O cocó de cão continua a infestar as ruas da capital. Mas, ante a generalizada falta de civismo de donos dos bichos e a ineficiência das autoridades locais em fazerem frente ao problema, há pessoas a mobilizarem-se. Como Gabriela Pelegrina e a filha Anna, que decidiram criar caixas distribuidoras de sacos de plástico acompanhadas de mensagens de apelo ao civismo. Apesar de estarem em Lisboa de passagem. Um exemplo de cidadania.

 

 

Texto: Samuel Alemão

 

 

Quando regressar a casa, na cidade brasileira de Florianópolis, Anna Luíza Pelegrina, de 9 anos, há-de ter todo o tempo do mundo para brincar com o seu gato e sonhar com o cão que gostaria de ter. Nos três meses que faltam até à partida e enquanto não começa o ano escolar, continua a assumir o papel de activista da defesa dos animais e da limpeza urbana. Juntamente com a mãe, Gabriela Fernandes Pelegrina, 37, tem espalhado por algumas ruas de Lisboa improvisados pontos de distribuição de sacos de plástico para ajudar na operação de recolha dos dejectos dos cães, ao lado dos quais coloca cartazes apelando ao civismo dos donos dos bichos e sensibilizando-os para a necessidade de manter a via limpa.

 

“Sou voluntária da União Zoófila de Lisboa, onde vou todas as quartas-feiras ajudar a limpar os espaços dos gatos, e comecei a reparar que a calçada que dava acesso estava toda suja com cocó de cão”, conta Grabriela, não escondendo a surpresa ante tal cenário, que se repete em vários pontos da cidade. Uma realidade algo diferente do que seria de supor numa cidade europeia, sugere-lhe O Corvo. Gabriela, que está cá apenas por um ano a acompanhar o marido nos estudos de doutoramento, resiste a querer fazer tais comparações. “Não quero, por nada, dar a ideia de ser uma brasileira que vem dar lições de higiene”, diz, por mais que uma vez. Ainda assim, admite que em Florianópolis o cenário é diferente.

 

Decidida em aproveitar o melhor que pode todo o tempo disponível que tem e por ser uma admiradora incondicional da beleza da capital portuguesa, a arquitecta brasileira decidiu arregaçar as mangas. Algo tinha que ser feito. “Pensei que poderia ajudar a melhorar a situação. E lembrei-me de criar umas caixas, a partir dos garrafões de água, para lá colocar os sacos que os donos dos cães poderiam levar para recolher o cocó dos seus bichos”, explica. Com esta medida, e de uma assentada, comprometia-se com duas boas acções ambientais: ajudar a limpar os dejectos caninos e a reciclar embalagens. Uma atitude motivada não apenas por questões ambientais, mas também por evidente preocupação com o espaço público.

 

Gabriela decidiu fazer um teste e colocar uma dessas improvisadas peças de mobiliário urbano na tal rua adjacente à União Zoófila. “A calçada estava muito suja e, então, achei que devia fazer um modelo ‘piloto’, para ver como resultava”. E as pessoas aderiram, garante. Por isso, ampliou a operação e, com a ajuda de Anna, criou 18 unidades, sempre a partir de garrafões de plástico. Mas os “ecopontos caninos” tinham que vir acompanhados de uma informação, algo que enquadrasse o seu aparecimento, para assim serem mesmo eficazes. E daí nasceu a necessidade de criar uma imagem e escrever um texto que acompanhassem os invólucros.

 

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As caixas feitas por Gabriela e a filha Anna  foram distribuídas sobretudo na zona de Arroios. 

 

O desenho do cãozinho surgiu naturalmente, depois de pesquisar na net com a filha por modelos que as pudessem inspirar. Decidir o que escrever na placa é que foi mais complicado. “No início, tinha feito um texto zangado, recriminando as pessoas. Mas, depois, achei melhor fazer algo apelando ao seu sentido cívico”, diz. Ainda assim, a versão final daquilo que passa por ser um apelo feito por um cachorro ao seu dono revela-se bem enfática: “Seja educado, apanhe minhas fezes! Não finja que não viu, pois eu fico com vergonha. É sua obrigação prestar atenção durante todo o passeio. Se o meu dono não viu que eu fiz avise-o, por favor!!! Pegue aqui um saco e recolha”, diz o texto, para depois apelar: “Se puder, traga sacos e coloque aqui”.

 

As 18 caixas de apoio à higiene dos cães foram colocadas, sobretudo, na zona de Arroios, onde Gabriela e a filha Anna vivem, mas também foram distribuídas algumas em locais como Sete Rios, Alameda Dom Afonso Henriques ou a Calçada de Santana. “Na primeira semana, houve várias que foram vandalizadas”, lamenta. Na verdade, e como todas foram colocadas no início do verão, já quase nenhuma deve existir. Foram sendo destruídas nas últimas semanas

 

Mas esta activista urbana acha que o mais importante foi mesmo o passar da mensagem – “a minha ideia é que os passeios fiquem limpos”. Mesmo apesar das reacções iniciais de espanto dos transeuntes. “Quando estava a colocar as caixas e os cartazes, as pessoas ficavam olhando para mim, algo intrigadas. Depois, aproximavam-se, liam e diziam que achavam muito bem”. Afinal, esta é uma mensagem com a qual é difícil não concordar.

  • Gilberto Gustavo
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    Não nos chegava a praga de S. Bento e ainda nos deixam esta á porta…

    • Virtualix
      Responder

      A única praga que conheço em Lisboa é mesmo a dos dejectos caninos.

      Na minha perspectiva não deveriam existir animais de companhia, a utilizar a via publica para urinar e defecar de nenhuma forma, isso são resquícios da idade média que não têm lugar numa sociedade urbana contemporânea.

      Não sei a que se refere com a praga de S. Bento?!

  • Ana Paula Cardoso
    Responder

    Excelente iniciativa! 🙂

  • G. Rocha
    Responder

    E sabem quem é que deixa a rua de acesso às instalações da União Zoófila e a generalidade dos arruamentos do Bairro das Furnas sujas com dejetos caninos? Exatamente os voluntários dessa associação que vão passear os cães e não apanham os seus dejetos. E também os vemos a passear pelas redondezas cães de raças potencialmente perigosas sem trela curta e sem estarem açaimados. Bem prega frei Tomás…

    Aliás, esta solução de caixas dispensadoras de sacos para recolha dos dejetos caninos já foi disponibilizada por toda a cidade pela Câmara de Lisboa. As pessoas usaram os sacos para os mais diversos fins, menos para o uso para que foram concebidos. As caixas foram, na sua quase totalidade, vandalizadas e destruídas.

    Pensando bem, esta solução é dispendiosa e redundante, dado que, pequenos sacos de plástico, ou papel de jornal ou revista, qualquer pessoa tem em casa e pode trazê-lo consigo quando vai passear o seu cão.

    O que é fundamental é que os donos, para além do apreço que têm pelos seus cães, respeitem também os outros cidadãos e os espaços públicos e, quando passeiam os seus animais, tragam sempre consigo uma ferramenta que é essencial para a vida em sociedade e que se chama civismo…

  • Ivanete Bastos de Andrade
    Responder

    As cidades limpas são cobranças da maioria dos cidadãos por todo o mundo. Mantê-las limpas faz parte da cidadania, os governos devem dar condições para que nos os cidadãos possamos executar a cidadania.
    Estas caixas oportunamente criadas pela arquiteta Gabriela Fernandes e sua filha Anna Luiza demonstram que quando criamos o bom hábito de manter a cidade limpa levamos conosco onde quer que estejamos.
    Parabéns as duas ativistas em Lisboa.

  • cristina santos
    Responder

    E ai de nós de chamar a atenção dos donos dos cães. Ainda somos maltratados. Na Rua Dr João Barros em Benfica o cocó e o xixi são tantos wue no Verão o cheiro é intenso. E as pessoas saem da porta do próprio prédio e os cães fazem ali mesmo. Às vezes a meio metro fa porta. Que gente porca. Acho que deveria haver uma maior legislação sobre este assunto. E multas pesadas. Parabéns à mãe e filha. Que vergonha chegar um estrangeiro ao nosso belo país e ver lixo e porcarias de cão em todo o lado.

  • Vanessa Rola
    Responder

    Excelente iniciativa e só lamento que o problema seja sempre o mesmo, o civismo (ou falta dele) das pessoas. Seja dos donos dos animais que não assumem as suas responsabilidades, seja de quem critica indiscriminadamente, seja de quem destrói infraestruturas que são de todos e devem ser conservadas.
    Limpo sempre os dejectos do meu cão e estou cansada de pagar injustamente por aqueles que sem ponta de respeito deixam as ruas sujas.
    Venham mais iniciativas destas, mão mais pesada para quem não respeita (dono de animal ou não) e, já agora, mais caixotes do lixo onde depositar os dejectos, que abundam na cidade as ruas sem um único ou com eles vandalizados.

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