Lugar de prometida urbanização, antiga Fábrica Simões é pólo criativo de Benfica

REPORTAGEM
Samuel Alemão

Texto

Paula Ferreira

Fotografia

URBANISMO

Benfica

4 Março, 2016




A antiga Fábrica Simões, nascida em 1907 e encerrada 80 anos depois, chegou a empregar mais de 1500 operários têxteis. Apesar de, desses tempos, quase só restar a fachada que dá para a Avenida Gomes Pereira, a fábrica continua a ser vista como uma parte da “memória colectiva de Benfica”. Os planos para ali construir uma grande urbanização surgiram logo após o fim da produção. Um projecto que aguarda concretização por parte do dono, a Teixeira Duarte. Mas há vida lá dentro, com gente a trabalhar em áreas criativas. Provando que é possível fazê-lo num bairro de Lisboa por muitos considerado periférico. O Corvo entrou lá.

Ricardo Veloso, 36 anos, ainda se lembra da forma como o amigo Rui Ferreira o desafiou para iniciar um nova fase de vida profissional. “Um dia, o Rui veio ter comigo e perguntou-me ‘vais trabalhar para os outros, o resto da tua vida, ou queres partir para outra?’. Então, como ele me pôs assim as coisas, aceitei o repto e vim para aqui”, conta o designer gráfico e web, visivelmente divertido, ao recordar a forma como se mudou para o Mu Workspace Lisboa, um espaço partilhado de trabalho – vulgarmente conhecido por cowork – , situado no interior da antiga Fábrica Simões, em Benfica.

Um bairro improvável para se estar, quando se pensa em ofícios criativos? “Esta zona é espectacular. Já trabalhei em diversos pontos da cidade, já estive em agências de publicidade noutros lugares, mas posso dizer-te que aqui é o melhor sítio de Lisboa para se estar. Além disso, moro na Amadora e, para mim, é óptimo estar aqui”, explica o dono da agência Velosign, sentado frente ao computador. Na mesa ao lado desta sala, instalada num mezanino, o colega Vítor Cardoso, 46, anui a tal entusiasmo. “Aqui em Benfica, temos tudo, restaurantes baratos e muitas lojas. Além disso, chega-se aqui de carro, sem problemas de engarrafamentos”, diz o designer e criativo de vídeo, que para ali se desloca vindo da Ericeira.

O Mu Workspace, projecto nascido da determinação do artista gráfico e tatuador Rui Ferreira, 43, é a casa de meia-dúzia de micro empresas criativas, geralmente de uma ou duas pessoas, e de alguns profissionais independentes. Ilustração, música, webdesign, design gráfico, vídeo e maquilhagem e caracterização são as actividades presentes neste centro de produção cultural “onde as coisas acontecem naturalmente”. “Somos como uma comunidade, temos ideias e partilhamo-las”, afirma Rui, com um certo orgulho. Se alguém está a executar uma tarefa e se depara com uma dificuldade, a solução pode estar mesmo ao lado.

Lugar de prometida urbanização, antiga Fábrica Simões é pólo criativo de Benfica

“Aqui, temos a sensação de que as pessoas são mais criativas, porque falam umas com as outras. Além disso, isto serve de rampa de lançamento para muitas pessoas que chegam aqui com problemas de auto-estima provocado por desemprego de longa duração”, diz Rui Ferreira, fazendo notar que essas pessoas, muitas das quais tentam no auto-emprego a solução para os seus problemas, acabam por encontrar ali o seu caminho e por criar confiança no que fazem, graças ao trabalho árduo e à troca de experiências. Nos últimos três anos, exemplifica, já por lá passou meia-centena de pessoas.

Este género de espaços, afinal, até não é assim tão original, pois já existe um pouco por todo o lado em várias zonas da cidade, fazemos notar. A maior parte de deles localiza-se bem no centro de Lisboa ou em locais mais facilmente identificáveis com a actividade criativa, como Alcântara (caso do Lx Factory) ou o Parque das Nações. E essa é a principal diferença do Mu Workspace Lisboa. É que Benfica parece ser a antítese do que habitualmente se tem em mente quando se tenta imaginar um pólo criativo. “Mas aqui temos facilidade de estacionamento, transportes públicos e muitos cafés e restaurantes baratos. Isto é não é para estar na moda, é para trabalhar e gastar o mínimo”, atira Rui Ferreira.

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A poupança nas rendas pagas naquela zona da cidade, quando comparadas com as pedidas nos mais glamorosos bairros do centro de Lisboa, é algo importante. Foi isso que levou também o Armazém 13 a escolher, em 2010, a Fábrica Simões para sua casa. Os responsáveis pela escola de actividades circenses contemporâneas – e projecto cultural com trabalho regular feito com crianças – assumem que a “renda vantajosa” foi um factor determinante para a escolha do espaço que ocupam. Noutro local, seria quase impossível acolher as mais de seis dezenas de alunos e praticantes de acrobacia aérea e malabarismo.

E mesmo assim, considera Mila Xavier, a presidente da direcção da associação – que se define como “espaço alternativo” -, trata-se de uma “solução de recurso”. A acrobata área, de 42 anos, explica ao Corvo que o desejável seria que o armazém tivesse seis metros de altura mínima. Mas tem 5,75 metros. “Não estamos no nosso espaço ideal”, reconhece, antes de comentar: “Não é fácil encontrar um espaço que sirva para as nossas actividades”. Sobretudo a um valor comportável com o orçamento da associação.

Algo importante para um entidade que, graças ao trabalho educativo que faz com a comunidade, recebe da Junta de Freguesia de Benfica uma subvenção anual de 4 mil euros. “Esse dinheiro é muito útil, dá-nos para muita coisa”, refere “Joa”, 52 anos, outro dos membros da direcção deste colectivo, sem deixar de desabafar: “Tirando isso, não temos apoios de mais ninguém. O que me incomoda é o facto de o novo circo não ser devidamente reconhecido em Lisboa. Precisávamos de outras condições, de outro espaço. Estamos a tentar falar, há três ou quatro anos, com a Câmara de Lisboa”.

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Armazém 13

Para além da necessidade de uma área maior, a direcção da Armazém 13 até veria com bons olhos uma mudança para outra área da cidade. Por outras razões. É que, ao contrário da opinião dos inquilinos do Mu Workspace Lisboa, os membros da direcção da academia de novo circo acham que “o acesso a esta zona é mais complicado”. Bem, mas isto é apenas um desabafo. É que, por terem uma dedicação resultante do imenso gosto pelo que fazem, vão superando tais limitações. Afinal, os seus membros estão naquele espaço apenas para “trabalhar “– tal como os seus vizinhos coworkers.

Uma divisa apropriada para um espaço instalado no que resta de um colosso industrial. A Fábrica Simões fechou portas em 1987, pondo fim a uma agonia que se havia iniciado por volta do 25 de Abril de 1974. Para trás, ficava um glorioso período de actividade produtiva. Criada em 1907, pelo empresário José Simões, no seu apogeu chegou a empregar a cerca de milhar e meio de pessoas. Esta unidade fabril “introduziu em Portugal tecnologia importada e inovadora, criou e fabricou máquinas para a produção têxtil, possuindo os mais avançados sistemas industriais da época”, refere um artigo sobre a fábrica, publicado há um par de anos no boletim da Junta de Freguesia de Benfica.

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Ainda de acordo com a mesma publicação, a unidade fabril acabou por desempenhar um papel muito importante na fixação de pessoas e serviços na freguesia. “Sabe-se da existência de um antigo Bairro Operário, localizado na área da Travessa do Açougue, e que se supõe ter pertencido à Fábrica das Malhas Simões, assim como de uma creche onde os operários podiam deixar os seus filhos, o que reflecte a importância da sua dimensão”, diz o mesmo texto da autarquia, que qualifica a antiga fábrica como “um dos últimos e importantes edifícios industriais existentes na cidade de Lisboa, sendo uma peça de referência do património edificado que existe em Benfica”.

Certo é que esse esplendor industrial, hoje mera evocação de outra época, já era parte do passado quando, em 1996, um incêndio de grandes dimensões destruiu uma série de dependências da fábrica. Foi como que a confirmação, se ela fosse necessária, da irreversibilidade do fim da actividade fabril, ocorrida quase uma década antes. Logo no ano seguinte ao fogo, foi aprovado e publicado o Plano Pormenor do Eixo Luz Benfica que estabeleceu as indicações de loteamento daqueles terrenos, pertencentes à construtora Teixeira Duarte. Mas os planos para ali edificar uma urbanização já vêm de 1988.

E, tudo indica, mantêm-se de pé. Na fachada da antiga fábrica, estão afixados não só um aviso com o alvará das obras de demolição – aprovadas pelo vereador do Urbanismo, Manuel Salgado, a 12 de Julho de 2011 -, como um outro aviso dando conta que, três anos antes (Julho de 2008), havia dado entrada nos serviços camarários um pedido de licenciamento para operação de loteamento. Tratava-se, afinal, da revisão do projecto de construção de uma urbanização que, um par de anos antes, tanta polémica gerara. O Corvo questionou a Teixeira Duarte, dona do imóvel, sobre os seus planos urbanísticos para o local e sobre as alterações ao projecto revelado em 2006. Mas não obteve resposta, em tempo útil, às questões enviadas há duas semanas.

Lugar de prometida urbanização, antiga Fábrica Simões é pólo criativo de Benfica

Em 2006, foi tornado público o empreendimento imobiliário Villa Simões, que previa o surgimento de 308 apartamentos, com tipologias entre o T0 e o T4. “O interior das antigas instalações industriais será convertido em inovadores lofts, ao passo que a área envolvente será ocupada por modernos e vistosos edifícios de habitação, com um alargado espectro de tipologias. Este é um projecto de novas tendências, que definirá um novo padrão de habitação na zona de Benfica”, dizia o texto promocional – redigido numa época em que o mercado imobiliário mostrava ainda sinais de vitalidade pré-crise – sobre um empreendimento que previa uma área construtiva de 43.808 metros quadrados. A perspectiva do surgimento de mais betão foi então muito contestada.

Questionada pelo Corvo sobre a planeada transformação da antiga Fábrica Simões numa grande urbanização, a presidente da Junta de Freguesia de Benfica, Inês Drummond (PS), respondeu por escrito. Lamentando o estado de degradação do espaço, disse desejar que a obra avance “rapidamente”. Isto porque “porque está prevista a construção de um parque de estacionamento público que muita falta faz nesta zona de Benfica, bem como a construção de um arruamento que ligará a Avenida Gomes Pereira à Rua Fernanda Botelho, que, a existir, aliviará o tráfego no cruzamento desta avenida com a Estrada de Benfica”. Além disso, “e não menos importante, porque, no âmbito das contrapartidas deste empreendimento, está prevista a construção de uma biblioteca municipal, que há muito Benfica reivindica”.

O eventual fim do actual pólo de actividades criativas naquele lugar, devido ao avanço do projecto urbanístico, é visto quase como mal menor. “As contrapartidas que a CML pediu são positivas e importantes e, de qualquer modo, a situação actual – que é a de um espaço num avançado estado de degradação há mais de 25 anos – também não é desejável para a qualidade de vida de Benfica”, diz a autarca. “O projecto existente resulta de uma negociação entre a CML e uma entidade privada, mas ainda assim contempla preocupações de âmbito geral, como seja a preservação da fachada”, acrescenta, confessando “que será possível encontrar um consenso mínimo entre as necessidades de Benfica e as expectativas de privados”.

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Mu Workspace Lisboa
muworkspace.com

Armazém 13

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COMENTÁRIOS

  • Tuga News
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  • Retalhos de Bem-Fica
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  • Carlos Coutinho
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