A nave central do mercado deveria ter sido inaugurada como espaço de cowork, em Maio de 2013, de acordo com um protocolo assinado entre a Câmara de Lisboa e a Associação Industrial Portuguesa. Agora, a Junta de Arroios quer aproveitar o espaço para criar um pólo cultural numa freguesia “muito carenciada de equipamentos” do género. Mas o vereador Duarte Cordeiro põe água na fervura e diz que tudo está em aberto.

 

Texto: Samuel Alemão

 

No coração dos Anjos, o bairro mais na moda de Lisboa, poderá nascer em breve um centro cultural, com salas de ensaio e uma área de apresentação de espectáculos. A nave central do velho Mercado do Forno do Tijolo é o lugar escolhido para tal equipamento, caso a Câmara Municipal de Lisboa (CML) aceite a proposta lançada pela Junta de Freguesia de Arroios. A decisão estará agora nas mãos dos vereadores Duarte Cordeiro, com o pelouro das Estruturas de Proximidade, e Graça Fonseca, da Economia e Inovação.

 

A hipótese nasceu depois do executivo da junta se ter farto de esperar pela concretização do espaço de cowork que a Associação Industrial Portuguesa (AIP) deveria ter ali inaugurado na Primavera do ano passado, após ter celebrado um protocolo com a CML, a 30 de Março de 2012. “Parecem ter desistido da ideia, não sabemos mais nada”, diz a presidente da Junta de Freguesia de Arroios, Margarida Martins (PS). Mas o vereador Duarte Cordeiro diz ao Corvo que o protocolo com a AIP ainda está em vigor, pelo que não se quer comprometer com a possibilidade do espaço vazio – resultado da reformulação recente do mercado – vir a ser usado como um pólo cultural.

 

Com a descentralização das competências, ocorrida no início do ano através da implementação da reforma administrativa da cidade, as freguesias passaram a ser também responsáveis pela gestão dos mercados municipais. A junta de Arroios quer, por isso, tirar partido de um espaço situado dentro do Mercado do Forno do Tijolo, e que tem estado sem uso. Isto apesar de existir um protoloco assinado entre a CML e a Associação Industrial Portuguesa (AIP) para esta criar ali uma área de trabalho partilhado (cowork). Com esse fim, a associação ter-se-ia comprometido a realizar obras, as quais deveriam estar prontas em Maio de 2013.

 

O certo é que tal não sucedeu. “Dezoito meses é muito tempo. E como não temos aqui na freguesia, com uma área de 57 quilómetros quadrados, um único espaço cultural, entendemos que seria uma boa ideia. Trata-se de uma área com uma grande diversidade cultural e um fortíssimo movimento associativo, mas sem um único espaço para desenvolver as muitas actividades”, diz ao Corvo Margarida Martins, em jeito de justificação para ter decidido avançado com a proposta.

 

A autarca diz que quer “trabalhar com todas as colectividades da freguesia, nomeadamente em projectos de inclusão”, mas queixa-se de, a cada vez que se organiza alguma actividade, ser necessário alugar um espaço para o efeito. Com os custo daí decorrentes. Por isso, viu uma oportunidade de suprir essa falha no que parece ser uma desistência da AIP em ocupar a nave central do mercado – embora admita que esteja ainda a aguardar a marcação de uma reunião conjunta com o vereador Duarte Cordeiro e, eventualmente, os responsáveis da associação.

 

A ideia da junta é transformar a área num “espaço multiusos, com elementos amovíveis”. Para isso, pediu aos arquitectos Francisco Pólvora e João Appleton que elaborassem um esboço do projecto. Nele, haverá lugar para uma sala principal polivalente, que albergará espectáculos de áreas tão distintas como a dança, a música ou o teatro. Ao seu lado, em dois pisos, existirão quatro salas estúdio. Haverá ainda lugar para uma galeria e uma cafetaria. As bancas de venda de frescos e legumes que ocupavam o centro da estrutura já foram transferidas para uma parte remodelada do mercado, situada na parte exterior.

 

No último boletim da Junta de Freguesia de Arroios, no qual se anuncia à comunidade o projecto, os autores do mesmo são citados, referindo que “vai ser preservada a estrutura espacial do edifício, sendo mantido o grande átrio central com pé-direito duplo e ventilação e iluminação naturais conferidas pela cobertura em shed”. Questionada pelo Corvo sobre os custos do projecto, a edil diz não ter ainda números exactos, mas garante que o mesmo “não vai custar muito”, pois passa sobretudo por aproveitar o espaço já existente.

 

O esboço arquitectónico partiu de uma ideia de programa prévio do equipamento saído das cabeças de Margarida Martins, de Miguel Honrado – ainda presidente da EGEAC, entidade que gere os equipamentos culturais municipais, e que a 1 de Janeiro de 2015 começará a desempenhar o cargo de presidente do conselho de administração do Teatro Nacional Dona Maria II – e de Marta Silva, responsável pelo surgimento dos projectos culturais Largo Residências e Sou, sediados no Largo do Intendente, e profunda conhecedora daquela parcela de território. Margarida Martins salienta que ambos “são pessoas do bairro”.

 

Contactado pelo Corvo, o vereador Duarte Cordeiro preferiu adoptar uma atitude cautelosa em relação à eventual concretização do projecto. “Sabemos do interesse da junta em ocupar aquele espaço, tomámos conhecimento do projecto. Mas há um protocolo em vigor com a AIP, pelo que não podemos adiantar muito mais sobre o que vai acontecer”, diz o autarca. Duarte Cordeiro confirmou, porém, o agendamento de reuniões de trabalho com Margarida Martins e com responsáveis da AIP, os quais “têm realizado visitas técnicas ao local”.

 

O Corvo tentou saber junto da Associação Industrial Portuguesa qual o estado do processo, mas sem sucesso até ao final da tarde desta segunda-feira (24 de Novembro).

 

* Texto rectificado às 11h40. Corrige o período de desempenho de cargos por parte de Miguel Honrado.

 

  • Paulo Etnarama
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    Depois de terem acabado com o mercado ao abrir um lidl agora continua a destruição… Triste ver no que se tornou, um parque de estacionamento com lojinhas…

  • Paulo Etnarama
    Responder

    Uma sugestão pois a junta também acabou com isso, era devolver à freguesia as aulas para os “idosos” que tinham na Damasceno Monteiro. Em vez de dar esse espaço para associações de solidariedade que não trazem nada para a junta…

  • Paulo
    Responder

    O bairro precisa verdadeiramente de espaços culturais e de outros equipamentos e muito mesmo de espaços para crianças. Há toda uma população de jovens e famílias que quer ter oferta de equipamentos e serviços mais virados para as suas necessidades, sem que isso comprometa o espirito cosmopolita e tradicional do bairro, onde se vê todo o tipo de população e loja.

  • João Barreta
    Responder

    A modernização da cidade nem sempre passa por acabar com aquilo que funciona mal, sem antes saber qual o “projeto” alternativo. Que possa servir de exemplo, antes de eventualmente se ponderar acabar com mais mercados ou transfigurá-los em algo de pouco consistente !!!!!

  • Annie Coelho
    Responder

    A escola do Forno do tijolo, foi onde o meu filhote foi para a escola a primeira vez……..gosto do nome e gostei muito viver neste bairro……..

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