500 anos do Bairro Alto

 

“Sou um bocadinho bocagiano. Identifico-me com a sátira. Mas o Bocage tinha complexos com as mulheres. Eu não tinha problemas”. É desta forma que Mário Ventura, ex-guia turístico no Bairro Alto, se auto-define, entre risos. Tal como o poeta, “Parafuso”, a alcunha com que é conhecido na zona, tem uma forte ligação ao Bairro. Nasceu em Campo de Ourique, mas aos seis anos já dava os primeiros passos pelas ruas pitorescas do centro de Lisboa, onde acabou por residir e trabalhar quase toda a sua vida.

Hoje, com 67 anos, vive da reforma de 427 euros e da ajuda do dono da Adega do Ribatejo, que lhe oferece almoços e jantares. Nunca casou mas teve “diversas mulheres”, a quem tinha por hábito oferecer cravos. Tem uma filha com 42 anos.
“A minha avó tinha uma pensão aqui no tempo da outra senhora e a minha mãe trabalhava nas Escadinhas do Duque, numa pastelaria que ainda hoje existe”, começa por recordar o ex-porteiro da Adega Mesquita, “a casa mais antiga do Bairro Alto”. Abriu as portas em 1938.

Saiu de casa com 12 anos e passou a dormir em camaratas no bairro conhecido pela sua vida nocturna. “Não tinha casa. De vez em quando aparecia a PJ às oito da manhã e era tudo a entrar para a carrinha. No tempo do Salazar era pior do que o Deus me livre”, conta. Entre as várias camaratas por onde passou, aquela em que esteve mais tempo foi a da Irene, uma brasileira que vivia na Rua da Vinha.

Durante uns tempos Mário Ventura não conseguia arranjar trabalho e por isso começou a “vender pornografia”. “As prostitutas andavam na rua e havia de tudo – sexo oral, sexo anal – e a maioria dos clientes eram negros”, lembra Mário Ventura, garantindo que até há seis anos existiam casas de prostituição no Bairro. “Hoje já não há e já ninguém se orienta”, garante.
“Parafuso” recorda ainda a noite em que a polícia entrou numa dessas casas e levou toda a gente para a esquadra. Mas ele safou-se. “Apanhei um juíz que era uma maravilha, era todo benfiquista. As prostitutas e os proxenetas acabaram por ficar presos mas eu nunca apanhei” pena de prisão.

Na altura, “o proxeneta apanhava três anos de cadeia em Tires”, acrescenta.
Depois de um interregno de alguns anos, em que foi trabalhar na construção civil e numa empresa de cerâmica em Setúbal, regressou ao “seu” bairro. Além de porteiro, Mário Ventura começou a angariar clientes, sobretudo turistas estrangeiros, para outros sítios.

“A partir de 1971, não tinha emprego fixo. Tinha uns biscates”, diz, salientando o facto de ganhar mais como angariador de clientes estrangeiros para vários restaurantes. “Comecei a aprender inglês e todas as casas me gratificavam. Uns davam-me cinco escudos. O Forcado dava-me 15 e outros davam 25”, lembra, que foi nessa altura que começou a ter a curiosidade de conhecer a história do Bairro Alto e se tornou guia turístico.

Já após o 25 de Abril, Mário Ventura recorda a noite em que recebeu dinheiro “do cunhado do Agnelli”, o ex-patrão da FIAT, à porta do restaurante Alfaia. “Nessa noite um grupo andava a distruibuir propaganda comunista. Eu estava à porta e saem dois indivíduos. Um deles vira-se para mim, e pergunta-me:
– Também és comunista?
– Eu não. Sei lá o que é o comunismo.
Ele agarrou numa nota de cinco mil escudos e deu-me”, contou a sorrir.

Hoje em dia, Mário Ventura anda desiludido com o seu bairro. Além de terem acabado “as tascas da sueca e do dominó”, está “mais violento”. “Já não me identifico com o Bairro Alto. Recordo-me que acabava o meu trabalho às três da manhã e ninguém me fazia mal. Agora está um caos”, lamenta, referindo-se ainda à destruição do património de uma zona com inúmeros palacetes.

“Sou a favor que a malta jovem se divirta e que não sejam sacrificados como eu fui. Serem perseguidos e presos só por estarem no banco de jardim. Mas podem-se divertir sem andar aos pontapés ou a partir vidros”, defende. Mário Ventura concorda com as restrições mais recentes impostas pelas autoridades, mas assegura que a nova lei que proíbe a venda de bebidas a menores “praticamente que não é cumprida”.

“Acabaram com as lojas de conveniência e essas merdas das ‘lojas smart’. Sou contra tudo o que seja drogaria. Copofonia sim, mas com conta, peso e medida. Eu também as apanhava, mas não faltava ao respeito a ninguém”, diz.

 

Mário viveu vários anos na camarata da brasileira Irene, na Rua da Vinha

(nota: legenda corrigida a 23 de Março,  15:40)

 

Texto: João d’Espiney   Fotografia: Luísa Ferreira

  • Antno
    Responder

    A personagem é brilhante, o texto está cronológico-despachado.

  • Ana
    Responder

    Entretanto faleceu.

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