Uma concentração pela manutenção da Biblioteca da Penha de França nas suas actuais instalações, numa antiga casa senhorial do século XVI no cruzamento entre a Calçada do Poço dos Mouros e a Travessa do Calado, terá lugar esta sexta-feira, pelas 16h30. A Junta de Freguesia da Penha de França, que funciona no primeiro andar desse edifício, pretende expandir-se para o espaço ainda ocupado pela biblioteca e mudá-la para o rés-do-chão de um prédio da EPUL, na bem menos central Rua Francisco Pedro Curado, entre as avenidas General Roçadas e Mouzinho de Albuquerque. A concentração, organizada pelo grupo de cidadãos Assembleia Popular da Graça e Arredores, quer reforçar o descontentamento de largas centenas de cidadãos contra a anunciada transferência.

A presidente da junta, a socialista Elisa Madureira, defende a saída da biblioteca do lugar onde funciona desde 1964 como essencial para garantir que a autarquia por si tutelada disporá do espaço necessário ao normal desempenho das suas funções. Situação nascida das novas competências e dos novos funcionários da junta de freguesia, recebidos da Câmara Municipal de Lisboa, no âmbito do processo de descentralização administrativa da cidade – ao abrigo do qual passou também a gerir a biblioteca. A garantia foi dada ao Corvo, há cerca de três semanas: “Não haverá encerramento nenhum, apenas a transferência para instalações melhores e mais amplas”. Elisa Madureira faz notar que o novo equipamento será “mais central, pois a freguesia já não é a mesma, alargou-se até lá baixo, ao rio”.

Os argumentos, todavia, estão longe de convencer um conjunto alargado de moradores, utilizadores e activistas urbanos, entre os quais se destaca a poeta, ensaísta e professora universitária Maria Vale de Gato. Foi ela quem escreveu uma carta aberta, contestando a “falta de transparência do processo”, e enviada à vereadora com o pelouro da Cultura, Catarina Vaz Pinto, mas também ao presidente do município, António Costa. A autora da carta, escrita para manifestar um “veemente repúdio perante esta inaceitável situação”, lembrava que, ainda em 2009, haviam sido gastos 18.500 euros em obras de requalificação do espaço – que se constitui como “a única casa senhorial do século XVII que na zona sobreviveu ao terramoto de 1755 e, como tal, se institui como património cultural a preservar como espaço nobre reservado ao empenho de instrução dos cidadãos”.

Agora, na convocatória para a concentração desta sexta-feira, Margarida Vale de Gato volta a fazer um apelo à indignação popular contra a prevista relocalização do espaço cultural. “Não será uma concentração qualquer. Somos leitores e gostamos de imaginar. Vamos todos requisitar livros à biblioteca. Depois, em torno dela, montamos o nosso cerco de leitores, cada um lendo em voz alta a arma do seu livro”, apela Vale de Gato, antes de sugerir: “Quem quiser, traga também o seu cartaz, por exemplo, com frases que apelem à responsabilidade dos políticos responsáveis. Por exemplo: ‘Alguém aqui não reparou nalguma coisa?’ Quem puder, que venha. E divulguem também, por todos os meios possíveis”. A manifestação conta já com uma página no Facebook (www.facebook.com/events/1480781488825681/).

Neste novo texto, a docente e investigadora critica o processo de transferência da biblioteca “para uma loja num condomínio da EPUL, triste piso térreo de pouca luz, num beco, onde tudo o que há para contemplar é o desolado urbanismo de quem pensa na cidade como um limbo de rotina e alienação”. E acusa os autarcas responsáveis pela mundança: “No meio disto, há os nossos representantes, absurdamente surdos e impunes, e ao que parece sem escrúpulos de nos retirarem os nossos espaços e dispersar o nosso dinheiro de contribuintes, em relocalizações desnecessárias, em transformações de património para seu proveito. Alguma coisa vai muito triste num país em que o poder rompe com os leitores e os segrega”.

 

Texto: Samuel Alemão

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