Mezze, a embaixada síria no Mercado de Arroios, foi um sucesso no primeiro dia

REPORTAGEM
Margarita Cardoso de Meneses

Texto

VIDA NA CIDADE

Arroios

20 Setembro, 2017


Mesas cheias, filas à porta e grande azáfama atrás do balcão. O primeiro dia do Mezze correu tão bem que tiveram de fechar a cozinha à tarde para poderem preparar o jantar. O “restaurante dos refugiados sírios” abriu finalmente no Mercado de Arroios. Fomos conhecê-lo(s).

O Mercado de Arroios acorda para mais um dia, ao ritmo cadente e tranquilo de uma manhã de terça-feira. Mas, no novo Mezze, um dos restaurantes que se encontram à sua volta, vive-se a emoção do primeiro dia de trabalho.

Apesar da decoração simples e cuidada, este podia ser um restaurante como outro qualquer, mais um dos que são inaugurados diariamente na capital. Porém, este é muito particular, já que abriu para dar trabalho a dez dos cerca de mil refugiados sírios que Portugal acolheu através do programa da ACNUR (Agencia das Nações Unidas para os Refugiados). Muitos rumaram já para outros países, mas os que ficaram trazem-nos agora lembranças do seu país e partilham-nas através da linguagem mais transversal do mundo: a gastronomia.

Horário

O Mezze serve refeições das 12h às 24h. Na primeira semana, enquanto afinam a cozinha, vão fechar a seguir ao almoço e reabrir às 19h. Depois terão serviço o dia todo, sem interrupções.

A grande mesa corrida no centro da sala faz jus ao nome: Mezze, que em árabe e em quase todos os países do Mediterrâneo significa uma selecção de aperitivos com sabores e cores variados, tradicional dos dias de festa, mas que não faltará em boa mesa mediterrânea.

A manhã corre depressa e o almoço transforma-se num vê-se-te-avias, com gente à porta, as mesas cheias e a cozinha a todo o vapor. Pratos de hummusfathoushkibbehs e tabbouleh vão sendo servidos com khubz, muito khubz, não fosse este o pão nosso de cada dia e a base de qualquer refeição na Síria e países vizinhos.

Mezze, a embaixada síria no Mercado de Arroios, foi um sucesso no primeiro dia

A comida é toda feita no próprio dia, “com produtos frescos aqui do mercado, só a carne, que é Halal, vem de um talho especializado”, explica Francisca Gorjão Henriques, uma das promotoras da Associação Pão-a-Pão. “Quisemos trabalhar com elas – as cozinheiras são todas mulheres – e na equipa são todos sírios, excepto o Yasser que é iraquiano”, conta.

Como o menu foi feito em parceria com a equipa, é normal que a comida seja sobretudo síria. Não quer dizer que, se um dia aparecer uma cozinheira do Iraque, não se introduza um prato iraquiano”. No fim de contas, a ideia da associação e deste projecto é “dar formação e emprego a refugiados do Médio Oriente”.

Mezze, a embaixada síria no Mercado de Arroios, foi um sucesso no primeiro dia

“Nós fazemos a gestão do restaurante e eles são funcionários da associação”, especifica Francisca. E se vierem mais refugiados? “Para já a equipa esta fechada”, esclarece, “mas temos frequentemente propostas de pessoas que gostariam de trabalhar aqui”.

A ideia é começar com este restaurante e depois “replicar a experiência em vários pontos do país”. Nessa altura, diz Francisca, “claro que se terá de alargar a equipa”. E com o serviço de catering que oferecem “mais tarde ou mais cedo vai surgir mais gente”, conclui.

Do zero ao Mezze no país de Ronaldo

Rafat Dabah, 21 anos e natural de Damasco, chegou cá há quase dois anos. Antes de lhe ter sido oferecida a oportunidade de vir, de Portugal só conhecia “o Ronaldo e o Nani”, conta, entre risos.

Veio com a mãe, o irmão mais novo, as irmãs e maridos delas. Para trás só ficou o pai, morto na guerra, e o irmão mais velho que ainda está na Turquia: “Fomos primeiro ao Egipto, estive lá três anos e depois viemos para cá”.

Rafat é um dos refugiados envolvidos nesta ideia desde o início. Foi a professora de Português que lhe deu a dica para falar com “uma menina chamada Alaa” – que ainda está na Associação Pão a Pão. “Ela estava a fazer um projecto de integração de refugiados, então conversei com ela e inscrevi-me, com a minha família”, recorda.

Mezze, a embaixada síria no Mercado de Arroios, foi um sucesso no primeiro dia

A mãe de Rafat é que deu o conselho mais certeiro, quando lhe perguntaram o que podiam fazer: “O caminho mais curto para integrar os portugueses com a Síria é a comida, claro!”

E assim começaram, há cerca de um ano, nos eventos do mercado de Santa Clara, onde preparavam “jantares e comida para as pessoas”, lembra. Correu tão bem e as pessoas gostaram tanto, que tiveram vontade de continuar neste caminho. Definitivamente, como eles também dizem na Síria, foram conquistando os portugueses pela barriga.

Rafat trabalhou como costureiro no Egipto e, antes disso, na Síria, como cozinheiro, com o pai. No Mezze é “o único empregado de mesa que fala português” (por enquanto), mas também parte da alma e coração deste projecto que lhe permitiu, a ele e aos outros nove refugiados, “levantar mais um andar do prédio”. A metáfora aqui não é casual, representa a vida que já conseguiu contruir em Portugal. Voltar para a Síria ou seguir para outro país agora seria “começar outra vez do zero” e, desabafa, hesitante: “não sei, teria de pensar mesmo muito bem”.

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