Representantes de moradores da zona de Entrecampos escreveram, dia 30 de Abril, ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa para que intervenha no conflito que os opõe a um grupo de cidadãos romenos de etnia cigana que se instalaram num baldio nas imediações dos lotes da EPUL junto à Avenida das Forças Armadas.

Manuel Nery Nina, dirigente da Associação de Moradores da Praça de Entrecampos (AMPRE), queixa-se a António Costa de um grupo de ciganos que, desde o ano passado, se instalaram sob um desvão da urbanização da EPUL. Diz ele que os nómadas romenos usam o terreno baldio contíguo para as suas necessidades fisiológicas, provocando “cheiros nauseabundos”, e que ateiam fogos para fazer refeições e para “queima de fio eléctrico para obtenção de cobre”.

 

“A Polícia Municipal tem que expulsá-los dali. Estamos contra as fogueiras e o risco de saúde pública”, disse ao Corvo o dirigente da associação de moradores (AMPRE), que reúne cerca de 50 residentes dos blocos da EPUL, empresa municipal em extinção, e de outros edifícios da Avenida das Forças Armadas.

 

Segundo a carta – enviada por mail –, os novos vizinhos têm protagonizado desacatos e tentativas de utilização abusiva de áreas comuns da urbanização da EPUL, nomeadamente para buscar água. As intervenções da Polícia Municipal e dos bombeiros têm sido insuficientes, acrescenta.

 

A área técnica da urbanização da Praça de Entrecampos foi invadida “e levaram tudo o que era cabos e máquinas. Até levaram fibra óptica, sem saberem que não contém cobre”, relatou Manuel Nina. Desta ocorrência, foi apresentada queixa na PSP.  “A polícia disse ter vários relatos de casos semelhantes, como o desaparecimento de metais e ferragens em prédios das Avenidas Novas” e que as pessoas em questão se recusam a recolher a abrigos. Em meados de Abril, o grupo foi evacuado pela polícia e as suas fogueiras apagadas, “mas já começaram a voltar”.

 

As intervenções da polícia e bombeiros têm sido pouco eficazes. Prova disso ocorreu sexta-feira, dia 2 de Maio, de manhã, quando, por iniciativa da Freguesia das Avenidas Novas, equipas da PSP e da limpeza urbana desmontaram um abarracamento erguido num terreno expectante junto da Avenida Álvaro Pais, também usado por nómadas romenos. “A junta de freguesia limpou as oito barracas, de zinco e cimento, bem como o desvão”, junto aos prédios da EPUL. “Nesse mesmo dia à tarde, já lá estavam de novo”, relatou o dirigente da associação de residentes.

 

Ciganos 2

Funcionários da junta destroem barracas. Horas depois, já lá havia outras.

 

O morador sugere que estes terrenos ermos e não aproveitados poderiam ser transformados pela CML em hortas urbanas, já que há lisboetas de Entrecampos e do Bairro da Beneficência interessados nisso.

 

Em relação aos romenos que “montaram residência sob o alpendre de uma rampa para a garagem” dos blocos de apartamentos da EPUL, Nina propõe que a Câmara de Lisboa mande fechar o vão onde acampam sobre papelões, e onde estendem a roupa a secar. A associação de moradores propõe também que seja vedada “toda a extensão de terreno entre os números 51 e 63 da Avenida das Forças Armadas , para impedir a passagem de pessoas estranhas aos terrenos da EPUL/CML”. Querem também que sejam fechados terrenos desocupados da urbanização, que têm servido de locais de estacionamento ou de acampamento dos migrantes.

 

“Isto começou há cerca de ano e meio”, diz o morador. “As pessoas que para aqui vêm fazem parte de um grupo de 150 ciganos romenos que vivem da mendicidade”. Segundo disse, estão identificados pela polícia e pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e apenas algumas famílias com filhos menores deixaram de aparecer nas imediações do conjunto habitacional, após terem sido advertidas de que poderiam perder a guarda das crianças.

 

“Multa mau, multa crise

 

Na gelataria Pindô, à beira dos prédios da EPUL, conhecem o caso: “Já cá vieram pedir água, mas não lhes dou para não os ter aqui à porta”, diz uma funcionária.

 

Uma das actividades do grupo é arrumar carros num baldio municipal próximo, no lado nascente da Rua Sanches Coelho. Na primeira vez que o Corvo tentou contactar os visados, já era hora do almoço e não apareceu nenhum. Mas deparou-se com um funcionário da empresa municipal de estacionamento. Carlos Pinto não bate esta zona em especial, mas sabe que “em termos de máquinas não tem havido problemas. É mais eles levarem as pessoas a dar-lhes algum dinheiro”, descreve. “Estão aí entre as oito e as nove da manhã. Depois, quando começam as rondas da EMEL, vão-se embora ou para a 5 de Outubro”, explica um trabalhador de umas obras junto ao local de estacionamento, que deve levar uma meia centena de carros.

 

Da segunda vez, pouco passava das oito. Lá andava Maria fazendo manobrar os carros no  estacionamento que controla. Conhece os ciganos que pernoitam junto aos prédios da EPUL, mas garante, mostrando vários dentes de ouro, que não sabe nada deles, a não ser que andam para os lados da estação de Entrecampos. Aliás, sublinhou, ela não é cigana nem romena, mas búlgara.

O biscate dá-lhe à volta de dez euros por dia. Tira umas moedas do bolso da frente das longas vestes e diz: “Ici multa mau, multa crise”. Segundo conta, o dinheiro que ela e o marido – que não fuma, nem bebe cerveja – juntam é para os cinco filhos menores e para arranjar a casa na Bulgária, que foi destruída por uma inundação. Mostra a fotografia plastificada das crianças e diz: “Estou cá há dois anos, mas depois de dois ou três meses vou à Bulgária. Depois volto”. Maria não vive ao relento, mas numa casa e insiste no facto de não comer carne de porco.

 

Manuel Nina conta que, há cerca de um mês, a CML vedou um terreno maior do lado poente da rua, também usado para estacionamento. Segundo um director municipal com quem se reuniu, os terrenos em causa são da EPUL, que está em insolvência e que deverá vender o máximo do seu património antes de ser definitivamente integrada nos quadros do município, de modo a atingir um passivo reduzido. “Esta indefinição cria um jogo do empurra entre EPUL e CML e favorece a permanência de baldios em pleno centro da cidade”, critica o representante dos moradores.

 

Daniel Gonçalves da Silva, presidente da Junta de Freguesia das Avenidas Novas, disse que a PSP lhe “garantiu que ia intervir mais frequentemente” e que conta com uma solução “com a maior brevidade possível”. Num depoimento escrito, o autarca do PSD relatou que, após iniciativa dos moradores dos blocos da EPUL, “foram tidas várias reuniões entre a Junta de Freguesia, representada por mim, e o Chefe Carlos Reis da 31ª Esquadra da Polícia de Segurança Pública de Lisboa no sentido de encontrarmos resolução para o problema em questão em conjunto com a Câmara Municipal de Lisboa”.

 

 

Texto: Francisco Neves         Fotografias: (1) Francisco Neves e (2) AMPRE

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