje são futuro, mas também passado. Sem essas histórias, não tínhamos forma de contar o que aconteceu. Guardar memórias é um dos grandes papéis que as bibliotecas têm de ter”, sublinhou. A Direcção Geral dos Livros Arquivos e Bibliotecas (DGLAB) distinguiu o projecto “Vidas e memórias de bairro” com uma menção honrosa por considerar que a função destes equipamentos culturais foi “além do acesso aos livros e ao conhecimento”. “As bibliotecas verdadeiramente preocupadas com a população ajudam a construir a comunidade. É cada vez mais importante que estes serviços sejam postos ao favor da população, o que aconteceu aqui”, diz Bruno Eiras, da DGLAB.

 

A vereadora da Cultura, Catarina Vaz Pinto, diz que as Oficinas Comunitárias da Memória exemplificam a “missão” da Câmara de Lisboa, “de envolver as pessoas na construção da comunidade”. “Queremos que Lisboa seja uma cidade com uma escala humana e para as pessoas. Sei que isto estava escrito nos nossos programas eleitorais, mas, às vezes, dizemos estas coisas e depois não sabemos como concretizá-las”, reconhece. As cidades, diz ainda, “são grandes comunidades e, muitas vezes, “as pessoas mais velhas não estão presentes nesta construção e nós queremos dar-lhes voz”.

 

“São vocês que nos contam as histórias de antigamente. Uma característica do nosso tempo é que já não conhecemos só as histórias através dos livros, mas de pessoas que podem contá-las. Podemos gravá-las e pô-las na internet, é uma capacidade que temos que vai enriquecer a história da cidade. As pessoas fazem as bibliotecas”, afirma. Com este projecto, que promete estender a outras freguesias da cidade, Catarina Vaz Pinto promete ainda “fazer com que todas as pessoas sejam participantes activos e agentes transformadores da cidade”. “Queremos que nos ajudem a conhecer melhor Lisboa e o que a nossa cidade pode ser no futuro”, conclui.

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