500 anos do Bairro Alto

 

Nelson Pinto tinha 12 anos quando, um certo dia de manhã, decidiu subir a estátua de Luís de Camões e agarrar-se ao poeta. “Foi do caraças. Ficou tudo em alvoroço. Tiveram de chamar os bombeiros e tudo”, conta o protagonista, hoje com 70 anos e uma das figuras do Bairro Alto, que este ano comemora 500 anos de existência.
“Para subir tudo bem, mas para descer foi grupo. Estava tudo a ver e uma senhora aos gritos foi chamar a minha mãe que trabalhava num cabeleireiro em frente ao Teatro da Trindade”, recorda o homem que é conhecido na zona por “Mantorras” ou “Chanfras”.
Deste episódio da sua vida, “Mantorras” – que é como este benfiquista ferrenho gosta mais que lhe chamem – lembra-se ainda que, já depois de ter descido “devagarinho” pela escada dos bombeiros, a mãe quis lhe ‘arriar’, mas o pai não deixou: “Não vais bater ao rapaz, não é caso para bater”.
Nelson Pinto não teve uma infância fácil. Os pais cedo se separaram e foi criado por uma tia, que vivia na Rua da Misericórdia. O progenitor “nunca tinha morada certa, trabalhava naquilo que pudesse, ganhava pouco” e “depois estava agarrado ao vinho e ao álcool”. “Era uma desgraça.”

Fez (apenas) a primária na escola perto da Rua da Rosa e, tal como a maioria dos miúdos da sua idade, gostava de jogar à bola. O sonho era vir a ser futebolista, mas um problema nos olhos impediu-o de atingir o seu objectivo: jogar no clube do Eusébio, o seu grande ídolo.
“Tenho pena de não ter sido jogador do Benfica e jogar no Estádio da Luz”, diz com mágoa. “Mantorras” não se lembra como é que isso aconteceu, mas garante que “já era do Benfica antes do Eusébio aqui chegar”. O pai era do Sporting e ele “o único benfiquista na família”, afirma com orgulho.
Como via mal, apenas esteve 50 dias na tropa. Foi mandado para casa e, poucos anos depois disso, os pais morreram num espaço de dois meses. Depois da tia também ter morrido, “Mantorras” começou a morar em quartos alugados. Hoje, vive num na Rua da Barroca.
O seu primeiro emprego foi como paquete numa agência de publicidade na Rua Rodrigues Sampaio, mas o trabalho que mais o marcou foi na Papelaria Fernandes, onde foi motorista e moço de recados.
Desde que se reformou em 1997, Nelson vive dos 367 euros da pensão de reforma e dos biscates que faz para vários bares no Bairro Alto.Alguém se esqueceu de comprar limas. Não há problema. O “Mantorras” resolve.“Não é fácil, mas lá me aguento. A malta dos bares às vezes ajuda-me. Dão-me dinheiro para o tabaco e pagam-me umas cervejas”, explica.
Nelson assegura que é um homem feliz e que vai gozando a vida à sua maneira. “Toda a gente gosta de mim. Tenho amigos por toda a Lisboa e quero é que toda a gente tenha paz”, afirma com um sorriso.
Nunca quis casar e ter filhos –  “elas casam-se e um ano depois já estão a pedir os papéis do divórcio”, justifica – nem teve uma grande paixão. “Tive uma rapariga, mas paixão nunca tive”. Porquê? “Porque depois uma pessoa vai-se abaixo”, responde, salientando que ainda hoje fala com algumas das raparigas com quem se envolveu.
Texto: João D’Espiney    Fotografia: João Paulo Dias

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