Mercearias de Lisboa adaptam-se a clientes estrangeiros e tentam manter antigos, com menos poder de compra

REPORTAGEM
Sofia Cristino

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VIDA NA CIDADE

Cidade de Lisboa

4 Dezembro, 2018

As mercearias tradicionais dos bairros da capital continuam a ser muito procuradas pela qualidade e diversidade dos produtos. Sobretudo na altura do Natal, quando as grandes superfícies comerciais estão repletas de gente. Com as transformações da cidade, e o aumento de estrangeiros a viverem nas freguesias mais caras de Lisboa, as lojas de conveniência também estão a adaptar-se a um cliente com um poder de compra mais elevado. Os novos compradores são mais exigentes, garantem os lojistas. Procuram coisas como fruta desidratada e produtos biológicos, mais caros, contribuindo assim para a sobrevivência destas lojas – que acabam por se juntar à classe das “mercearias finas”. As novas dinâmicas urbanas têm também uma faceta menos positiva. Alguns estabelecimentos queixam-se de terem perdido muitos dos antigos clientes, que foram morar para a periferia por não conseguirem suportar rendas mais altas. Mas a familiaridade das mercearias continua a cativar muita gente, sobretudo pelo atendimento personalizado.

Na Rua Morais Soares, ao entrar na mercearia Japão, uma das mais antigas de Lisboa, esbarramos com um bacalhau pendurado no tecto e um cesto de castanhas. Já se sente o cheiro intenso a queijo da Serra da Estrela e dos doces, que, entre outras iguarias, compõem a decoração natalícia. Jorge Santos, dono do estabelecimento comercial – que este ano até já esteve quase em risco encerramento, devido ao impasse nas obras da estação de metro de Arroios -, atende os clientes com a mesma disposição com que os habitou, ao longo das últimas três décadas. Mas não consegue esconder a perda de entusiasmo. “Nos últimos quatro anos, houve um grande abandono dos moradores antigos. Muitas vezes, as ruas estão desertas e o turismo também já está a diminuir. Sinto que as pessoas têm menos dinheiro e contam os trocos todos”, diz.

 

Lá dentro, os clientes enfileiram-se para ver os sortidos das caixas de bombons, empoleirados até ao tecto, e perguntam os preços dos chocolates recheados com cereja e avelã. “É difícil escolher, mas há tanta gente para oferecer prendas que tenho de começar por algum lado. O valor da reforma não dá para tudo, temos de ir devagar”, diz Maria Calvino, 86 anos, após comprar o primeiro presente, uma caixa de chocolates.  Maria Emília Costa, na casa dos 80 anos, não vai fazer compras para a consoada, mas os olhos já devoram as iguarias. “Este bacalhau é muito bom, mas este ano não posso gastar dinheiro. A minha sobrinha vai-me dar um cabaz”, conta.

Na mercearia, localizada desde 1918 num dos principais arruamentos da freguesia de Arroios, ainda se alimenta a tradição natalícia. Nesta parte da cidade, a população está mais envelhecida e muitos mudaram para outras zonas de Lisboa, quando as rendas das casas começaram a subir para valores incomportáveis para a maioria. A nova morada não os impediu, contudo, de continuarem a encomendar a este espaço comercial garrafões de azeite, queijos e fumados. “Já recebi algumas encomendas para a ceia. O resto, frutos secos e cristalizados e farinhas para bolos, vão comprando, aos poucos, para guardarem em casa, e porque custa menos”, explica Jorge Santos.

 

Enquanto uns já começam a pensar nas prendas de Natal, outros estão mais preocupados com a qualidade das verduras. Ao chegar à Praça Paiva Couceiro, Isabel Sousa, 62 anos, procura feijão verde numa caixa de cartão já praticamente vazia. “Este feijão sabe mesmo a feijão verde, nas grandes superfícies comerciais, muitas vezes, sabe a borracha. É outra qualidade, sem dúvida, e é por isso que cá venho”, diz a cliente da mercearia de esquina, há vários anos. Para a ex-moradora desta parte da cidade – onde ainda regressa para dar assistência à mãe -, ainda é cedo para pensar na noite de Natal, mas já leva uma posta de bacalhau e hortaliça para avaliar a qualidade. Mário Filipe, o dono da mercearia, há 30 anos na Penha de França, ainda recebe algumas encomendas, mas são cada vez menos. “Vão pedindo para guardar uma boa couve, um molho de grelos, mas não passa disso. Nesta altura, vamos sempre vendendo mais um bocadinho, mas nunca como há vinte anos”, explica. O comerciante tem clientes de Alvalade, do Prior Velho, em Loures, e de outras freguesias limítrofes da cidade, e são estes compradores habituais que ainda não o deixaram fechar portas.

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Mercearia Japão: um clássico da Rua Morais Soares

Em Alcântara, João Jorge, 76 anos, também já recebeu encomendas, mas de outras zonas da Grande Lisboa, como Cascais e Oeiras, e até do Bombarral. “São os clientes habituais que me valem, há vinte anos vendia num dia o que vendo agora numa semana. Esta zona também perdeu muita população e o número de clientes diminuiu bastante, mas acredito que está a consolidar-se”, considera o dono da mercearia Progresso. Na montra da pequena loja, desde 1943 no final da Rua de Alcântara, já há bacalhaus pendurados, vinhos de mesa e licores. “Antigamente, os vinhos da região do Alentejo eram os mais procurados. Agora, os clientes levam a marca que está na moda”, diz. E muitos, conta ainda, vêm de outras partes do país, de propósito, para levarem os produtos. Na mercearia A Saloia, Liliana Pereira, 30 anos, ainda está a dar os primeiros passos neste ramo de actividade e a perceber as preferências dos clientes. “O que procuram mais, nesta altura, são as laranjas e as castanhas. Mas os hábitos de consumo estão sempre a alterar-se e estou a acompanhar essas mudanças”, diz.

 

Ao percorrer os bairros típicos de Lisboa, vamo-nos deparando com várias mercearias, muitas já geridas por chineses e indianos. Ao longo dos anos, com a mudança dos clientes, mas também dos hábitos de consumo, as pequenas lojas foram-se adaptando. Na Avenida Almirante Reis, na mercearia Pomar, Shan Lele, natural da China, nunca vendeu tantas castanhas e dióspiros. “Noto que as pessoas querem gastar mais dinheiro, principalmente com fruta. Temos muitos clientes novos e perdemos os antigos, porque as rendas aumentaram imenso e tiveram de sair”, conta, enquanto serve uma limonada a um trabalhador da zona.

 

Para este cliente ocasional e outros que por ali passavam, estas lojas são, essencialmente, práticas. “Hoje, estou constipado, e aqui fazem-me uma limonada rapidamente, noutros sítios não”, comenta o comprador, que não quis ser identificado. No meio de alfaces e hortaliças, Helena Aleixo, 62 anos, faz as compras habituais. “Venho cá todos os dias comprar fruta, como abacaxi e papaia. Aqui há fruta de todo o mundo, é tudo mais fresco e os preços são acessíveis”, elogia. Artur Rocha não está tão entusiasmado. “Ganhamos pouco, temos de ir fazendo as compras aos poucos”, diz, enquanto empacota um saco de batatas para o almoço.

 


 

À medida que vamos chegando ao centro de Lisboa, as preocupações dos comerciantes mudam. Aida Guedes, 53 anos, é o rosto da terceira geração da mercearia Santa Cruz, estabelecida desde 1938 numa rua perpendicular à Rua Rodrigo Fonseca, na freguesia das Avenidas Novas. No início de Dezembro, começa a receber “pedidos especiais” para a ceia de Natal. Os clientes com um poder de compra maior têm exigências diferentes. “Fazemos tudo, desde arranjar os grelos e as couves lombardas, a preparar o bacalhau – os nossos clientes não o demolham -, a partir as nozes, enfim, arranjamos tudo, um trabalho que não se faz em todos os sítios”, conta, entusiasmada, enquanto prepara uma caixa de petit gâteu, um bolo de chocolate confeccionado na mercearia.

 

 

Às iguarias tradicionais da época, juntam-se as batatas fritas típicas das Caldas da Rainha, tostas alentejanas, figos em calda, requeijão de Seia, vinhos da região do Douro, marmelada caseira e queijo curado pelas funcionárias da mercearia. “As pessoas querem ter a certeza da qualidade dos alimentos. Se houver uma fruta com pior aspecto na caixa, já não compram nada, tem se estar sempre tudo em condições. As bananas, por exemplo, só compram de uma marca específica, já vendi mais baratas, mas não compram”, conta.

 

 

Na freguesia adjacente, na Estrela, habitada maioritariamente pelas classe média alta e alta, há quem não esteja para perder tempo e encomende as refeições já confeccionadas. “Já recebemos vários pedidos de sonhos, bolos-reis, filhoses e outros doces típicos do Natal. Já começam a encomendar peru assado e bacalhau cozido”, conta Nuno Rocha, 40 anos. Há dez anos a tomar conta da mercearia herdada do pai, Nuno sentiu necessidade de alargar a oferta quando perdeu alguns dos clientes habituais. “Já há vários franceses a viverem aqui e também é uma zona muito visitada por turistas, o que me levou a arriscar mais”, explica, enquanto mostra as latas de conserva e os artigos pensados para quem visita a cidade. A mercearia esteve fechada, durante vários meses, e reabriu uns metros acima, na Calçada da Estrela, com uma área maior, um serviço de refeições takeaway e almoços. “Um grupo de cinquenta pessoas pediu-me para fazerem um jantar de Natal aqui, obviamente que não cabiam, mas fiquei contente por o quererem fazer na mercearia”, conta, entre risos.

 

 

Outro sinal de que os hábitos de consumo estão a mudar é a diversidade de produtos da mercearia Poço dos Negros. Além dos frutos secos e da fruta desidratada, vendidos ao peso, no número 97 da Rua do Poço dos Negros, que liga Santos ao Bairro Alto, é possível comprar um cabaz de legumes biológicos por encomenda, às segundas-feiras. Na montra, repleta de conservas e patés, surgem cabazes personalizados e frascos com frutos secos. “Cada vez mais empresas da zona nos pedem sugestões de cabazes de Natal e personalizamos este cesto, é uma altura do ano que se vende sempre mais um bocadinho”, conta Maria Carvalho, 35 anos.

 

As pêras desidratas, a marmelada de Lamego, ainda confeccionada em forno de lenha, e o café, torrado no bairro da Madragoa, são dos produtos mais procurados. O amendoim português, “mais pequeno e mais doce”, é outra das iguarias mais populares. Maria abriu a mercearia, juntamente com Eduardo Cuadra, 48 anos, e ambiciona ter o melhor artigo de cada parte do país, porque o mais importante para este casal é a qualidade dos produtos. “O nosso cliente mudou muito, temos os moradores antigos, mas também o estrangeiro residente, que não come couves no Natal, mas queijos e vinho, por exemplo. Senti muito esta diferença, no último ano, com o aumento do valor das casas”, conta. Além dos tradicionais queijos de Nisa e de Azeitão e dos enchidos transmontanos, há manteiga artesanal de Cascais.  “Temos cuidado em não ser elitistas e chegar a todos, vender com qualidade, essencialmente”, conclui.

 

 

No Bairro Alto, longe vão os tempos em que Casimiro Carvalho, ali há 48 anos, vendia tanto como o número de moradores do bairro típico de Lisboa. Agora, e quando o Natal se aproxima, é que começa a vender alguns frutos secos. No dia-a-dia, não lhe compram muito mais que um pão ou uma peça de fruta, à excepção de meia dúzia de habitantes, que ainda lá fazem as compras todas. “Perdemos muitos clientes, uma grande parte teve de ir morar para outras zonas. O bairro está muito diferente, só nesta rua há imensos hostels e os estrangeiros só nos compram pão”, conta o comerciante. Ana Diogo, 45 anos, nasceu no Bairro Alto e ainda compra os artigos alimentares no comércio tradicional. “Não há nada que não compre cá e esta confiança, que desenvolvemos com os comerciantes, já é muito difícil de encontrar, por isso venho cá. Também não gosto da confusão dos centros comerciais”, diz.

 

 

Na mercearia Girassol, em Benfica, deixaram de se vender cabazes de Natal este ano, pela fraca procura, e ainda é cedo para fazer uma avaliação do ano que chega agora ao fim. “As pessoas deixaram de comprar, vai-se vendendo como noutra altura qualquer do ano. A vinda das grandes superfícies comerciais afectou muito o nosso negócio”, lamenta António Canossa, nesta pequena loja, na Estrada de Benfica, há dezenas de anos. A poucos metros, Júlio Vilela, 87 anos, diz ter sido um dos primeiros a instalar uma mercearia no bairro. Há muito tempo que deixou de vender bacalhau e outros artigos da época, até porque só continua a trabalhar para não ficar em casa. “Quando vim, não havia supermercados, vendia-se muito, eram outros tempos”, recorda.

 

 

 

Maria de Lourdes Fonseca, presidente da direcção da União de Associações do Comércio e Serviços (UACS), em declarações a O Corvo, elogia a forma como as mercearias se têm adaptado às novas necessidades de um “público mais exigente” e a forma de atendimento deste género de comércio tradicional. “Existem novas formas de se fazer este tipo de actividade e de apresentar os produtos, dando um serviço diferenciado a quem cá vive. As mercearias têm muito a oferecer, das gerações mais antigas às mais novas, e, por vezes, têm produtos que só nos lembramos da existência quando lá vamos”, diz.

 

A dirigente reconhece que as transformações da cidade, a perda de moradores e o aumento do turismo, não ajudaram este tipo de negócios, que sobrevive muito graças aos residentes. Mas tem outras explicações para o cenário de degradação. “Este ramo de actividade já deixou de ser sazonal há alguns anos. Antigamente, o Natal significava dois a três meses das vendas totais do ano nas mercearias. Agora, com o boom turístico e toda esta expansão económica através do turismo, a sazonalidade deixou de existir. Por outro lado, a população está mais envelhecida e as famílias gastam menos. Acredito que os novos comerciantes vão ajudar as mercearias a ganharem outra vida”, conclui.

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