A colectividade fundada em 1905 tem vindo a atravessar um momento de regeneração, após longo marasmo. Há um ano, um grupo de jovens assumiu os seus destinos, usando a animação cultural para trazer vida a uma zona sob forte pressão turística e imobiliária. Algo de que acabam agora por ser vítimas. A direção acusa de desinteresse a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior e a Câmara de Lisboa. Não terão respondido aos apelos para arranjar um novo espaço. A junta diz nada poder fazer, responsabilizando a lei do arrendamento e a falta de regulação no alojamento turístico.

 

Texto: Samuel Alemão              Fotografias: Hugo David

 

Já não resta muito tempo. A 15 de janeiro de 2017, o Lusitano Clube tem que entregar as chaves do rés-do-chão do 81 da Rua São João da Praça, em Alfama. Chegará assim ao fim a relação de mais de um século entre uma colectividade popular – fundada em 1905 e que tem conhecido um período de ressurgimento nos últimos tempos – e um belo edifício situado no coração de um dos mais típicos bairros lisboetas.

 

A mudança forçada é justificada pela transformação do imóvel centenário num conjunto de apartamentos de luxo, destinados sobretudo a investidores que desejem lucrar com a recente dinâmica turística e imobiliária da capital. O recente renascimento da instituição, resultado de intensa actividade cultural, está em perigo.

 

Apesar de elogiar a postura dialogante do senhorio, do qual está previsto o recebimento de uma indemnização, tal como a lei prevê, a direção do clube teme pelo futuro próximo. Não tem para onde ir e não possui os necessários meios financeiros para suportar as cada vez mais proibitivas rendas da zona.

 

Os responsáveis acusam de desinteresse e de falta de solidariedade o poder público, nas figuras da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior e da Câmara Municipal de Lisboa, a quem têm tentado alertar, com insistência, para as repercussões iminentes da ausência de soluções. “Não queremos esmolas. Conseguimos sempre sobreviver, queremos é que nos ajudem a arranjar um espaço”, diz David Costa, presidente da direcção.

 

O dirigente critica o que diz ser a “ausência de interesse” tanto da câmara como da junta para com a sorte de uma colectividade “empenhada em trabalhar com a comunidade e que, ao contrário de outras, se actualizou”. “Com as rendas como estão, um clube como o nosso não tem qualquer possibilidade de pagar um espaço onde possa ter actividades como as que temos vindo a desenvolver. É completamente insustentável”, afirma, salientando que a revisão da Lei do Arrendamento, em 2012, veio alterar a situação de entidades como esta.

 

O despejo motivado por obras é um facto incontornável. “Conseguimos pagar as nossas despesas com as rendas controladas, mas assim as coisas mudam, não conseguimos fazer milagres”, comenta David Costa.

 

O presidente do Lusitano Clube e o restante corpo diretivo, em funções desde abril deste ano, ficaram a saber dos planos do proprietário para o edifício no início do ano. As negociações com ele iniciaram-se em maio – “sempre com muita cordialidade e espírito de diálogo”. Ou seja, um ano após o imóvel ter sido adquirido ao anterior senhorio.

 

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Postos ante a inevitabilidade da saída – “trata-se de um negócio, percebemos que o dono queria rentabilizar o património”, diz -, os dirigentes associativos dirigiram-se, de seguida, à Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, em busca de auxílio. A utilidade social da instituição assim o justificava. “Demos-lhes conta da situação e da necessidade de um novo espaço, para continuar o trabalho que temos vindo a realizar”, recorda.

 

Como resposta, nessa reunião ocorrida em junho, terão recebido da junta a informação de que não existiriam espaços disponíveis na freguesia. Mas, de acordo com o relato do presidente do Lusitano, haveria o compromisso de voltarem a falar sobre o assunto, “quando houvesse algo de concreto”.

 

O problema é que nenhuma solução surgiu, entretanto, nem se vislumbra que venha a aparecer. Pior: David Costa diz que a junta deixou de dar resposta aos constantes apelos do clube. E, assegura, o mesmo se passará com a Câmara Municipal de Lisboa (CML), cujos gabinetes dos vereadores Manuel Salgado (Urbanismo) e Jorge Máximo (Desporto e Colectividades) terão também sido contactados. “Contatámos os vereadores, mas a resposta foi zero”, critica.

 

Ante a ausência de réplica, entendida como “falta de interesse”, o responsável lança críticas duras aos autarcas. “É muito bonito fazer a defesa dos bairros típicos em entrevistas, mas depois não há resposta. Sentimos frustração e indignação por não existir sequer vontade de resolver o problema. Não me digam que não há um único espaço disponível”, afirma David Costa, criticando o alegado marasmo do presidente da junta (PS) face ao caso do Lusitano.

 

“O Miguel Coelho está sempre a dizer que é contra a turistificação de Alfama. Então, que ajude as instituições que estão a trabalhar em prol da comunidade e a atualizar-se. “Podemos fechar as portas, mas quem as fecha são a junta e a câmara”, acusa.

 

Críticas que não caem bem junto do autarca de Alfama. “Não tenho vontade que desapareçam colectividades, como é óbvio. Lamento imenso que isto esteja a acontecer com eles, mas a verdade é que não temos espaços para dar”, justifica-se Miguel Coelho, assumindo a falta de capacidade da junta por si dirigida para resolver um problema imputado à “conjugação da lei do arrendamento criada pelo anterior governo com a existência de um mercado desregulado de alojamento local”.

 

O presidente da edilidade diz ser óbvio o desagrado sentido por todos com o “facto de haver gente a ser corrida” das zonas histórias devido à pressão imobiliária, todavia, assegura nada poder fazer. “Não pode passar pela cabeça das pessoas que podemos resolver todos os problemas. E, em primeiro lugar, antes dos clubes, preocupa-nos a situação dos moradores de Alfama”, diz, frisando haver mais quatro ou cinco colectividades da zona com problemas semelhantes.

 

O Corvo contactou a Câmara Municipal de Lisboa, para tentar saber que respostas podem ser dadas ao Lusitano Clube neste caso, mas não obteve resposta até à publicação deste artigo.

 

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