Constituem um dos últimos resquícios de ruralidade na capital portuguesa. O Corvo foi visitar os dois moinhos de moagem de cereais outrora utilizados no fabrico do pão, situados no alto dos 5,2 hectares do Parque Recreativo dos Moinhos de Santana, na Ajuda. E através deles recorda práticas que agora nos soam ancestrais. Grande parte do que é hoje Lisboa já foi campo.

 

Texto e fotografia: Mário de Carvalho

 

Estima-se que, na segunda metade do século XVIII, existiam cerca de 500 moinhos de vento à volta de Lisboa. “Com a industrialização, muitos destes moinhos começaram a ser desmontados e transferidos para a designada região saloia”, refere Jorge Miranda, membro de Sociedade Internacional de Molinologia.

Amoreiras, Monsanto, Amadora, Loures e Oeiras constituíam a coroa em redor da capital, onde os moleiros tinham sua atividade.

Segundo David Travassos, que coordenou o trabalho “Guia dos Parques Jardins e Geomonumentos de Lisboa”, editado pela Câmara Municipal de Lisboa (2009), os “dois moinhos de vento, cuja construção será anterior a 1762, e identificados pelo topónimo mais antigo de ‘Moinhos do Caramão da Ajuda”, na propriedade das Freiras Dominicanas Irlandesas do Convento do Bom Sucesso, “constituem o último testemunho da expressiva atividade ligada à moagem de cereais que toda esta zona ocidental de Lisboa detinha no passado, e que ainda persistia no século XX, animada pelo volteio das suas velas brancas.”

O antropólogo Jorge Miranda explicou a O Corvo que, hoje, há um grande interesse dos municípios em preservar os moinhos como património de um país rural, apesar de estar praticamente em vias de extinção a profissão de moleiro. “Trata-se de uma riqueza única que devemos saber aproveitar em termos económicos e turísticos”, disse.

Jorge Miranda conta que, “em muitos moinhos já em ruínas na zona de Lisboa, os seus mecanismos foram desmontados e levados, principalmente para a região Oeste, onde foram instalados em novos moinhos”. Cita o exemplo de Bordinheira, em Torres Vedras, onde ainda resistem moagens artesanais.

Os moinhos de Santana foram, em 1965, sujeitos a uma intervenção de recuperação da responsabilidade de mestre João de Deus e do seu sucessor, mestre Figueiredo, de Torres Vedras, por encomenda de Augusto Santos Simões, engenheiro responsável da então Associação Portuguesa de Moinhos.

“Tinha muita experiência disto e estava tudo aprazado e bem aprazado, mas sabia que vinham lá os estrangeiros todos e não queria falhar ao senhor engenheiro, que tinha muita influência no turismo. Era um dos grandes lá de perto do governo da nação e não lhe faltava com nada, mas em troca não aceitava desculpas de mau pagador. Tinha fama de ser um homem às direitas”. Assim descreve a sua aflição mestre João de Deus, perante o risco em falhar o prazo de dois meses de entrega da obra no final de Agosto daquele ano.

 

Moinhos 1

 

 

“Há coisas que não se apressam nem que se queira, senão sai asneira. A madeira é uma delas. Não havendo seca nos tamanhos com o corte que se quer, não há outro remédio senão cortá-la à motosserra no monte”, explica João de Deus, no livro “Velas de Moinho no Reino das Caravelas”.

O restauro acabou por ficar concluído em Setembro desse ano (1965), mas o espaço poderia estar hoje mais valorizado, através da abertura dos moinhos ao público, de forma a poder conhecer-se o seu modo de funcionamento.

Uma das causas do desaparecimento dos moinhos da paisagem lisboeta foi a inovação tecnológica que permitiu o surgimento de moagens industriais e um maior acesso à matéria-prima, através de importações. Estima-se que, na década de 1960 ,existiam em Portugal mais de 11 mil moinhos de vento e água ainda a funcionar.

“Os moinhos de vento têm uma identidade muito distinta. Ainda em 1967, só no distrito de Lisboa giravam as suas velas ao vento 335 moinhos, cerca de um quarto de todo o país. Hoje, a sua larga maioria ou foi destruída ou resta em ruínas”, explica o trabalho coordenado por David Travassos.

Portugal possui ainda um importante património molinológico. Os moinhos de vento estão localizados sobretudo no litoral e nos pontos altos, enquanto os de água são mais frequentes na zona norte e centro. Existe ainda quem os tenha comprado em transformado em habitação.

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