Mercado da Picheleira rejuvenesce e passa a chamar-se Mercado Alfacinha

REPORTAGEM
Fernanda Ribeiro

Texto

URBANISMO

VIDA NA CIDADE

Beato

4 Novembro, 2015


Uma mudança de nome que é um programa. O espaço comercial situado na freguesia do Beato quer recuperar o fôlego de outros tempos, com uma operação de reabilitação a pensar na captação de clientela mais alargada. Por isso, para além da renovação estrutural do mercado – o primeiro de Lisboa a ser gerido por outra entidade que não a câmara municipal ou uma junta de freguesia -, haverá lugar para os agricultores urbanos venderem os seus produtos. Um mercado para as pessoas do bairro, sim, mas também para os turistas e os jovens.

Uma loja com teares onde se fará formação em tecelagem, uma padaria onde se cozerá pão, uma loja onde se fará fudge de chocolate, um espaço onde as pessoas da freguesia que têm hortas podem vender os seus produtos, uma loja de chás, outra de produtos alimentares africanos, uma churrasqueira e uma barbearia são alguns dos novos comércios a desenvolver no Mercado da Picheleira, numa tentativa de o fazer renascer. Para a população do bairro e não só. Por isso, passará a chamar-se Mercado Alfacinha.

Quem agora o visite encontra ainda muitos espaços vazios, que foram alvo de obras, e, simultaneamente, resquícios de um mercado em agonia lenta. Nele, há apenas meia dúzia de vendedores no activo, aos quais recorrem moradores de longa data daquela zona da freguesia do Beato.

Entre esses comerciantes sobressai a peixeira “Nininha”, Ambrosina de seu nome, uma cabo-verdiana de sorriso aberto, natural de Santiago, que viveu já mais anos em Lisboa do que na sua terra e que há 15 anos se aguenta no mercado, onde agora é a única a vender peixe.

Mas o projecto de dinamização que irá ser posto em prática pela Associação dos Comerciantes nos Mercados de Lisboa (ACML) promete fazer renascer o velho mercado da Picheleira, que vai até mudar de nome. “O nome Mercado da Picheleira tem uma carga negativa e vamos chamar-lhe agora Mercado Alfacinha”, afirma Luísa Carvalho, a responsável da ACML que está a gerir esta intervenção.

No que diz respeito ao comércio tradicional, a ideia é aumentar o número de vendedores. “Vamos passar a ter três bancas de peixe e três de horto-frutícolas. O que está mais difícil de arranjar é um talho, porque implica um investimento maior”, salienta aquela responsável.

O que mais entusiasma Luísa Carvalho é, porém, o novo tipo de comércio que pretende captar. Esse, entende, poderá trazer mais pessoas àquele mercado, que é pouco conhecido pelos lisboetas. “Queremos trazer não só jovens e pessoas do bairro, mas também turistas. Aqui bem perto, temos a Fonte Luminosa e a escola de artes António Arroio e estamos a tentar fazer parcerias e protocolos com instituições que podem ajudar-nos a trazer aqui novos públicos”, sustenta.

“Isto era um mercado que a câmara queria fechar, porque tinha só sete ou oito comerciantes. Mas eu, como sou maluca, aceitei este desafio. Em Maio passado, assinámos um protocolo com a câmara e agora temos dois anos para dinamizar o mercado e dar-lhe nova vida”, diz a responsável pelo projecto.

A renovação já começou, com obras para as quais a autarquia contribuiu financeiramente com 10 mil euros, uma verba que a associação espera ver reforçada em breve, para que se possam concluir as intervenções planeadas.

As obras em curso, de rearranjo na disposição das bancas e das lojas e de criação de melhores condições de higiene, deverão estar prontas “dentro de 20 dias”, na estimativa de Luísa Carvalho – prazo que remete para o final de Novembro. Nessa data, espera esta responsável, já deverão também estar ali instalados os novos comerciantes que a associação está a captar.

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Uma das ideias novas é abrir as portas do mercado às pessoas da freguesia não só para comprar, como já sucede, mas também para vender. “Vamos permitir às pessoas da freguesia que têm hortas que venham aqui vender os seus produtos uma ou duas vezes por semana. E isso é uma novidade”, destaca Luísa.

Outra ideia assenta na forma como as lojas se vão apresentar. “Queremos virar as lojas para dentro do mercado. Embora tenham acesso pela rua, elas vão estar sempre viradas para o interior do mercado. É ele o foco das atenções”, acrescenta.

Nova também é a forma de funcionamento. “É pioneira. Porque é a primeira vez que um mercado é gerido pela associação de comerciantes e não por uma junta de freguesia ou pela câmara”, sublinha a responsável da ACML.

Incluído no projecto de renovação, a associação assinou já um protocolo com a marca “Portugal Market” que, diz Luísa Carvalho, irá trazer ao mercado “produtos certificados e medalhados. Queremos tentar ter aqui produtos de qualidade”.

Como sucede em quase todas as mudanças, esta já trouxe um dissabor à mais antiga vendedora do mercado da Picheleira. Amélia, vendedora de frutas e legumes, teve de mudar a sua banca de sítio, para permitir a nova disposição dos espaços comerciais. “Sou aqui vendedora há 55 anos, tenho 73 e sou a mais antiga deste mercado. Agora, mudaram-me a banca para um sítio em que estou escondida. Ainda se pusessem aqui uma separação de vidro transparente, mas logo me puseram esta placa que nem deixa ver a banca”, reclama a comerciante, que destaca, porém, os benefícios das obras.

“Isto já estava muito degradado, se não fossem eles a pegar no mercado, isto fechava”, diz, por seu turno, Ana Paula, que já há 24 anos tem ali uma loja de criação (de aves). “Isto já foi muito bom, há 20 anos. Nessa altura, até havia bicha para o pão e, ao sábado, a praça enchia-se de gente. Com o aparecimento dos grandes supermercados, foi perdendo vida e clientes ”, conta Ana Paula.

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Curiosamente, é sobretudo à Junta de Freguesia do Beato que estas vendedoras associam as recentes modificações introduzidas e os benefícios trazidos pelas obras, talvez pelo contacto que têm com a autarquia local, desde que esta tem a funcionar no mercado um centro de atendimento dos fregueses.

Mas Hugo Xambre, presidente da junta do Beato, esclarece que o contributo da autarquia tem sido mais a nível das ideias. Inicialmente, a junta apresentou um projecto à câmara para dinamização do mercado, mas o apoio previsto acabou por não se concretizar.

“Quando, em Maio de 2014, houve a transferência de competências da câmara para as juntas, não aceitámos ficar com o mercado, não só por que não é uma operação fácil, mas até porque, a nível de pessoal, a junta é uma estrutura micro e não tínhamos ninguém que pudesse ficar a tomar conta dele. Foi aí que nasceu a ideia de o entregar à Associação de Comerciantes de Lisboa”, conta Hugo Xambre ao Corvo.

Cauteloso, em matéria de prazos, Hugo Xambre espera que os resultados da renovação do mercado se comecem a sentir “no início do próximo ano, quando estiverem instalados os novos comerciantes. Aí é que o mercado vai ter nova vida”.

“A nossa contribuição foi a nível das ideias e do conceito. Temos acompanhado o trabalho desenvolvido pela associação e a câmara também tem dado apoio, e até já se dispôs a fazer um reforço da verba inicial de 10 mil euros. Mas quem irá gerir tudo isto é a associação de comerciantes”, sublinha o autarca.

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COMENTÁRIOS

  • JOÃO BARRETA
    Responder

    Uma excelente oportunidade para os comerciantes mostrarem como se faz!!!!!
    Como diria Fernando Pessoa, seja por comerciantes feitos seja por aqueles que ainda estão por fazer. Força ACML.

  • Lucilia
    Responder

    Boa tarde
    Sou moradora na freguesia há 30 anos achei a ideia optima. Quando vim para aqui morar era no mercado que comprava tudo neste momento praticamente sou vou ao peixe.
    Gostava de propor uma ideia sou vendedora nas feiras de antiguidades seria possivel arranjar uma lojinha para poder vender alguma coisa nesta epoca Natalicia.
    Fico a aguardar o vosso comentario obrigado e felicidades para o novo mercado

  • Reserva Recomendada
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  • Rui Barradas Pereira
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