Afastada a ameaça de poder vir a funcionar como extensão do Fórum Picoas, o mercado ganha nova vida a partir de Setembro. Depois de instalados todos os vendedores tradicionais no rés-do-chão, o piso de cima funcionará como espaço “multicultural”, reflectindo a diversidade étnica de Arroios. Restaurantes, lojas e animação em horário alargado trarão nova vida à zona do Saldanha. “Será diferente de tudo o resto”, garante-se.

 

Texto: Samuel Alemão

 

O Mercado 31 de Janeiro, em Picoas, prepara-se para uma mudança radical, neste verão. Depois de, nas próximas semanas, se efectuar a transferência dos vendedores do primeiro piso, sobretudo do ramo do pescado, para o rés-do-chão, onde estão todos os outros, terão início obras que lhe conferirão uma identidade distinta face aos restantes mercados da cidade. A partir de Setembro, o andar de cima ganhará uma renovada dinâmica, com a abertura de uma área de restauração e comércio “multicultural”, privilegiando uma oferta multiétnica que reflectirá o singular cosmopolitismo da freguesia de Arroios.

Indianos, nepaleses, chineses, brasileiros, ucranianos, cabo-verdianos, paquistaneses e outras nacionalidades terão ali a sua montra. “Esta é, sem dúvida a freguesia mais cosmopolita e multiétnica do país. Temos aqui residentes de mais de 50 nacionalidades. Há escolas onde existem alunos de 14 nacionalidades diferentes”, explica ao Corvo Margarida Martins, presidente da Junta de Freguesia de Arroios, justificando a razão de ser um projecto que “será, sem dúvida, diferente de tudo o que existe em Lisboa”. “Queremos fazer algo distinto do que está ser feito nos outros mercados e aproveitar esta energia multicultural”, diz.

A autarca, que está no cargo desde Outubro – assumindo a presidência de uma junta que, na sequência da reorganização administrativa da cidade, agregou as antigas freguesias dos Anjos, São Jorge de Arroios e Pena -, demarca-se assim da eventual tentação de replicar no recinto localizado no coração da cidade, mesmo junto ao Saldanha, as operações recentemente operadas nos mercados de Campo de Ourique e da Ribeira. Nada de “experiências gourmet” e de “sabores portugueses” normalizados para as massas, portanto. “Enquanto eu estiver à frente da junta, isso não acontecerá”, promete Margarida, orgulhosa da extraordinária diversidade cultural, étnica e religiosa de Arroios.

“É importante divulgar a nossa cultura. Temos coisas que mais ninguém tem, óptimos restaurantes e lojas únicas, e não é apenas no Intendente, é na freguesia toda”, diz a presidente da junta, que tenta assim ajudar a coser uma expressão identitária comum de uma freguesia bastante heterogénea – como é facilmente perceptível por quem cruza a Avenida Almirante Reis. A diversidade é a maior riqueza de Arroios, considera Margarida Martins. E chegou a hora de o assumir, sem receios, trazendo-a para o algo asséptico Saldanha. O que sucederá não apenas através da restauração, mas também de outros ramos do comécio e da actividade cultural.

Os custos deste projecto serão custeados, na maior parte, pelos comerciantes, tanto os tradicionais, muitos dos quais já ali se encontram há muitos anos, como os que se vierem a instalar no primeiro piso. Situação que deixa alguns dos primeiros desagradados, embora reconheçam a importância das mudanças em curso. “É pena termos de ser nós a arcar com os custos desta mudança lá para baixo, mas vamos ver como corre”, diz a peixeira Olinda Barreiros, a trabalhar no Mercado 31 de Janeiro há já três décadas e reconhecendo que, todavia, “o descontentamento não é geral”. No fundo, tal como os restantes, ela está na expectativa, admite.

Na verdade, Olinda assume-se aliviada por ser este o desfecho. Muito melhor do que aquele que se previa há pouco mais de um ano, quando o Corvo dava conta do iminente encerramento do mercado. Em causa, estaria a alegada compra daquele edifício por parte da Portugal Telecom (PT) para nele garantir a extensão das instalações da sua sede, o Fórum Picoas, situado mesmo ao lado. Na altura, circulava entre os comerciantes a informação de que a Câmara Municipal de Lisboa já teria acertado com a PT a venda do imóvel, por um valor a rondar os noves milhões de euros. O silêncio da autarquia – que contribuiu para o adensar dos rumores e da apreensão dos vendedores quanto ao seu futuro – manteve-se, mas a perspectiva de negócio dissipou-se.

A PT terá abdicado das intenções expansionistas do seu quartel-general. Depois das últimas eleições autárquicas, em Setembro do ano passado, as juntas de freguesia de Lisboa assumiram uma série de novas competências, antes a cargo da câmara municipal. Entre elas, a gestão dos mercados. Terá sido a partir desse momento, e aproveitando a onda regeneradora destes equipamentos sentida um pouco por toda a cidade, que se começou a desenhar a solução agora encontrada. A qual prevê a dinamização do espaço através da existência de uma zona para a realização de eventos, um espaço para as crianças e, ainda a ser negociado, o funcionamento num horário mais alargado das lojas e das bancas de venda.

Cenário que agrada a Luísa Carvalho, presidente da Associação dos Comerciantes dos Mercados de Lisboa (ACML), que lidera o processo em articulação com Margarida Martins e tem um café-restaurante no mercado. “Não é funcional um mercado com dois pisos e vazio. Era necessária uma reorganização interna, fazer uma arrumação diferente dos sectores”, defende. Por isso, acha bem que se juntem todos os vendedores tradicionais no rés-do-chão, onde sempre estiveram os comerciantes de frutas, legumes e de carne. Contarão agora com a companhia dos vendedores de pescado e de flores. E lá em cima funcionará o tal espaço multicultural, que poderá garantir novos clientes para os vendedores de cima. Afinal, as portas de entrada no mercado são as mesmas.

Luísa Carvalho faz notar que os horários serão alargados para os comerciantes, “se eles quiserem”. E está optimista em relação ao modelo de renovação encontrado para o 31 de Janeiro. “Vai ser diferente e isso é bom, pois não pode ser mais do mesmo. Queremos dar nas vistas pela positiva e não fazer uma mudança apenas porque se faz”, diz a comerciante, descartando semelhanças com as operações de renovação levadas a cabo nos mercados de Campo de Ourique e da Ribeira. Por clarificar estão ainda diveras questões, como a relacionada com o uso e o preçário do parque de estacionamento subterrâneo do mercado.

 

  • João Barreta
    Responder

    A ideia de “requalificação” do Mercado, no sentido em que lhe serão “atribuídas” novas qualificações não está desadequada da realidade atualmente patenteada pelo Mercado e por toda a sua envolvente. No entanto, haverá que acautelar a definição dos respetivos públicos-alvo, na medida em que é de toda a importância que haja pontos de interesse entre quem frequenta o Mercado e o novo espaço cultural. Se o espaço for transformado em “dois espaços” poderá ser o princípio do fim do Mercado. As portas como as pontes servem para “trazer e levar”!!!

    • Carlota Oliveira
      Responder

      Caro João Barreta, os seus comentários são sempre certeiros ! Obrigada pelo contributo que já deu e continua a dar a este tema tão importante, o comércio e os mercados municipais, fontes de vida das nossas cidades !

  • Paulo Ferrero
    Responder

    E a torre de 27 pisos? 😉

  • Cláudia Diogo
    Responder

    O objectivo é acabar com os mercados enquanto local de compras de produtos frescos, certo?

  • Bruno V. Maia
    Responder

    uma boa solução! http://t.co/hoQ413PlBF

  • Miguel Andrade
    Responder

    Boas notícias. Esperemos que não seja mais um Mercado da Ribeira – Mercado 31 de Janeiro vai ser espaço multicultural http://t.co/Y2lF7oB1GK

  • João Barreta
    Responder

    Também há regras para reorganizar mercados municipais ?
    Sim. Deixo uma que por vezes faz milagres na revitalização de mercados (além-fronteiras) – “MENOS MAS MAIORES BANCAS, IGUAL A MELHORES BANCAS”.
    O trabalho que tem sido desenvolvido em alguns mercados europeus (e não só!), demonstra que tal “regra” (METADE DOS ESPAÇOS, MAS COM O DOBRO DO ESPAÇO) resulta, igualmente, para as lojas dos mercados. Também na requalificação dos mercados “a roda já está inventada”.

  • Joao D. Moreira
    Responder

    Isto promete, pelo menos em comparação com o atentado que são os mercados de C. Ourique e Ribeira. É esperar para ver.

  • João Barreta
    Responder

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