Há um ano, o Mercado do Rato ia fechar. Os comerciantes haviam sido informados oralmente por um representante da Câmara Municipal de Lisboa de que, até 31 de Março de 2013, deveriam optar por receber uma indemnização ou mudar-se para outro mercado. Até hoje, nenhum se foi embora e poderá estar para breve a recuperação do espaço.

Os rumores chegaram aos estabelecimentos no início do ano. “Começou-se a ouvir falar disto: a junta disse que ficava com o mercado, mas a câmara diz que não”, conta Cristina Rebelo, que tem no mercado uma banca de fruta e legumes, juntamente com a mãe, Maria de Fátima Rebelo, desde o 25 de Abril de 1974.

Vasco Morgado Júnior, presidente da Junta de Freguesia de Santo António, confirma as negociações com a câmara no sentido de o mercado passar para a gestão da junta. Mas adianta que a situação “ainda está indefinida”. No entanto, a verificar-se a transferência, “a intenção [da Junta] é a de recuperar” o mercado, pelo que, garante Vasco Morgado, já tem “estado a falar com parceiros” interessados em investir no espaço.

Para Cristina Rebelo, uma solução como a encontrada para o Mercado de Campo de Ourique – que recentemente passou a dispor de áreas de restauração e eventos a par da venda de peixe, fruta e carne – era o ideal para o Mercado do Rato, mas José Barata, vendedor de bacalhau, tem dúvidas. “Aquilo em Campo de Ourique está a funcionar agora, mas daqui a um tempo não se sabe”, diz, atribuindo ao efeito de novidade o sucesso da fórmula.

 

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Há um ano, José Barata era o único dos comerciantes que admitia mudar-se para outro mercado. Os restantes mostravam-se revoltados com a atitude da Câmara e o montante apresentado como compensação. “O valor da indemnização proposto é muito baixo para os anos que aqui estivemos e para o investimento que foi feito”, dizia, na altura, José Saraiva, dono do restaurante Cantinho do Rato.

Reduzido actualmente a apenas seis espaços comerciais – dois restaurantes, uma banca de fruta, uma de roupa, uma padaria e uma banca de bacalhau –, o Mercado do Rato foi fundado em 1927, num quarteirão nas traseiras da Rua Alexandre Herculano. Desde o final de 2012, deixou de haver ali venda de peixe ou carne, o que veio acentuar ainda mais a degradação crescente do edifício. Motivo alegado pela Câmara Municipal, em 2013, para o encerramento das instalações.

Para já, os restantes comerciantes mostram-se cautelosos, porque, afirmam, já não é a primeira vez que ouvem histórias que não se confirmam. “Cada um diz a sua coisa”, comenta José Barata, acrescentando: “Da maneira como isto está, prefiro receber a indemnização”. Cristina Rebelo corrobora: trabalhar ali “vai dando para a bucha”.

 

Texto: João Pedro Pincha     

Fotografias: Carla Rosado (1) e João Pedro Pincha (2)

Comentários
  • João Barreta
    Responder

    As indefinições à volta dos Mercados de Lisboa revela a inexistência de uma estratégia municipal para os mesmos, pelo que muito do que é noticiado tem girado em torno de rumores, boatos, diria mesmo, falta de ideias! Segundo foi passado na altura (transferência de competências da CML para as Juntas) tinha sido decidido que o Mercado do Rato seria um dos poucos que ficaria na alçada da Autarquia, passando mais de duas dezenas de Mercados para as Juntas de Freguesia.
    Cautela, no entanto, que a fórmula “Campo de Ourique” e “Ribeira” ou “Bom Sucesso” (no Porto) não é aplicável a todos os Mercados de igual forma. Estude-se primeiro (e rápido!)e faça-se depois (de preferência, bem!).

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