À martelada, soando forte nas chapas de alumínio, em plena tarde de sexta-feira, um tapume de obra na Av. Elias Garcia, número 73, foi desmantelado em poucos minutos, para surpresa e indignação dos moradores vizinhos, que temem agora pela segurança de quem circule junto ao imóvel, do qual resta apenas a fachada.

Tudo aconteceu sem aviso prévio, quando cerca das 17h30, uma equipa de meia dúzia de operários começou a partir as chapas do tapume que vedavam uma obra de contenção da fachada daquele prédio – trabalhos que foram realizados na sequência do incêndio de que o imóvel foi pasto na véspera do Natal de 2011, como bem se recordam os moradores da Elias Garcia, que nessa véspera de Natal viram as chamas a avançar para os edifícios contíguos.

Ontem, mal ecoaram as marteladas e o som das chapas a ceder, alguns moradores deles tentaram saber, junto de um responsável da obra, a razão da súbita retirada daquela vedação.

 “O tapume estava ali por uma questão de segurança e não vejo aqui nenhum cartaz, nem sei se há alguma autorização da câmara para a sua remoção”, dizia um morador de um prédio contíguo ao número 73, dirigindo-se ao presumível responsável pelos trabalhos.

Na fachada do edifício, um prédio de rendimento das Avenidas Novas, datado de 1917, da autoria do construtor Artur José Nobre, via-se apenas um cartaz da empresa JFS, sociedade de construções Joaquim Ferreira dos Santos, com o número do alvará, 1973, relativo às obras de contenção da fachada e de demolição do interior.

De acordo com o chefe da equipa contratada para executar a remoção do tapume, estes trabalhos deviam-se ao facto de estar já concluída a obra de contenção da fachada – algo que, a avaliar pelo estado das placas, repletas de graffiti, terá acontecido há já vários meses.

“Estamos a fazer isto por indicação do representante do dono do prédio”, dizia o homem, remetendo as questões dos moradores para “o projectista do dono” do imóvel, cuja presença solicitou para que este explicasse melhor o que se estava a passar.

Nada no local indiciava que se iriam realizar tal tipo de trabalhos – embora eles devam, por regra, estar articulados com a Câmara Municipal de Lisboa, de acordo com o regulamento de ocupação da via pública.

Nenhum projecto de construção foi ainda aprovado pela autarquia para aquele edifício. E ninguém ali assumia qualquer responsabilidade em matéria de segurança.

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“Por que razão estão agora a retirar o tapume e com a autorização de quem? É preciso que haja uma licença de conclusão da obra e não vejo aqui ninguém da fiscalização da câmara. Será que agora é seguro circular neste passeio?”, questionava um morador.

Mas o projectista não deu qualquer garantia. “Não ponho as mãos no fogo, nem tenho de pôr” afirmou ao Corvo, alegando ser apenas “consultor do dono do imóvel”.

“O tapume foi retirado porque a obra de contenção da fachada está concluída ”, disse apenas o “consultor”, que não quis identificar-se. Esta justificação não satisfez os moradores da Elias Garcia, que se sentem sobressaltados com tudo o que se tem passado com aquele edifício, sem que ninguém assuma responsabilidades.

“Está devoluto há anos, tal como o prédio do lado. Teve três incêndios em três meses, o último dos quais na noite de 24 de Dezembro de 2011”, recorda um dos moradores, para quem as circunstâncias que envolveram esse terceiro fogo foram demasiado suspeitas. “Nós vimos os bombeiros a saírem de lá com bilhas de gás… num edifício devoluto, por que razão haveria bilhas de gás?”, questionava.

Ontem, bastaria talvez um cartaz com a identificação da obra e do seu responsável, ou a presença da entidade fiscalizadora que é a Câmara, para eventualmente tranquilizar os moradores. Mas nada disso se viu ou ouviu na Elias Garcia. Foi só barulho, poeira e ausência de responsabilidades.

Texto e fotografias: Fernanda Ribeiro

  • Jorge Lima
    Responder

    Se há bilhas de gás, alguém as comprou. Há números de série, notas de venda, guias de transporte, facturas. Neste país a culpa morre sempre solteira, é incrível.

    • Bruno RF
      Responder

      Absolutamente de acordo, a pilhagem das Avenidas continua.

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