Mercado do Bairro Alto reabre com a promessa de recuperar ofícios em vias de extinção

REPORTAGEM
Sofia Cristino

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CULTURA

VIDA NA CIDADE

Misericórdia

11 Maio, 2018

O Mercado do Bairro Alto reabriu, esta quinta-feira (10 de Maio), como “Mercado de Ofícios”. O antigo mercado municipal vai funcionar como espaço de aprendizagem de técnicas de artes e velhos ofícios, para que não sejam esquecidos ou mesmo extintos. Entre estes, encontram-se a marcenaria, a talha, a cinzelagem, a soldadura, a latoaria, artes decorativas (encadernação, cartonagem, gravura e pintura, decoração de pele e os embutidos) e a pintura “marmoreada”. Na área dos têxteis, vai ser possível aprender a arte da tecelagem, a passamanaria – aplicações feitas de tecido – e o ponto de Arraiolos. Nos próximos meses, decorrerão workshops, “open days” e eventos temáticos abertos ao público. Qualquer pessoa pode inscrever-se nas oficinas criativas, ainda sem data anunciada, através no site da Câmara Municipal de Lisboa (CML).

Instalado na Travessa da Boa Hora, no coração do bairro, o mercado foi recuperado no âmbito do Plano Municipal de Mercados de Lisboa, que prevê a requalificação dos mercados da cidade que estavam “estagnados ou desactivados”, segundo o vereador da Economia e Inovação, presente na inuguração. “Quando apresentamos este projecto, em 2015, ficou evidente que não fazia sentido que todos os mercados continuassem com funções de retalho tradicional, mas deveriam ser redireccionados para aquilo que chamamos de economia criativa da cidade”, explicou Duarte Cordeiro, na abertura oficial do novo figurino do mercado – que representa um investimento de 100 mil euros, e resulta de uma parceria da Câmara Municipal de Lisboa com a Junta de Freguesia da Misericórdia, a Fundação Ricardo Espírito Santo Silva e a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

O responsável pela execução deste programa garante que o equipamento vai ser único na cidade de Lisboa. “Os espaços têm de ter elementos diferenciadores e este não vai ser só um espaço do Bairro Alto, vai ser da cidade inteira e, talvez, do país. Não há muitos espaços com estas características”, assegura. “O Bairro Alto vai contaminar uma comunidade de criadores e designers, não sendo só um espaço de transmissão de conhecimentos, mas de elevação do valor destes produtos”, acrescenta.

 

Não há limites de idade para a inscrição nas oficinas criativas, mas será necessário o “domínio da técnica”. “A partir do momento em que existe a consciência do domínio da técnica, vai ser possível a utilização livre do espaço. Queremos atrair os mais novos para uma área que acreditamos que terá muito futuro, que é o design. Vamos reforçar e cultivar a massa crítica de uma comunidade que ainda vai trazer muito à cidade de Lisboa”, acredita Duarte Cordeiro.

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Um local de aprendizagem e de experimentação aberto à comunidade

A Fundação Ricardo Espírito Santo Silva, especializada na área da formação em artes e ofícios e uma das parceiras do projecto, quer colaborar com os mais jovens e fazer “o que é imperativo hoje em dia”, assegura Santana Lopes, presidente da instituição. E isso passa por “conciliar a força e a beleza da tradição com a vertigem deste progresso acelerado que vivemos”. Santana explicou o que queria dizer: “Cada vez mais, nos vimos rodeados de pessoas de outras nacionalidades e não temos que nos lamentar, mas integrar-nos nesta nova época. Procuramos fazê-lo com este exemplo, recusando a homogeneização e a perda de identidade”.

 

Apesar de ainda não se saber, ao certo, quantas pessoas estarão interessadas em aprender as artes tipicamente portuguesas, já vão surgindo alguns curiosos. “Há um grande desinvestimento das artes em Portugal e a criação deste espaço tem muito valor, de certeza que venho experimentar. Se ninguém fizer isto, estas artes perdem-se e não transitam para as próximas gerações. Há dezenas ou até centenas destes ofícios em Portugal e espero que não se percam os que restam”, diz Ana Margarida Vieira, 21 anos, ex-estudante de Artes e frequentar a licenciatura de Ciência Política.

 

 

A Latoaria Maciel é uma das oficinas instaladas no mercado, onde vai ser possível aprender esta arte em vias de extinção. “A minha geração vai ditar se a latoaria continua ou acaba, os mais novos só terão contacto com o nosso trabalho, se formos teimosos. A abertura do mercado já é um ‘pequeno grande passo’. Sem arte, perdem-se valores e o país não avança”, diz Margarida Gamido, 40 anos, da sétima geração da Latoaria Maciel.

 

O presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, diz que este momento não é só o da devolução de um espaço abandonado à cidade, que estava “fechado e sem rumo”, mas também “o da preservação de elementos da nossa história e identidade”. “Muitos temiam que esta época de massificação se transformasse em homogeneização, mas o que vemos na cidade é uma energia contrária. Na medida em que mais pessoas nos visitam, há cada vez mais força para recuperar aquilo que é nosso”, explica, acrescentando que a reabertura do mercado se assemelha ao que está a acontecer nas lojas históricas protegidas pela CML.

 

 

“Temos de aproveitar este período de maior crescimento económico para fazermos um amplo movimento de recuperação de muito do nosso património. A capacidade de encontrar para cada espaço uma vida nova é vital para devolvermos mais espaços à cidade e fortalecermos os sentimentos de ligação das pessoas com os seus territórios. É o melhor que poderemos deixar para as gerações futuras.”, conclui Medina.

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COMENTÁRIOS

  • Margarida Lucas
    Responder

    É uma boa,mais uma ,para revitalizar os velhos bairros da cidade. Parabéns a todos os promotores.

  • Margarida Lucas
    Responder

    Quero dizer boa ideia.

  • Ana Cristina
    Responder

    Iniciativa maravilhosa, esses ofícios têm que ser mantidos vivos! Parabéns aos envolvidos e persistentes!

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