Todo o promeneur atento ou que anda de nariz no ar já observou no céu citadino um par de sapatos de desporto suspensos nos fios eléctricos. De onde vêm? Como se encontram ali pendurados? Quem se separa assim dos sapatos e porquê? Teorias para este folclore urbano, que não deixa de ser intrigante, há várias, mas não tantas quantos pares de sapatos no ar.

 

O shoe tossing  ou shoefiti, pois é assim que se chama, começou nos anos 2000 nos Estados Unidos da América (EUA). Imortalizado em milhares de fotografias na net e em vários filmes, este fenómeno ganhou a Europa. Primeiro em Berlim, cidade de arte urbana, depois foi a vez de Espanha, o oeste da França e Portugal. E rapidamente alastrou como um rizoma. Hoje em dia, o céu como fundo de tela inspirou mais do que um. Pouco importa a rua ou o bairro, rico ou pobre, há sempre fios eléctricos e linhas telefónicas pelo mundo fora e, com eles, um dos emblemas da street culture, os sneakers suspensos. A técnica é simples: basta atar os atacadores e lançar os sapatos ao ar e cruzar os dedos para que eles fiquem suspensos nos cabos.

 

Para alguns, o shoefiti é parente da arte urbana, contracção de shoe e de grafiti. Mas a razão destes sneakers aéreos é muitas vezes uma outra e sempre misteriosa. São tão importantes o tamanho, o modelo e a cor como estarem ou não suspensos, conjuntamente com outro objecto, geralmente garrafa ou yoyo para que o seu significado seja um ou o seu contrário.

 

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Em Sydney, na Austrália, sapatos de desporto pendurados em cabos é sinal de festa, um ritual de passagem, fim dos estudos universitários e de perda de virgindade para os homens. Em Espanha, conforme os bairros, os sneakers suspensos são uma táctica, um acordo, o modo como a máfia previne a polícia de que aquele quarteirão lhes pertence, proibindo-os de ali entrar.

 

Em Brooklyn, tudo depende da cor. Cada gang tem a sua e isso permite sabermos que território atravessamos. Ainda nos EUA, os marines faziam questão de lançar as botas no fim do serviço obrigatório e alguns dizem que suspensos são os sapatos daquele que acabou de ser alvo de violência física ou roubo – os sapatos da vítima, portanto. Já em Los Angeles, a instalação de arte urbana que são a profusão de sapatos pendurados é sinal de memória, assim honram os gangs os seus, mortos em rixas. Mas se, para muitos, o lançar de sapatos é uma maneira de marcar presença (como um cão faz chichi), em New York City, o lançar de sneakers é quase uma performance artística, pelo menos para aqueles que contabilizam os pares lançados.

 

Enfim, razões que levam um indivíduo a lançar os sapatos são talvez tantas quantos os sapatos balançando nos ares, mas a ideia clara e distinta veiculada internacionalmente é que todos indicam um ponto de venda de drogas e território para os gangs, tal como nos EUA. É sinal que um gang está nas redondezas, é sinal que por perto existe uma crack house ou venda de heroína, é sinal de decadência e que ali tudo é permitido, que as leis ou a decência não são de rigor.

 

Texto e fotografias:  Maria de Morais

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