Ao canil municipal vão parar dezenas de cães. Mas houve um, o Lorde, que lá permaneceu oito anos, o que em vida de cão equivale a 56 anos. Saiu de lá velho e doente. A razão para tão longa clausura foi a ausência de decisão. Que terá custado cara a Lorde, mas também ao erário público.

 

Texto: Fernanda Ribeiro          Ilustração: Joana Martins de Carvalho

 

Esta é a incrível história de Lorde, um cão arraçado de pastor alemão que passou oito anos de clausura numa cela do canil municipal, agora chamado Casa dos Animais de Lisboa. Foi para lá que Lorde foi mandado pela PSP, em Novembro de 2005, depois de ter atacado uma adolescente, Teresa, que teve de receber tratamento hospitalar. O castigo foi duro para Lorde, que só saiu em liberdade em Novembro de 2013, então já velho e doente. A tão prolongada permanência no canil não se deveu porém a uma decisão dos serviços municipais, mas antes à falta dela.

É certo que Lorde escapou ao abate, uma medida mais drástica que lhe poderia ter sido aplicada de imediato, em consequência do seu louco acto, no fatídico dia 8 de Novembro de 2005, em que subitamente se encheu de fúria e, como conta o dono, “levantando as patas como um cavalo, arranhou na cara Teresa”, a vizinha, uma miúda de 14 anos, que, “por brincadeira, fizera de conta que ia levar consigo a companheira de Lorde, uma cadelinha caniche” com quem o pastor alemão passava os seus dias.

Mas Lorde pagou bem caro a agressão. Com os melhores anos da sua vida. Um período longo que, em vida de cão, equivaleria a 56 anos, um tempo que lhe terá custado a passar ali, sequestrado na cela, embora o dono fosse quase todos os fins-de-semana visitá-lo ao canil municipal, em Monsanto, para o passear e fazer-lhe companhia. A caniche, que levou o Lorde a tão irreflectido acto, morreu entretanto e ele já não voltou a vê-la, quando enfim recuperou a liberdade.

A decisão de o libertar levou oito anos a ser tomada pelos serviços camarários, um período que atravessou três mandatos, diferentes executivos e direcções municipais. Isto apesar de o canil não pretender ser propriamente uma prisão de cães. O caso nem sequer chegou à barra dos tribunais, não podendo assim atribuir-se a culpa a demoras da justiça. Nem o pai da jovem que foi atacada, Francisco de Jesus, nem o dono do Lorde, Domingos Gonçalves, pediram a abertura de um processo, como ambos referiram ao Corvo.

Houve conflitos entre os antigos vizinhos, que deixaram de se falar, mas nenhum quis avançar com queixa-crime.

Oito anos depois, o pai de Teresa, a vítima do Lorde, diz que “a história já está esquecida”.“Esse caso já está tratado e eu nem quero falar mais sobre o assunto”, disse Francisco de Jesus ao Corvo. “No canil, viram que o cão não era dócil e, por isso, não estaria em condições de vir para a rua”, acrescentou.

Já o dono de Lorde diz que habitualmente “o cão não fazia mal a ninguém”. E conta que “quando o passeava em Monsanto, havia pessoas que me vinham perguntar se ele era um dos animais para adopção”, de que o canil dispõe. Para Domingos Gonçalves – que pediu por diversas vezes a devolução do animal – este longo processo de indecisão, entre o abate do cão ou a sua devolução ao dono, acabou por não ser bom para ninguém.

“Não se fez justiça”, diz. Lorde foi parar ao canil com perto de dois anos de idade, era então um belo e vigoroso cão, diz o seu dono. “Entrou no canil jovem e saudável e saiu de lá aposentado e doente”. E ao longo dos oito anos, recorda, também ele perdeu dias felizes. “Deixei muitas vezes de ir à praia para o ir visitar ao canil”.

Domingos Gonçalves lembra-se ainda nitidamente do dia em que o Lord saiu dos eixos e atacou Teresa, que costumava brincar com os seus cães na varanda. “A miúda foi primeiro passear com o Lorde, pela trela e quando o veio entregar, fez de conta que ia levar a cadela. Pegou-lhe ao colo e foi aí que ele se atirou a ela. O Lorde estava preso, mas nesse momento levantou as patas como um cavalo, empurrou a miúda, tirou-lhe a cadela do colo e arranhou-a na cara”, contou. E com violência, porque Teresa teve de ser levada ao hospital, para receber tratamento. “Fui eu que chamei a ambulância e que fiz questão de avisar o pai dela”, afirma.

O caso chegou a ser apresentado à antiga Direcção Geral de Veterinária, que meses depois do dramático episódio, considerou caber à Câmara Municipal de Lisboa a decisão quanto ao destino a dar ao animal. O que ficou exclusivamente nas mãos dos responsáveis pelo canil, que tardaram em pôr-lhe um ponto final. Até Novembro do ano passado, em que a veterinária Marta Videira “uma excelente doutora, fez o favor de o libertar”, contou ao Corvo o dono de Lorde.

Mas nesta história, todos pagaram caro. Até o erário municipal. Já que feitas as contas, uma tão prolongada permanência do bicho no canil terá custado, em alimentação diária e cuidados prestados, perto de 17 mil euros.

O Corvo tentou saber junto do vereador actualmente responsável pelo pelouro da Higiene Urbana, Duarte Cordeiro, que tem a tutela do canil, qual a justificação para que um animal tenha permanecido lá tanto tempo, mas até hoje não foi possível obter resposta a esta questão.

  • Tiago Freire
    Responder

    boa história

  • rui lagartinho
    Responder

    mandiba, versão canina.

  • Maria João
    Responder

    Uma história imensamente triste, como todas as histórias onde o ser humano interfere com a vida dos outros animais.
    O ser humano pode errar mas os outros animais não… Enquanto o ser humano existir nada nem ninguém neste planeta terá sossego. Mas chegará o dia que a mãe natureza colocará tudo no seu lugar….e já começou. Assim seja.

  • MARIA CRUZ
    Responder

    O ser humano é tão imperfeito, ou talvez se encontre ainda num estado muito primitivo relativamente ao seu potencial, que penso a natureza mais cedo ou mais tarde fará a necessária correcção, ela saberá de que forma

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