Mercado do Bairro de Santos tem nova vida, mas abertura de supermercado no interior divide opiniões

REPORTAGEM
Sofia Cristino

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VIDA NA CIDADE

Avenidas Novas

19 Julho, 2018

O mercado do Bairro de Santos ao Rego ganhou uma praça central, com árvores e bancos, um quiosque, um elevador panorâmico e nove lojas, mas, apesar do aspecto renovado, ouvem-se muitas queixas. O elevador não funciona e várias pessoas já ficaram presas lá dentro. Não há ninguém a zelar pela limpeza do espaço exterior e existe uma caixa de esgotos na peixaria que já entupiu três vezes. De manhã, diz o peixeiro, “o odor é terrível”. Os vendedores queixam-se da demora nas obras e de não ter sido preservada a memória do mercado. A instalação de um supermercado na antiga zona das bancas está a dividir opiniões. A maioria sente que veio “roubar clientes”, mas também há quem ache que o contrário. “Esta requalificação foi muito positiva. Mais de 50% dos meus clientes são novos”, diz uma comerciante antiga. Os mais novos esperam apreensivos. “Ainda estamos muito no início, mas os mercados estão muito na moda”, diz o novo barbeiro.

“Há vinte anos, isto era um mercado. Lá dentro, era a praça, agora é o supermercado Minipreço. Está mais moderno, eu é que estou velha”, diz, entre risos, Maria Natália, 73 anos, dona da Anaju Cafetaria, conhecida ali pela venda de cafés a 50 cêntimos. A comerciante fala das recentes obras de requalificação do mercado do Bairro de Santos ao Rego, que ganhou um supermercado, uma praça central coberta – com bancos, um quiosque e árvores – e um elevador panorâmico, que dá acesso à galeria comercial no primeiro piso. A cerimónia de inauguração aconteceu no Sábado (14 de Julho), mas alguns estabelecimentos comerciais já estavam a funcionar desde Fevereiro. A recuperação do mercado custou 1,4 milhões de euros, suportados pela cadeia de supermercados Dia Portugal Supermercados, e permite ainda albergar vinte lojistas, nove delas a integrar o espaço pela primeira vez. De todos os mercados alvo de intervenção no âmbito do Plano Municipal dos Mercados de Lisboa 2016-2020, este era o mais degradado e que esperava por obras há mais tempo.

Maria dos Anjos, 74 anos, vende jornais e revistas desde 1993, quando a praça ainda era conhecida popularmente por “mercado dos chapéus-de-sol”. “Vendia-se de baixo dos chapéus, por isso, chamava-se assim. Sofreu muitas transformações e, nos últimos anos, estava já muito degradado, quase a fechar. Está muito diferente, mais bonito”, elogia, sem deixar de fazer um reparo ao novo sítio onde está instalada. “Este quiosque é muito pequeno, as pessoas passam por mim e vão para o supermercado, nem me vêem”, lamenta. Maria Natália também está apreensiva. “O que atrai mais as pessoas é o supermercado, onde há uma cafetaria, e tenho receio que acabem por ficar por lá. Daqui para a frente, é aguardar, esperar é uma virtude”, diz, enquanto serve cafés aos comerciantes vizinhos.

 

Neste local, na década de 60, chegou a existir um mercado espontâneo onde os vendedores se reuniam de baixo de toldos improvisados. Depois de várias décadas a funcionar a céu aberto, o mercado acabaria por ser construído em 1989, com uma praça central. O encerramento de praticamente todas as bancas, ao longo dos últimos oito anos, antecipava a renovação urgente, que culminaria com a construção do supermercado Minipreço Family. O estabelecimento comercial ficou a ocupar a antiga área das bancas, passando cá para fora o comércio que ainda preserva a memória do mercado. Ou, pelo menos, “seria essa a ideia do projecto inicial”, diz Paulo Silva, 49 anos, há 25 anos a vender ali peixe.

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Paulo Silva, há um quarto de século a vender peixe neste mercado

“Não houve respeito nenhum pela história do mercado. Depois de anos abandonado, a Câmara de Lisboa teve de se juntar a uma grande cadeia de supermercados para salvar isto. Não nos dão valor e não cumpriram com o que nos prometeram”, acusa. Paulo Silva critica a autarquia por ter demorado “o dobro do tempo” do inicialmente previsto a concluir a empreitada e diz não ter condições para trabalhar. “Estivemos a trabalhar com obras e pó e perdemos muitos clientes. Já não tenho uma máquina de fazer gelo nem espaço para o guardar, e gasto 35 euros por dia em gelo, é incomportável. A banca foi reduzida e o lava-loiças é minúsculo, só dá para trabalhar uma pessoa de cada vez”, lamenta, enquanto observa a mulher, Carla Silva, a desmanchar o peixe.

 

 

“Tem melhor aspecto, a forma como foi feito é que não concordamos. O quiosque, mesmo à nossa frente, tapa-nos e ninguém nos vê”, acrescenta a peixeira enquanto escolhe o peixe para os clientes acabados de entrar. Já os conhece e sabe o que querem. “São da casa, é o que nos vale”, diz de sorriso nos lábios. Celeste Furtado, na casa dos 40 anos, é uma das clientes habituais. Vai ao mercado há tantos anos que já perdeu a conta. “Sempre comprei peixe aqui. É mais caro, mas tem melhor qualidade e é mais saboroso. O supermercado não combina com a peixaria”, diz. José Ferreira, 68 anos, vai ao mercado do Bairro de Santos desde criança. “Isto tinha de evoluir e, pelo menos, já não está tão abandonado”, elogia, ao mesmo tempo que segura nas caixas de peixe encomendadas para o fim-de-semana.

 

Ao lado, na peixaria de Cristina Soeiro e Américo Reis, as queixas sobem de tom. “Foi péssimo virmos cá para fora, perdemos a nossa praça”, diz Cristina Soeiro, 41 anos, peixeira no mercado do Bairro de Santos há 25 anos. Chegaram a ser nove peixeiras e, agora, só são duas, “muito por culpa da falta de apoio da Câmara de Lisboa”, considera. “Algumas faleceram, mas muitas desistiram porque o mercado estava completamente degradado. Havia muitas bancas vazias, mas a Câmara não as colocava a concurso, e foi uma forma de as pessoas deixarem de vir cá, porque éramos muito poucos”, conta. O marido, Américo Reis, queixa-se da “concorrência desleal” do supermercado, mas a sua maior preocupação é o “odor terrível” que se sente quando abre a peixaria, às 7h00. “Deixaram uma caixa de esgotos numa loja de produtos alimentares, já entupiu três vezes desde que cá estamos. Tiveram os caixotes do lixo cheios, durante vários meses, até 11 de Julho. Só recolheram o entulho para o dia da inauguração. É péssimo para a saúde pública. E temos água a cair para o chão por falta de um tabuleiro”, critica.

 

Logo à entrada da praça, do lado esquerdo, Teresa Quaresma, 46 anos, está mais optimista. “Isto estava uma bandalheira total, está melhor agora. Sempre tive clientes, mas, desde que reabriu, vejo mais jovens a procurarem flores”, diz a florista, há doze anos no mercado. Quando questionada sobre o que ainda falta melhorar no novo mercado, contudo, as críticas disparam. “Ainda reguei as plantas da praça durante algum tempo, mas não sou funcionária da junta de freguesia. As plantas vão morrer”, acredita Teresa Quaresma, que fez um investimento de 5 mil euros no novo espaço. “Só me deram as paredes e a torneira, o resto fiz eu. Como as obras deveriam ter sido concluídas em Setembro, deviam-nos pagar indemnizações”, repara ainda.

 


 

De manhã, ainda há pouco movimento. É comum ver-se os vendedores deslocarem-se às lojas uns dos outros para conversar, enquanto não surgem clientes. Os que aparecem são os habituais, os moradores do bairro familiarizados com os produtos frescos do mercado. “A qualidade é melhor, não há nada como um mercado, já venho cá há 40 anos”, comenta Júlio António, 72 anos, cliente da charcutaria de Maria Alina, 74 anos. A vendedora mais antiga considera-se “uma resistente”. “Nos últimos anos, o mercado ficou mais em baixo e os mais novos não querem trabalhar aqui, querem empregos com menos responsabilidades”, diz. Antónia Martins, 82 anos, sentada com um saco de compras, vai pondo a conversa em dia com a vendedora de queijos e enchidos, enquanto ganha coragem para se levantar. “Moro no terceiro andar, já são muitas escadas para a minha idade. Venho ao mercado desde o início, quando só era terra batida”, conta. A moradora gosta do aspecto renovado do mercado, mas critica o mau funcionamento do elevador. “Volta e meia, avaria e para nós, que temos dificuldade em subir escadas, não é bom”, diz.

 

Dina Mota, 56 anos, há 25 anos no Cantina do Mercado, um restaurante de comida tradicional portuguesa, mudou-se para o piso superior este ano e diz que já perdeu clientes idosos porque o elevador não funciona. “No primeiro dia em que o fornecedor do tabaco veio cá, ficou preso no elevado 20 minutos. Agora, uns dias funciona e outros não, talvez haja falta de manutenção ou não esteja preparado para ter mais peso, mas tem de ser resolvido este problema”, diz. Dina Mota informa ainda que as casas-de-banho “quase nunca têm papel higiénico” e não há ninguém responsável pela limpeza do mercado. “Só limparam as escadas para o dia da inauguração, estão sempre sujas. A presidente da Junta de Freguesia não nos ajuda nada, só se importa connosco quando vem cá o presidente da Câmara”, acusa. A proprietária do restaurante mais antigo do mercado critica ainda “a falta de cumprimento de promessas da autarquia”. “Os restaurantes tinham de vir todos para o piso de cima, mas só vim eu, e sendo a mais antiga, devia ter prioridade. Ao longo de oito anos, fecharam muitas bancas e cada um que saía era um alívio para eles, porque não tinham de se preocupar com indemnizações. Só fizeram obras porque o supermercado suportou as despesas, se não o mercado fechava”, afirma.

 

 

Aníbal Teixeira, há dezoito anos no mercado e há 45 anos a grelhar frangos, elogia o “melhor aspecto” do espaço, mas também já ficou preso no elevador no mesmo dia em que o cliente, que acaba de atender, também ficou fechado quinze minutos. O proprietário da Churrasqueira do Mercado também não está satisfeito por ter ficado no piso superior. Ana Gonçalves, 46 anos, a vender pão há oito anos, partilha a mesma opinião. “Devíamos ter ficado em baixo, porque ninguém sobe para comprar pão. Se as pessoas forem ao supermercado, já não vêm cá para cima carregadas de sacos, acho que podíamos conviver no mesmo espaço que o Minipreço. Os meus clientes, quando me encontram, dizem, surpreendidos, que achavam que eu já não estava aqui”, conta Ana Gonçalves. A padeira também se sente enganada e espera recuperar um lugar na praça central. “Senão fosse eu a ir lá em baixo falar com os clientes, não vinha cá ninguém, tenho feito esse trabalho diariamente. Sempre achei que ia ficar em baixo e, quando perguntamos porque não ficámos, disseram que era assim que estava no projecto. As charcutarias também estiveram cá em cima, até há dois meses, e agora estão lá em baixo”, conta.

 

Continuando a caminhar pela varanda, começam-se a ver os novos lojistas, alguns dos quais estão a trabalhar naquele sector de actividade pela primeira vez. “Quando fui mãe, há 18 meses, comecei a pensar num negócio onde tivesse mais flexibilidade de horários para dar mais atenção ao meu filho. Como as pessoas têm cada vez menos tempo para as actividades domésticas, achei que a lavandaria seria uma boa opção”, explica Cláudia Rodrigues, 41 anos, que acabou de abrir uma lavandaria self-service, depois de trabalhar como recepcionista vários anos. Apesar de ter as normas da lavandaria afixadas na parede, faz questão de estar presente para prestar apoio a quem o solicitar e fazer entregas ao domicílio.

 

 

“Se fosse só mais uma lavandaria, não acrescentaria muito de novo, então pensei que podia ajudar as pessoas explicando-lhes como funcionam as máquinas e fazendo a entrega e a recolha da roupa”, explica. Das 7h00 às 22h00, pode-se lavar roupa em duas máquinas, de dez e dezasseis quilos, pelos valores de cinco e sete euros respectivamente, e secá-la noutras duas máquinas por dois euros, durante vinte minutos. “Esta é a minha primeira cliente”, diz Cláudia Rodrigues, enquanto tenta convencer Rosa a levar-lhe a colcha lavada para casa, para a moradora não se cansar. Cláudia Rodrigues lembra ainda “a importância de as lojas mais antigas conviverem com as modernas”. “É bom ter de tudo um pouco, porque as pessoas sentem que numa vinda ao mercado encontram resposta para diferentes necessidades”, diz.

 

Após trabalhar dezasseis anos como editora de imagem na televisão pública, também Margarida Monteiro, 49 anos, decidiu ser mãe e mudar de vida. Gere um centro de cópias e faz bijuteria artesanal nos tempos livres. “Quando vim para cá, percebi que estávamos numa ilha no centro de Lisboa. Há muitos moradores, principalmente estudantes, porque, até há pouco tempo, o mercado de arrendamento era mais baixo, por não estarmos à boca do metro. Percebi que não havia um sítio para tirarem cópias. Isto estava ao abandono”, conta a também moradora no bairro, há sete anos, optimista com o rumo que o mercado está a tomar. “Hoje, só fiz uma cópia, mas ainda estou a semear, para mais tarde colher os frutos do meu trabalho. Há poucos mercados com um coberto e acho que podiam aproveitar essa valência e organizar feiras ambulantes ou eventos de dança para atrair mais pessoas”, sugere, quando é interrompida pela segunda cliente do dia. “Vim plastificar um cartão, um centro de cópias faz muita falta. Morei aqui vinte anos e a freguesia já precisava de uma infra-estrutura nova há muito tempo. Agora só falta melhorarem os transportes públicos”, diz Lina Abreu, 58 anos.

 

 

Tiago Romano, 38 anos, barbeiro no espaço ao lado, foi o primeiro a instalar-se no segundo piso. Esteve dois meses sozinho, enquanto os colegas ainda se estavam a instalar. Fez flyers para tentar divulgar a nova barbearia, mas os clientes teimam em não aparecer. “Ainda estamos muito no início, mas os mercados estão muito na moda”, diz esperançoso. O barbeiro acredita que, com as obras previstas para a Praça de Espanha, esta zona passará a ter “muitas mais pessoas”. “Como aqui há esplanadas e bancos, talvez com wifi venham mais jovens”, propõe ainda. Ao lado, Carina Valente, 34 anos, acaba de fazer a primeira venda na loja Entre Laranja e Verde. Comercializa roupa e acessórios para mulher e criança e nenhuma peça ultrapassa os vinte euros, à excepção de uma mala. “Tenho roupa nova e em segunda mão para agradar a todos, e os preços são uma forma de atrair mais pessoas. Procuro dar o que também procuro para mim”, explica.

 

 

A lojista, a trabalhar pela primeira vez por conta própria – “um sonho antigo” -, propôs a criação da loja de roupa ao gabinete de empreendedorismo da Câmara de Lisboa. “Senti muita ajuda da autarquia, apoiaram-me muito na criação do negócio e tiram-me muitas dúvidas a nível burocrático”, elogia. Carina Valente mora em Alcântara, mas estudou nesta parte da cidade e sente “uma grande mudança”. “Apostaram muito nos bairros e nota-se mais pessoas a circularem na freguesia”, comenta. A loja ainda está um pouco despida, mas esta forma de apresentação “mais clean” também faz parte do conceito. “Com tempo, quero ter um biombo e mais algumas coisas, mas não muitas para não ficar muita confusão”, explica.

 

 

Nas primeiras lojas, o optimismo sentido com a requalificação do mercado também é notório. “Durante muitos anos, tivemos dificuldades em manter os nossos negócios, agora está a correr muito melhor. A instalação do Minipreço foi uma excelente ideia, atraiu muita mais gente”, diz Cecília Valentim, 52 anos, vendedora de toalhas e lençóis bordados e artesanato. Sara Sousa, mesmo ao lado, é costureira no mercado desde 2004, mas, diz em tom de brincadeira, só agora notaram a sua presença. “Esta requalificação foi muito positiva, veio dar um melhor aspecto à zona e tenho tido muito mais trabalho, não tem comparação. Mais de 50% dos meus clientes são novos”, conta, satisfeita. “No piso de cima, ficaram prejudicados. Ainda não estamos a pagar renda, mas, quando começarmos a pagar, muitas lojas vão fechar”, acrescenta. Fernanda Ferreira, a única vendedora de fruta e hortaliças, elogia o novo toldo. “Antes, estava aberto e nos dias de chuva vinha menos gente, acredito que agora virá mais. Já se vê casais mais jovens”, diz.

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