É um grupo de referência do teatro independente em Portugal. O Meridional faz vinte e cinco anos. Quase metade desse tempo foi passado já no espaço próprio, situado na zona oriental da cidade. A companhia tem uma corrente de público fiel: representa quase sempre perante plateias cheias. Dezenas de peças, dramaturgias de todo o mundo e centenas de actores passaram pelo armazém encostado ao Palácio da Mitra, em Marvila. O Corvo foi até lá e conversou com quem dá vida a uma instituição única, que chegou a esta zona da cidade quando a regeneração em curso era apenas uma miragem.

 

Texto: Rui Lagartinho          Fotografias: Paula Ferreira

 

Chegamos para uma entrevista, mas somos recebidos como se viéssemos visitar uma família que inventa uma sala de estar para nos receber. Perante uma plateia vazia, ou perante um grupo de fantasmas, silencioso mas vigilante, instalamos um tapete, uma mesa e quatro cadeiras. Chega chá fumegante. Organizado o espaço cénico, a conversa pode começar.

 

Passaram vinte e cinco anos desde que dois espanhóis, um italiano e um português – parece o início de uma anedota – se juntaram para reflectirem sobre “Ki Fatxiamu Noi kui”. Inspirado nos códigos da Commédia Dell`Arte, o espectáculo deixava impressas algumas características que nunca mais abandonariam o código genético da companhia: ausência de texto, construção ideológico-argumental prévia, uma ligação subtil ao mundo da infância e “um olhar sobre o mundo que era e ainda é o nosso”, conclui Miguel Seabra, um dos quatro fundadores.

 

 

Nestes primeiros anos de itinerância permanente, o grupo consolidava-se, a chegada à companhia de Natália Luiza reforçava o peso da palavra poética como ponto de partida para viagens simultaneamente largas e íntimas. Com música inventada em cena, com instrumentos próprios, com o som de folhas das árvores, com brisa, ventos fortes, cheiro a mar e sempre a língua portuguesa na proa dessas viagens. “Fomo-nos deixando levar ao sabor dessa descoberta e experimentação, beneficiando da plasticidade da língua portuguesa”.

 

 

É o tempo dos “Contos em Viagem”: no Brasil, em Cabo Verde e em Macau. Ironicamente, a itinerância aumenta, mas o grupo ganha o direito de, como qualquer ser que cresce, ter uma casa a que chama sua. Em 2007, quase dez anos depois de assente a onda eufórica da Expo’98, que fez Lisboa descobrir a zona oriental da cidade, o grupo instala-se num pavilhão cedido pela Câmara Municipal de Lisboa, na Rua do Açúcar, a meio caminho entre o Beato e o Poço do Bispo. “Quando para aqui viemos, houve um amigo que chegou a dizer-me que nem a minha mãe me viria ver”, recorda Miguel Seabra.

 

 

Hoje, há uma corrente de público que cresce a cada espectáculo. Em volta, a zona reinventa-se de animação e de novos espaço culturais e de restauração. Mas ir ao Teatro Meridional ainda é uma experiência específica e um programa único.

 

Em 2010, ganhou o Prémio Europeu das Novas Realidades Teatrais. Cresce também, ano após ano, o número de acolhimentos de estruturas mais jovens para quem o Meridional já é uma referência. “Por um pagamento simbólico, que não chega obviamente para cobrir despesas, os acolhimentos são muito importantes para nós. Somos solidários, mas não paternalistas”, explica-nos Natália Luiza.

 

 

As datas redondas servem para balanços e arrumações. No dia em que O Corvo visitou o Meridional, estávamos entre montagens. Para comemorar os seus 25 anos, a companhia escolheu apresentar, até ao início do Outono, seis das suas mais importantes produções dos últimos anos. Espectáculos quase todos premiados e que, juntos, são um festival bem representativo do trabalho do grupo. Uma equipa coesa, quer na direcção artística, quer na cenografia, na invenção de universos musicais, no acolhimento de dramaturgos e na reinvenção de textos que não nasceram mas se fizeram teatro.

 

 

Mais tarde, haverá espaço para, de novo, repensar o que fazem eles aqui. Nós sabemos, mas gostamos da ideia de serem eles a dizer-nos.

 

Mais informações: www.meridional.net

 

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