Os moradores da Rua Julião Quintinha, em Benfica, estão apreensivos face ao funcionamento de uma empresa de serviços funerários a poucos metros das suas habitações, temendo que a mesma proceda ao tratamento de cadáveres nas instalações ali situadas e esteja assim a colocar em perigo a saúde pública. A prática da tanatopraxia – que consiste na desinfeção e conservação do corpo através de técnicas adequadas de injeção de líquidos específicos, para manter a aparência natural semelhante à que ele apresentava em vida – tem de ser feita em instalações específicas para isso preparadas, o que não sucederá neste caso. A Câmara Municipal de Lisboa promete investigar, mas a empresa nega que ali pratique tais actividades.

 

O caso foi tornado público na última reunião descentralizada do executivo municipal, realizada na noite de quarta-feira, 3 de Setembro, na Escola Secundária José Gomes Ferreira, em Benfica. Estas reuniões destinam-se sobretudo a auscultar as preocupações dos munícipes. Nela, José Tomás, morador no prédio com o número 32 da Avenida do Colégio Militar, situado entre os centros comerciais Fonte Nova e Colombo, queixou-se da recente entrada em funcionamento da funerária, num edifício de “garagens de condomínio” em que já estiveram instaladas diversas actividades e empresas. “Verificamos a entrega de cadáveres, a chegada de pessoas para velórios e a saída de cortejos fúnebres”, afirmou, garantido ter provas fotográficas do que afirma.

 

Mas o vizinho das instalações da empresa, a Agência Funerária dos Anjos (AFA), disse ainda ter fortes indícios de que aquelas seriam mais do que um ponto de trânsito de cadáveres. “Sabemos que ali se pratica tanatopraxia, o que não permitido pela lei para uma zona residencial como esta. Estas actividades apresentam perigo para a saúde pública”, afirmou, antes de dizer que a abertura deste alegado centro de processamento necrológico “para ter a ser feito à revelia da vontade dos condóminos”. José Tomás queixou-se da “actividade contínua, de 24 horas por dia, com processamento constante de cadáveres, com automóveis a chegarem a qualquer hora”, numa zona já com muitos problemas de estacionamento.

 

garagem

A porta da garagem por onde alguns vizinhos dizem entrar os cadáveres e saírem cortejos

 

Alegando desconhecer as condições em que tal actividade é exercida, José Tomás disse temer que “a qualidade de vida e a segurança das pessoas esteja em risco”. E exemplificou com o facto de “os lixos dessa actividade serem colocados junto dos contentores utilizados pelas outras pessoas”. O morador disse temer o perigo de disseminação de doenças ou de contaminação, “pois algumas das pessoas que faleceram podem ter sido sujeitas as tratamentos químicos ou radiológicos”. Um risco aumentado pelo facto de, acusou, “as roupas dos mortos serem colocadas na rua e depois serem mexidas por pessoas sem-abrigo”.

 

José Tomás anunciou o lançamento de abaixo-assinado a correr pelos restantes residentes da área “para inibir o funcionamento esta actividade” no local. O Corvo deslocou-se, na manhã desta quinta-feira, à Rua Julião Quintinha, e percebeu que se a operação da AFA incomodará alguns moradores, outros nem sequer se terão apercebido da mesma. Algo que uma residente do número 11 atribui ao facto de a empresa ali se ter instalado “apenas há pouco mais de um mês, durante as férias de muita gente”. A mesma moradora, que preferiu manter o anonimato, diz que tem visto diversas viaturas funerárias a entrar e sair e que já observou sem-abrigo a remexerem em roupas deixadas na rua. Cenário confirmado pelo porteiro de outro prédio.

 

Quando, na referida reunião, foi confrontado com o cenário descrito pelo munícipe José Tomás, o vereador com o pelouro do planeamento, Manuel Salgado, confessou-se “surpreendido”. “Depois de termos recebido algumas queixas, os nossos serviços questionaram a agência funerária sobre este assunto. Eles garantiram-nos que ali apenas funcionavam os seus serviços administrativos, armazéns e a garagem”, disse Salgado. O vereador garantiu não existir autorização para o funcionamento de um centro com valências de tanatopraxia naquele local. “Como a informação que temos não corresponde ao que nos apresenta aqui, amanhã (quinta-feira) será realizada uma vistoria pela Polícia Municipal”.

 

Contacto pelo Corvo, Nelson Santos, que preferiu ser identificado como “um responsável da empresa”, negou todas as suspeitas e acusações. “Não se passa nada disso que diz, nem sequer fazemos ali a incineração de cadáveres, como algumas pessoas afirmam”. Questionado sobre a entrada e saída de veículos com cadáveres, Nelson Santos negou-as e ironizou: “Essas pessoas devem ter visão com raio-x, para poderem ver o que está dentro das carrinhas”.

Texto: Samuel Alemão

 

  • manuel
    Responder

    É emgraçado o que certas pessoas fazem ou falam quando não têm mais nada para fazer. Então levam a vida a falar de coisas que desconhecem juntando ás conversas falsidades e difamações. No meu modesto ponto de vista acho que seria melhor essas pessoas arranjarem um emprego sempre estavam mais ocupados e não teriam tempo para estes juízos, alem de que ainda contribuiam para o bem da nossa sociedade que bem precisa. Obrigado.

  • Manuela Costa Dias
    Responder

    Um pouco macabro o assunto…mas não fumo, sem fogo! 🙁

  • cristina santos
    Responder

    Também concordo com os comentários de cima. Antes de falar do que não sabem deveriam investigar melhor! Realmente as populações estão envelhecidas e sem nada para fazer senão falar mal de tudo e todos. Muitos destes que falam sem saberem muito bem do que falam andam pela rua com os seus cães a fazer cocó e xixi por todo o lado INCLUSIVE JARDINS ONDE BRINCAM CRIANÇAS e nunca os vejo apanharem os dejectos dos animais. É só merd… por todo o lado. Benfica é uma interminável estrumeira nojenta. E andam preocupados com mortos!!!??? E os que falam para onde vão quando fizerem o favor de falecer???? Terão algum recanto secreto subterrâneo onde serão tratados depois de morrerem em segredo e anonimato…Compreendo todos tememos a morte mas ela é tão certa para todos nós. Aliás é a única coisa comum a todos nós!

  • ana silva
    Responder

    Ai… Manuel, Manuel, que comentário mais descabido !

Deixe um comentário.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografías 

Paula Ferreira
Fotografía

Margarita Cardoso de Meneses
Dep. comercial e produção

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com