A disputa em torno da organização da marcha do Santo António destinada aos miúdos está causar celeuma naquele bairro lisboeta. Os Fidalgos da Penha alegam ter criado a “Marcha Infantil da Penha de França”. Tanto que fizeram o registado oficial da marca. Mas dizem que a junta de freguesia a usurpou. Resultado: existem duas marchas em simultâneo com esse nome. Agora, os membros da associação prometem avançar com uma providência cautelar contra a junta. A autarquia desmente tais acusações e fala em marchas diferentes. Porque as designações de ambas serão, afinal, ligeiramente diferentes.

 

 

Texto: Samuel Alemão

 

 

A organização da marcha infantil dos santos populares representativa do bairro da Penha de França está no centro de uma disputa envolvendo a junta de freguesia e uma associação local. Um conflito que deixa adivinhar uma escalada, mesmo após o fim das celebrações populares que agora se iniciam. Isto porque a Associação Sócio-Cultural e Recreativa de Melhoramentos da Penha de França (ASCMPF), também conhecida como “Os Fidalgos da Penha”, ameaça avançar com uma providência cautelar contra a autarquia por alegado uso ilegítimo da designação “Marcha Infantil da Penha de França”. A presidente da junta, Elisa Madureira (PS), porém, conta uma versão diferente dos factos e faz uma distinção entre duas marchas com nomes parecidos.

 

Sem a devida clarificação, a marcha infantil da Penha de França deste ano, tal como a de 2014, deverá ter duas versões, cada uma levada a cabo pelos dois lados da contenda. Antes disso, o referido desfil das crianças seria alegadamente organizado pelos Fidalgos da Penha, que reclamam a autoria da ideia que levou à sua criação. A mesma terá começado a ganhar forma em 2007, garante Maria Gabriela Garcia, a presidente da direcção da associação nascida no seio do Escola Básica do 1º Ciclo Arqitecto Victor Palla – nº143 de Lisboa e que tem um papel de apoio social à comunidade. “Começámos o projecto lá, com os meninos daquela escola, mas sempre aberto aos da restante comunidade. Nunca colocámos nenhuma criança de fora”, assegura a responsável.

 

É a ela, juntamente com Clara Barbosa (tesoureira) e Filipe Barbosa (vice-presidente), quem pertence o registo da designação oficial “Marcha Infantil da Penha de França”, registada pelos três, a 20 de Abril de 2012, na Inspecção-Geral das Actividades Culturais (IGAC), com o número 2667/2012. No Santo António desse ano, realizava-se a segunda edição deste desfile popular de crianças, com a participação de seis dezenas delas. Na edição inaugural, em 2011, haviam participado 74 miúdos e a Junta de Freguesia da Penha de França até foi uma das entidades cooperantes com a organização. “Pedimos à junta que nos arranjasse os tecidos para fazermos as fardas”, lembra Clara Barbosa, enquanto não tira os olhos da peça que está a coser, numa mesa da sede da associação.

 

A ideia fundadora da marcha, salienta Maria Gabriela Garcia, foi sempre a de “incentivar as crianças a conhecerem as tradições” e a de fomentar o espírito de união no bairro. E o facto de a organização estar por conta da ASCMPF – Os Fidalgos da Penha nunca terá, aparentemente, sido motivo de qualquer descontentamento. Mas, “em 2013, a senhora presidente da junta de freguesia achou que a marcha infantil era dela e anunciou que ia começar a ser ela a organizá-la”, afirma a dirigente associativa, lamentando nunca ter conseguido demover a autarca do seu anunciado propósito, concretizado a partir de 2014.

 

O que obrigou à divisão da marcha em duas, pois a ASCMPF não prescindiu de fazer a que já levava a cabo. Tal tem levado à diminuição do número de participantes. Em 2013, foram pouco mais de 50 e no ano passado foram pouco mais de quatro dezenas. “Tentámos, por várias vezes, chegar à fala com a senhora presidente da junta e demovê-la desta sua intenção. Cheguei mesmo a ir lá à junta falar com ela, mas ela não se mostrou sensível aos nossos argumentos. Pelo contrário, disse que nós não poderíamos usar o nome Penha de França, apenas a junta o poderia fazer”, diz Clara Barbosa.

 

Por entenderem que o projecto, do qual se sentem orgulhosas por alegarem ser as criadoras e organizadoras, foi usurpado pela autarquia, as dirigentes d’Os Fidalgos da Penha prometem interpor uma providência cautelar contra a junta. Isso acontecerá logo após o fim das actuais celebrações de Santo António. Só não o fazem agora porque, garante Maria Gabriela, não querem prejudicar as crianças. “Esta guerra não é delas”. Além disso, explicam, esta é uma marcha que tenta cimentar o espírito de união, recebendo a contribuição financeira dos mais diversificados membros daquela zona da cidade. “Até a comunidade chinesa participa”.

 

Versão substancialmente diferente dos factos tem Elisa Madureira, a presidenta da Junta de Freguesia da Penha de França. Questionada pelo Corvo sobre estas acusações, respondeu por escrito às mesmas, alegando “estranheza” face às imputações feitas pelas dirigentes associativas, “visto ter havido sempre abertura por parte da Junta de Freguesia em colaborar com as entidades que o solicitem, e em concreto com a referida associação”. Antes, todavia, realiza um rememoração do processo até chegar aqui.

 

A autarca explica que a “Marcha Infantil da Penha de França” desfilou pela primeira vez em 2011 e que a mesma “resultou da organização conjunta da Junta de Freguesia, da Associação de Pais da Escola Vitor Palla (onde era Presidente Maria Gabriela Felix Gerrado Garcia e Vice-Presidente António Filipe Caldas Barbosa) e da colaboração da direcção da referida escola”. E acrescenta: “Desde essa altura, que a ‘Marcha Infantil da Freguesia Penha de França’ tem vindo a desfilar, sendo organizada pela Junta de Freguesia, em colaboração com as escolas da freguesia e associações de pais, quando constituídas”.

 

Ou seja, a autarca faz uma distinção entre “Marcha Infantil da Penha de França” e “Marcha Infantil da Freguesia Penha de França”. O que é relevante, tendo em conta o que estará em causa, nomeadamente após os episódios seguintes, segundo a edilidade: “Acontece que, em 2012, após cessarem funções como presidente e vice-presidente, dois ex-elementos da Associação de Pais, acima identificados, procederam ao registo, em seu nome, da “Marcha Infantil da Penha de França”. “Facto esse que nunca foi impeditivo de marcharem juntamente com a “Marcha Infantil da Freguesia da Penha de França”, afiança a junta.

 

Tanto que, é explicado na referida resposta, a Associação Sócio-Cultural de Melhoramentos da Penha de França terá enviado um email à edilidade, a 20 de Maio do ano passado, “onde se solicita à Junta de Freguesia a inclusão da ‘sua marcha’ nas apresentações que se vierem a organizar, à semelhança do que ocorreu em anos transactos”. E clarifica: “Nesse ano de 2014, por alteração de agenda dos desfiles, não foi possível da parte da associação participar no desfile da Junta de Freguesia, conforme se verifica no email enviado a 12 de Junho desse ano”. “No ano corrente, não houve qualquer contacto dessa associação no sentido de serem integrados nos desfiles das marchas”, assegura a autarquia.

 

“Saliente-se que é de todo o interesse da Junta de Freguesia envolver todas as crianças neste projecto das ‘marchas’, para garantir a continuidade desta tradição popular da cidade, à semelhança do que é feito por outras freguesias de Lisboa. Por último, conhecendo o número elevado de marchas infantis organizadas pelas juntas de freguesia, não deixa de ser interessante referir que não há história de registo de nomes, para além da situação em apreço”, comenta a junta.

 

 

  • Man Next Door
    Responder

    Marcha infantil da Penha de França causa guerra entre a junta e uma associação http://t.co/aeT7eD87cP

  • Responder

    A Sra. Presidente da Junta de Freguesia da Penha de França tem tanto mais do que se ocupar. A freguesia está em estado de abandono e com graves problemas de higiene urbana mas ao que parece, a presidente mantém a sua linha de actuação ao nível do entretenimento do seu eleitorado.

  • Alcc Associação
    Responder

    Ganda Gaby

  • Dina Carvalho
    Responder

    Façam a paz e não a guerra!

  • Leonor Pinto
    Responder

    Isto é um assunto longo, mas vou ser breve….Antes dos Fidalgos da Penha ja a marcha infantil existia, na esc. Arq. Vitor Palla, e sim foi iniciativa da agora presidente da Ass. Fidalgos da Penha, na altura presidente da ass. Pais da escola, uma excelente iniciativa, sem duvida! que quem ficou foi continuando ano após ano.O problema surge porque quando os nossos filhos deixam o 1º ciclo, quem está na ass. de Pais tb tem de sair, não faz sentido continuar…os miúdos vão para uma nova etapa.
    Não é a presidente da junta que acha que a marcha é dela, ela um dia sai do cargo e a marcha continua, a junta de freguesia em conjunto com a Ass. Pais e a escola ( onde foi iniciado este projeto) ajuda a organizar este evento às nossas crianças.
    Desculpa Gabriela, mas tu é que achas que a marcha é tua – dai o tal registo em nome individual e não em nome coletivo!
    O problema é que não nos mentalizamos que os cargos são passageiros e as instituições ficam! Se a ideia é “incentivar as crianças conhecerem as tradições” façam um registo em nome coletivo, com a Ass. Fidalgos da Penha. Temos tantos meninos na freguesia e nas nossas escolas que ainda bem que são 2 marchas!!!

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