Moradores continuam a queixar-se dos ajuntamentos no Jardim do Arco do Cego

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Samuel Alemão

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VIDA NA CIDADE

Avenidas Novas

2 Junho, 2017


Apesar das melhorias realizadas no local, os residentes da zona do Jardim do Arco do Cego dizem que os incómodos causados pelos ajuntamentos diários de milhares de jovens são cada vez maiores. “Bêbados e drogados continuam a fazer barulho até tarde, continuam a impedir-nos de entrar nos prédios, de circular nos passeios, urinam à nossa porta. Deixam ainda muitos copos, garrafas, beatas de cigarros, tremoços e outro lixo, até de manhã. E se reagimos, insultam-nos”, queixou-se Raquel Matos Paisana, uma representante dos moradores, na passada terça-feira (30 de maio), perante a Assembleia Municipal de Lisboa. Lamentando a continuada degradação das condições de habitabilidade daquela zona, pediu “mais brio” à Câmara Municipal de Lisboa (CML) na resolução de um problema que, afinal, nem é exclusivo daquela área. A tranquilidade no espaço público, em várias zonas da capital, está sob ameaça, reconheceu Helena Roseta, presidente da assembleia.

Elogiando as intervenções realizadas, recentemente, pela CML e pelas juntas das freguesias Avenidas Novas e do Areeiro, para minorar o impacto da frequência do Jardim do Arco do Cego por tão vasta mole humana, a moradora afirma que, todavia, as razões de descontentamento se mantêm. “Reconhecemos e agradecemos o trabalho feito, mas, infelizmente, não chega. A falta de habitabilidade desta zona da cidade continua a crescer, agora mais lentamente, mas ainda progressivamente”, disse, salientando que as queixas “não se tratam de nenhuma reacção de velhos a querer civilidade versus novos a querer divertir-se”. Raquel Matos Paisana diz que as condições de vida de quem ali vive continuam a degradar-se, fruto dos ajuntamentos “de pessoas a consumir droga e cerveja vendida aos milhares de litros por mês”, os quais acontecem todos os dias, “das 14 horas em diante”. Ambiente que, diz, atrairá “marginais” e alguns menores, a quem são vendidas bebidas alcoólicas.

“O barulho mantém-se para além do fecho de alguns estabelecimentos, às 23 horas, por vezes toda a noite. Há cervejarias a venderem cerveja take-away, outras com promoções do tipo ‘pague uma e leve duas’ ou outras ainda em que os clientes fazem barulho até tarde”, acusa a residente, criticando também o que considera a insuficiente capacidade e número de papeleiras entretanto ali colocadas para acolher o lixo produzido. Além disso, mantêm-se as pragas de ratos e ratazanas e os arbustos estão danificados, afirma. Algo que sucede apesar da intensificação das operações de limpeza do jardim e dos passeios circundantes, mesmo ao domingo. Há até uma recolha de copos de plástico entre as 17h e as 21h. Mas tudo isso, que é elogiado pelos moradores, parece não chegar. “Os comerciantes têm direito ao lucro, bem como as cervejeiras, tal como os consumidores ao prazer. Mas não aceitamos que impeçam a habitabilidade da zona. Não nos conformamos, não desistimos”, promete.

Moradores continuam a queixar-se dos ajuntamentos no Jardim do Arco do Cego

A exigência da representante dos moradores para que a CML tome novas medidas visando que essas pessoas “tenham uma vida normal, razoável e saudável” encontrou simpatia em Helena Roseta, presidente da assembleia municipal. A responsável máxima por aquele órgão autárquico disse já ter alertado a câmara para esta realidade, mas reconheceu que “o regulamento não chega” para pôr cobro aos comportamentos “indevidos”. “É difícil à câmara impedir tais abusos. Temos que ter aqui alguma intervenção e ver que mais diligências podem ser feitas”, disse Roseta, antes de admitir que esta é uma tarefa de difícil conclusão. “Como acontece noutros pontos da cidade, o que se está a constatar é que, se do ponto de vista dos estabelecimentos as coisas melhoraram um pouco, do ponto de vista do espaço público nem por isso. Temos que ver como se faz noutras cidades, para minorar estas questões. Mas não é fácil”, desabafou.

As reclamações agora apresentadas na AML sobre o Jardim do Arco do Cego surgem pouco mais de um ano depois de, no mesmo local, o vice-presidente da câmara, Duarte Cordeiro, ter anunciado um conjunto de intervenções com o objectivo de adaptar o local a esta realidade e que a venda de bebidas se realizasse “de forma menos conflituosa com os moradores”. Cerca de um mês depois, a 28 de junho, em entrevista a O Corvo, o também detentor do pelouro da Higiene Urbana apelava à “responsabilidade colectiva” dos comerciantes daquela área. “Acho que o que faz sentido é os responsáveis dos negócios envolverem-se e ajudarem a controlar o problema – em vez de estarem apenas fechados no seu negócio e gerarem um problema que, depois, pode, no limite levar à sua ruína. Isso passa por serem os primeiros a mediarem os conflitos com os moradores, envolverem-se na lavagem do local e até da concepção do próprio local”, disse, na altura, Duarte Cordeiro.

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