Mercado de Alvalade ganha nova vida (mas, para já, apenas aos sábados)

por • 1 Agosto, 2017 • Alvalade, BAIRROS, Reportagem, SlideshowComentários (3)635

O Mercado de Alvalade Norte, situado na Avenida Rio de Janeiro, completou 53 anos de existência a 31 de julho. E fê-lo de cara lavada, com novas zonas de restauração e de lazer. A requalificação aconteceu no âmbito do Plano Municipal dos Mercados de Lisboa 2016-2020. A ideia da Câmara de Lisboa, que com este programa pretende reabilitar 25 mercados municipais da capital, é que todos eles ganhem vida nova. Um grande número de comerciantes do Mercado de Alvalade tem, contudo, dúvidas sobre o sucesso do plano. Queixam-se da falta de clientes noutros dias que não o sábado. Uma consequência, entre outros factores, dizem, da “falta de estacionamento” ou da inexistência de uma forte loja-âncora. Mas há, porém, quem tenha uma visão optimista. E quem ali encontre atractivos para lá passar toda a manhã.

 

Texto e fotografias: Sofia Cristino

 

Quem entra no Mercado de Alvalade a um sábado de manhã desconfia se estará realmente no mesmo sítio onde vai às compras noutro dia qualquer da semana. Ao contrário do fim-de-semana, de segunda a sexta o mercado está praticamente vazio e não é preciso passar lá muito tempo para perceber que os clientes são os mesmos de há muitos anos. Mas nem sempre foi assim.

 

“Quando comecei? Ai, quando comecei… Era uma nuvem de pessoas que aparecia aqui. Agora, passam meia-dúzia, vende-se muito pouco”, conta Manuela Oliveira, dona da banca “Peixe da Nela”, a primeira que se vê quando se entra pela porta principal do mercado. Manuela Oliveira trabalha no Mercado de Alvalade Norte há 25 anos. Começou como empregada e quando a proprietária da peixaria se reformou assumiu o seu lugar. Com 62 anos, levanta-se, todos os dias, à meia-noite, para estar no Mercado Abastecedor da Região de Lisboa (MARL) a carregar a carrinha, onde dorme até às 6h da manhã. É de madrugada, antes da abertura do mercado (7h) que prepara a banca. Na manhã de quinta-feira, vendeu alguns carapaus. “As pessoas não sabem o sacrifício que fazemos. Não compensa o esforço”, desabafa.

 

 

O Mercado de Alvalade Norte foi reinaugurado pela Câmara Municipal de Lisboa no passado dia 22 de julho. As obras de requalificação, um investimento de 300 mil euros, incluíram, entre outras, a instalação de um parque infantil, a remodelação total das instalações sanitárias e a construção de uma zona de lazer e de consumo alimentar. Poucos dias depois da reinauguração, os comerciantes dizem que ainda é cedo para avaliar o impacto da empreitada e que querem “dar tempo ao tempo”.

 

Já tecem, contudo, algumas críticas. Delfina, comerciante de uma das bancas de fruta, não está satisfeita com as obras. “Acho que, em vez do parque infantil, deviam ter construído uma farmácia ou uma loja do cidadão, algo que atraísse mais pessoas. Durante o ano, é assim: os mais velhos vêm cá para estarem à sombra e os novos para se abrigarem da chuva”, diz. “O principal ainda não foi feito: a requalificação do pavimento”, acrescenta Hanif, outro comerciante.

 

 

Outra lacuna será a falta de parqueamento gratuito. “Desde que o parque de estacionamento foi reestruturado pela EMEL, passam aqui meia dúzia de pessoas, perdemos muita gente. Duvido que esta requalificação venha mudar alguma coisa”, lamenta Manuela Oliveira. Zaber, vendedor de especiarias e frutos exóticos, é da mesma opinião. “Temos um estacionamento aqui à volta muito limitado e há muitos clientes que dizem mesmo que vão deixar de vir ao mercado, porque não têm lugar para estacionar”, afirma. Anabela Patrício, vendedora de fruta no mercado há 27 anos, está mais optimista: “A requalificação deu uma nova imagem ao mercado, ficou mais amplo, mais bonito. Já se vê muita gente jovem, o que antes não se via”.

 

Hanif, vendedor da banca dos congelados há mais de trinta anos, diz que o horário de funcionamento do mercado não ajuda à dinamização que a autarquia de Lisboa ambiciona para o espaço comercial. “Começa-se a ver mais jovens, mas temos o grande problema do horário. Na reinauguração do mercado, estavam muitas pessoas, vendeu-se bem. O problema é depois”, comenta. “Ao sábado, começam a vir pessoas mais jovens, o que é normal. O horário das sete às duas da tarde também não é muito alargado, o que não ajuda”, acrescenta Zaber.

 

 

 

A florista Adriana, nascida e criada em Alvalade, presente no mercado desde a sua fundação, não acredita que a requalificação venha valorizar o seu negócio. Quando pedimos para fotografar a sua montra florida, retira o caixote do lixo que tem à frente das flores e desabafa: “É aqui que deito muitas flores fora todos os dias”. “Os meus pais já faleceram, os meus oito irmãos também e isto, um dia, também acaba. Já não se vende nada. As flores vão ficar para segunda-feira”, lamenta. No sábado de manhã, enquanto Adriana deitava as flores ao lixo, um aglomerado de pessoas concentrava-se mesmo ao seu lado. Mas não era para comprar flores.

 

Decorria um showcooking, com a chef de cozinha Justa Nobre. Enquanto ela confeccionava legumes frescos do mercado, acompanhados de peixe frito, o presidente da Junta de Freguesia de Alvalade, André Caldas (PS), servia as iguarias em pratos de plástico. Todos queriam provar. Um pouco antes, as mesmas pessoas assistiam a painéis com cozinheiros conceituados e bloggers reconhecidas na área da gastronomia, que falavam da importância de uma alimentação saudável, no âmbito do lançamento da Estratégia Interministerial para Promover a Alimentação Saudável. A plateia, composta por cerca de 60 pessoas, inclusive secretários de Estado e o ministro da Saúde, ouvia atentamente os debates, enquanto os mais novos brincavam no novo parque infantil.

 

 

Mesmo ao lado, o dono do café “Pão Saloio” nota: “Estes eventos chamam mais pessoas, sim, mas a maioria não compra. Assim que o painel termina, vão-se embora”. Um desabafo que se repete um pouco por cada banca dos comerciantes que abrem e fecham o Mercado de Alvalade, todos os dias, há 53 anos. A esperança reside mesmo nos mais jovens, como é o caso de Maria, que tomava o pequeno-almoço no “Pão Saloio” no sábado. “Venho cá desde miúda, com a minha mãe, e hoje já trago o meu marido e o meu filho, que está no parque. Pago um euro e tal pelo parque de estacionamento, mas isso não é nada, estamos aqui uma manhã. Adoro o espírito do mercado!”, confessa, entusiasmada.

 

 

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3 Responses to Mercado de Alvalade ganha nova vida (mas, para já, apenas aos sábados)

  1. Paulo Branco diz:

    Folclore partidário e promoção pessoal. Uma vergonha!!!!

  2. JL diz:

    Os mercados em Lisboa e Portugal padecem todos do mesmo mal que é não saberem evoluir para outra coisa mais próxima dos mercados em Espanha, que estão abertos até ao fim do dia, que têm uma oferta enorme de todo o género de produtos que não os do costume, que estão preparados para receber pessoas de fora que não clientes habituais, que são bem iluminados, limpos e cuja apresentação de produtos é imaculada e se baseia no princípio que os olhos também comem. Já começa a haver tentativas como Campo de Ourique ou o do Bom Sucesso no Porto, mas os mercados já não podem ser locais em concorrência directa com os supermercados e as grandes superfícies. Moro perto do Mercado 31 de Janeiro. Pode haver muita genuinidade na oferta do mesmo mas considero o espaço muito pouco convidativo para estar, apreciar e comprar.