O Mercado de Alvalade Sul é o último mercado de levante de Lisboa, saindo à rua todas as manhãs, no parque estacionamento da Rua Antero de Figueiredo. O sinal dos tempos já é visível, mas a requalificação, proposta vencedora do Orçamento Participativo de Lisboa 2014, ainda deverá demorar algum tempo a chegar.

 

Texto: Ana Garcia

 

Corria o ano de 1949 quando, como consequência do encerramento do emblemático mercado da Praça da Figueira, a autarquia lisboeta inaugurou três mercados provisórios nos bairros da Penha de França, Mouraria e Alvalade. Nada fazia prever que, mais de 60 anos depois, um deles havia de resistir aos tempos, aos novos hábitos de consumo e à proliferação das grandes superfícies comerciais. É no actual parque de estacionamento da Rua Antero de Figueiredo que se ergue todas as manhãs um conjunto de bancas desalinhadas, caixas e caixotes empilhados, recolhidos depois, por volta das 14 horas, de segunda a sábado. O Mercado de Alvalade Sul é o último mercado de levante da cidade de Lisboa.

 

Antes havia “40 e tal peixeiras, 10 da hortaliça, cinco da fruta, um de criação viva. Era muita gente”, lembra Cristina Aires, de 47 anos, com os números na ponta da língua. Hoje é a última peixeira que resta no mercado, num negócio que já só é “suficiente para sobreviver no dia-a-dia”. A sua história é contada entre caixas de alfaces e sacas de batatas. “Nasci a 12 e vim para aqui a 13”, relata orgulhosamente. A sua mãe era vendedora de pacotes de lixívia no mercado. Desde pequena que Cristina “ia ajudando [as outras vendedoras] a abrir sacos” para receber algum dinheiro, para ir para a escola. “Elas davam-me 25 tostões naquela altura. Depois fui ficando e comecei este negócio por minha conta em 2010”.

 

Actualmente, a realidade é outra. Seis bancas de produtos alimentares (duas de frutas e legumes, uma de peixe) e não-alimentares (uma de flores e duas de roupa) povoam o espaço, agora bem mais reduzido. Os vendedores são os mesmos de sempre, mas, contra o que seria expectável, começam a aparecer novos compradores. “Continuamos a ter muitas pessoas, principalmente ao fim-de-semana. Vem pessoal muito novo, até de fora da freguesia”, conta Lurdes Veríssimo, de 56 anos. Vende no mercado há 35. “A minha mãe vendia cá e eu vinha com ela. Quando começou a ficar doente, a minha filha estava a acabar o 12º ano e começou a vir ajudar-me. Como não há trabalho, ficou aqui”, explica a vendedora de frutas e hortícolas, enquanto avia os pedidos dos clientes que já fazem fila.

 

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A rotina é a mesma todas as manhãs e começa perto das 7h00. Com os produtos frescos vindos do Mercado Abastecedor da Região de Lisboa (MARL), Lurdes Veríssimo e Cristina Aires chegam ao parque de estacionamento da Rua Antero de Figueiredo, ainda vazio. Cristina só vende às quintas, sextas e sábados porque “não compensa” vir mais dias. “Tenho a câmara [de refrigeração] avariada há mais de dois anos e o gelo está caríssimo. Aí está a razão para eu não vir terça e quarta”, lamenta a peixeira. Com apenas um edifício de apoio para guardar as estruturas amovíveis e com condições materiais deficitárias, toda a ajuda é bem-vinda. “Temos aqui um rapaz da Junta [de Freguesia] que vem montar as bancas. A lavagem é a Câmara que faz”, diz Lurdes.

 

A edição passada do Orçamento Participativo de Lisboa (2014-2015) foi a oportunidade encontrada pela Junta de Freguesia de Alvalade para propor a requalificação deste espaço urbano. Na proposta pode ler-se a intenção de dignificação do “espaço e o respectivo usufruto do espaço envolvente”, sugerindo-se intervenções como a “construção de uma cobertura e bancas fixas”. Inserida na categoria até 150 000€, a proposta saiu vencedora em Novembro de 2014. O prazo de execução previsto foi de 18 meses e até hoje nada mudou.

 

Lurdes Veríssimo confessa que nunca lhe perguntaram o que acha da requalificação ou que alterações considera prioritárias. “O presidente da Junta disse que gostava de deixar um marco [na freguesia]. Mas eu não acho que isto nos venha beneficiar. O mercado vai ser de levante na mesma, não vai ser uma coisa fechada. Vamos continuar à chuva, ao sol, com as mesmas condições”, comenta Lurdes, reconhecendo que teme que acrescentem mais vendedores, sinónimo de “mais concorrência”.

 

Entretanto, junta-se à conversa uma cliente, menosprezando o assunto: “Já falam disso há tanto tempo. Eu vivo naquela casa há quarenta anos e não mudou nada no mercado”. Quando questionada acerca do mesmo projecto, Cristina Aires depressa respondeu: “Não acredito que façam. Há muitos anos que oiço dizer isso. As condições sempre foram as mesmas, péssimas, e nunca mudaram nada”.

 

Jorge Pereira, de 23 anos, é dos jovens que frequenta o mercado. Não tinha conhecimento do projecto de requalificação mas adianta que “enquanto comprador” não vê que “isso traga grandes alterações. Continua a ser um parque de estacionamento”. Mas o mercado não vive de um só ângulo: “Não vejo más condições para quem compra, as pessoas são simpáticas, os produtos são bons e baratos. Mas, de facto, para quem está a vender, nada disto deve ser muito funcional”.

 

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Mais de meio ano depois da divulgação dos vencedores do Orçamento Participativo de Lisboa 2014, ainda não sopram ventos de mudança no Mercado de Alvalade Sul. Numa tentativa de perceber em que fase está o projecto e quando avançarão efectivamente as obras de requalificação, foram contactadas as entidades intervenientes no processo. António Carreto, técnico superior da Divisão de Mercados e Feiras da Câmara Municipal de Lisboa, informa que a verba é disponibilizada pela autarquia mas “os proponentes é que são responsáveis pela execução do projecto”.

 

Contudo, como forma de monitorização dos projectos, a equipa do Orçamento Participativo solicita mensalmente “um relatório de andamento do projecto aos respectivos responsáveis. A Junta de Freguesia de Alvalade nunca enviou nenhum”, adianta o técnico. Da Junta de Freguesia de Alvalade não foi possível obter nenhuma declaração, até ao momento. Mas a espera é coisa que não parece afectar este mercado, que, apesar das contrariedades, está vivo e recomenda-se.

 

  • Carlos Vasconcelos
    Responder

    O mercado de Alvalade sul e norte não possuem qualquer apoio da junta, estão claramente ao abandono mas graças a sua qualidade, simpátia, estão de facto vivos e recomendam-se.

  • João Barreta
    Responder

    Se os planos para os mercados “definitivos” nunca terão sido grande coisa, como podemos querer que haja planos para os “provisórios”?????

  • Reserva Recomendada
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: Mercado de Alvalade Sul: o eterno mercado provisório – http://t.co/q7DvXzGl53

  • Rui Barradas Pereira
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: Mercado de Alvalade Sul: o eterno mercado provisório – http://t.co/q7DvXzGl53

  • João Barreta
    Responder

    Ainda, e sempre, a propósito de mercados “municipais” …

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