Um dos mais antigos estabelecimentos comerciais de Lisboa, a Tavares Panos, fechará portas no final do mês. Naquele espaço, abrirá mais uma loja de produtos turísticos explorada por empresários do Bangladesh. O dono da casa de tecidos diz que encerra porque “já não há clientela, as opções de consumo das pessoas agora são outras”. Sem amargura, admite que a loja com 223 anos de vida ficou parada no tempo. Mas lamenta, tal como a sua já reduzida clientela, o fim de mais uma parte da memória da cidade. Sobretudo porque, no seu lugar, abrirá outro estabelecimento indistinto, sem qualquer mais-valia para a Baixa.

 

Texto: Samuel Alemão

 

A mão esquerda passa sobre o linho que se espalha pelo balcão, para atestar a qualidade do produto. Irene Nunes, 80 anos, é cliente “há 60 anos” da Tavares Panos, e nela se abasteceu para o seu enxoval, bem como o dos filhos e “agora também dos netos”. Veio comprar tecido para fazer naprons para os seus descendentes e confessa a perplexidade com a iminência do encerramento da casa fundada em 1793. Situada entre os números 61 e 71 da Rua dos Fanqueiros, fechará portas 31 de Julho, para dar lugar a mais uma loja de recordações turísticas explorada por cidadãos do Bangladesh. Até lá, está a saldar os seus produtos.

 

“Olhe, é uma pena, não fazia ideia que isto estava para fechar”, diz ao Corvo, enquanto se decide sobre se leva uma parte do rolo de linho que lhe é mostrado pelo lojista, José Carvalho, 64 anos. O comerciante, que herdou o negócio familiar e está ali desde os 22 anos, diz que “já não há clientela, as opções de consumo das pessoas agora são outras, os gostos mudaram”. Sem amarguras, José admite que este tipo de actividade, de venda de tecidos a retalho e de malhas, “já teve os seus dias”. “Já ninguém tem paciência para comprar um tecido e ir para casa costurar. Nos últimos 20 anos, isto foi sempre a descer”, admite, resignado.

 

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José Carvalho conta que, nos anos mais recentes, estava a ser muito difícil manter a sustentabilidade da loja, por causa dessa mudança evidente nos padrões de consumo. “Além disso, com a firma descapitalizada, não era possível pensar em fazer grandes mudanças. Depois, as minhas filhas já estão todas encaminhadas e nenhuma quereria vir para aqui”, explica, dando conta das razões que levarão, daqui a duas semanas, ao fim de um ciclo iniciado há 223 anos – apesar de a sua família apenas ter assumido os destinos da loja em 1867. “Os estrangeiros param à porta e ficam admirados por ainda haver uma loja destas”.

 

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No lugar da loja, nascerá um estabelecimento comercial dedicado à venda de recordações turísticas, explorada por empresários do Bangladesh, à imagem do que tem sucedido um pouco por toda a Baixa lisboeta – “é uma pena estar inundada desse género de lojas, que estão a descaracterizar o que existia”, diz. Mas a realidade do negócio impõe-se sempre e José Carvalho sabe que já não há espaço para si. “É evolução dos tempos, que se tornaram mais rápidos”, assente o comerciante, deixando entrever um certo alívio pelo fim de um longo período de definhamento. Afinal, o número de clientes foi descendo e os que ainda aparecem “são senhoras de meia-idade para cima”.

 

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Um facto confirmado pelo Corvo ante as escassas clientes que entram na loja, enquanto na rua passam grupos de turistas e o ruído é intenso. Tal como Irene Nunes, também Esmeralda Silva, 67, tem memórias de comprar na Tavares Panos tanto o seu enxoval como o dos seus filhos. “Tudo o que é bom acaba”, desabafa, enquanto vai discutindo com um dos empregados as qualidades de um conjunto de atoalhados. Já Noémia Baptista, 66 anos e residente na Pontinha, lamenta “isto que está a acontecer à Baixa”. Apesar de não ser cliente habitual desta loja, ao ver os anúncios de liquidação iminente na montra decidiu-se a entrar, na expectativa de encontrar alguma pechincha.

 

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“Estas coisas não se encontram nos centros comerciais, isto é diferente. Vá lá que, por enquanto, ainda temos as retrosarias. Qualquer dia, nem isso”, afirma, apesar de se afirmar também cliente das grandes superfícies. Noémia vê com grande preocupação a grande transformação em curso no tecido comercial dos bairros mais tradicionais de Lisboa. “Lojas como esta dão-nos vida, são nossas, são portuguesas”, afirma. Um sentimento partilhado por Esmeralda Silva, para quem a Baixa “não pode ser só hotéis e lojas para turistas”. “Tem de ter vida normal, porque é isso que os turistas querem ver”.

 

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*Nota: Texto rectificado às 13h50 de 14 de julho. Corrige o nome da casa, que se chama Tavares Panos e não Tavares & Tavares, como era referido na primeira versão do texto. Aos leitores, pedimos as nossas desculpas.

 

  • Tessa Goffin
    Responder

    produtos turísticos…

  • Responder

    Tristeza……produtos turisticos .? ….lixo é o que essas lojas vendem. ..

    • Vasco
      Responder

      Você ia lá comprar tecidos?

  • Zé Miguel
    Responder

    Até que enfim…

  • Miguel Simões
    Responder

    Quando não conseguimos salvar um negócio, porque não faz sentido que seja salvo, não devia importar muito quem é o próximo inquilino. Digo eu…

    • Paulo Lopes
      Responder

      Não concordo nada!!… mas até poderia ter alguma razão, não fosse o que está a acontecer na Baixa de Lisboa. Hotéis, Hosteis e outras m**** de lojas todas iguais!! Vergonhoso, repito, vergonhoooooso e não tenho mais palavras… a Câmara Municipal de Lisboa vê e assiste à instalação contínua deste tipo de lojas e outras parecidas, todas iguais e repetidas e permite a descaracterização completa da Baixa Pombalina (leia-se, LISBOA inteira). A Mouraria está quase a chegar ao Tejo…

  • Isabelle Moser
    Responder

    J adore cette boutique!

  • Isabel Santiago
    Responder

    Memórias de juventude ! Quantas vezes lá fui com a minha mãe …

  • Joaquim Xavier Lopes
    Responder

    Cada vez que uma loja iconica fecha os lisboetas choram. Mas nao passa de lagrimas de crocodilo.
    Porque na genese da questao esta a mudança de habitos dos lisboetas que deixaram de lá consumir, optando preferencialmente pelas grandes superficies.
    Se um negócio for lucrativo não tem de fechar. Se não for… ninguém mantém um negócio para perder dinheiro.

  • Raquel Fernandes Goddard
    Responder

    Mas agora há novamente a moda de costurar, entre jovens! A questão é que tinham de modernizar a oferta de tecidos ,etc, provavelmente.

  • Maria Fernanda Costa
    Responder

    Contudo, há outras lojas de tecidos com êxito. Uma delas, tem mesmo uma cadeia de lojas no país ….e até parece que tem um , ou mais, processos de fuga ao Fisco…. A explicação, que aqui é dada e discutida, parece não abranger então toda a realidade….

  • Jorge Parente Baptista
    Responder

    Se quer manter a loja aberta porque vai alugar a estrangeiros? Podia ser ele a vender os productos turisticos.

  • João Barreta
    Responder

    Cada vez que uma loja “mais antiga”, quiçá histórica da Baixa, encerra as suas portas pondo fim à sua longa atividade comercial, publicam-se estes textos, de valor é certo, de alerta também, mas cujo impacto é … reduzido!!!
    Deixo a sugestão ao “CORVO” para um trabalho, inclusive de alguma investigação jornalística, que tente saber qual o ponto de situação da Recomendação feita pela Assembleia da República ao Governo sobre a questão das “Lojas Históricas”. No fundo tentar perceber o que se estará a fazer sobre o assunto e quem é responsável por tal trabalho.

  • Responder

    ursupação de nome não é tavares& tavares,mas sim jose ribeiro tavares, a casa tavares e tavares continua no n,s 251/253 a funcionar, comercio que ursupa até logotipo acaba mal como sempre

    • O Corvo
      Responder

      Tem razão Armando. O lapso é nosso e já foi corrigido. A casa de que falamos na reportagem chama-se Tavares Panos e foi, de facto, fundada em 1793. Obrigado pela chamada de atenção. Pedimos desculpas aos leitores pelo erro no nome.

      • Paulo Lopes
        Responder

        Sim, o Armando tem razão, ainda existe lá no princípio da Rua dos Fanqueiros, no primeiro quarteirão do lado da Praça da Figueira, a verdadeira Casa Tavares & Tavares, e a vender TECIDOS!!… como há muitos anos. E espero que se mantenha essa e outras no género, ainda que modernizadas! Vergonhoso, repito, vergonhoooooso e não tenho mais palavras… a Câmara Municipal de Lisboa vê e assiste a esta miserável instalação deste tipo de lojas e outras parecidas, todas iguais e repetidas e permite a descaracterização completa da Baixa Pombalina (leia-se, LISBOA inteira). A Mouraria está quase a chegar ao Tejo…

  • Vera Marreiros
    Responder

    O que se passa em Lisboa é completamente amoral, apesar de neste caso ser uma questão de dificuldade de “escoamento” de mercadoria, provavelmente por não actualização dos padrões mais procurados. Mas o mercado imobiliário não tem contemplações, é por os inquilinos na rua, a qualquer preço, para depois vender ou arrendar a quem dá mais – em negócios não há moral apenas avareza e ganancia – sinal dos tempos.

  • Eugenia Mata
    Responder

    Que tristeza.

  • Gonçalo e Andreia
    Responder

    Hummm .. Ok lojas da baixa antigas e que fecham …. Razões: 1- horários idiotas em que se abre às 09:00 e fecha às 17:00 ou com alguma sorte às 18:00 … Resultado 90% da população não pode ir a essas lojas porque quando são do trabalho estão fechadas …. 2 – fins de semana … Com sorte abrem ao sábado até às 13:00 …. Com sorte …porque muitas nem isso … 3 – stock .. O que é isso ? Actualização de materiais e saber sequer o que existe … O que é isso? Qualidade pelos preços praticados … O que é isso ?
    Resultado: As lojas fecham por falta de clientes … Mas essa falta é da culpa exclusiva das lojas … Quando não encontro velcro que não seja branco ou preto nas retrosarias da baixa, ou quando da mais barato mandar vir de fora, mesmo com portes, algo está muito errado. Quando vou pedir um tecido ou material especifico e me responder ” àh! Isso não existe! ” não tenho vontade nenhuma de lá voltar …. Por alguma razão há lohas na baixa que teem bom negócio … E as que fecham ….

  • Val Cesar
    Responder

    Lisboa pareçe aquela marca “Desigual” que de tão Desigual acaba por ficar igual.Precisamente o que está acontecer em Lisboa, as mesmas lojas e marcas que encontras em todos as partes do Mundo. Ainda não perceberam que o que se procura numa Cidade como a nossa, é a diferença. Porque C & A / MC Don…/ H & M / Adidas etc… etc… Existe em todo o lado, aos poucos estão a matar a Galinha dos Ovos de Ouro, em nome de um pseudo Progresso

  • Mario Fernandes
    Responder

    Entre uma loja terceiro mundo sem clientes e uma loja terceiro mundo com clientes, é preferível a que tem clientes. Pena serem apenas os “empresários do Bangledesh” que vêem potencial nos espaços da Baixa, mas o que a zona menos precisa é de lojas arcaicas às moscas.

    • São Lopes
      Responder

      Não é bem essa a perspectiva… trata-se de preservar a identidade cultural de uma cidade. Por essa ordem de ideias deitamos fora os filmes portugueses antigos, já ninguém os vê…

      • Vasco
        Responder

        Qual a relação entre um “filme antigo” e um negócio privado sem clientes?

  • Ana Carla Lino
    Responder

    é o que faz falta p’ranimar a malta, é o que faz falta 😛

    • Ana Carla Lino
      Responder

      já agora, é mais uma de produtos “made in china” ou “bangladesh”? então, tá bem!

  • São Lopes
    Responder

    Comprei aqui muitas vezes tecidos para fazer as minhas roupas, que também já não se usa. (mas devia)

  • Sónia
    Responder

    A loja que vai fechar é a “Tavares Panos” (que aparece na foto) na Rua dos Fanqueiros, nº 65 ou é a Tavares & Tavares (como aparece no texto), que está também situada na R. dos Fanqueiros mas nº251?

    • O Corvo
      Responder

      Tem razão Sónia. O lapso é nosso e já foi corrigido. A casa de que falamos na reportagem chama-se Tavares Panos e foi, de facto, fundada em 1793. Obrigado pela chamada de atenção. Pedimos desculpas aos leitores pelo erro no nome.

  • Ginka Guerreira
    Responder

    Eu ainda uso!

  • Lígia Gomes
    Responder

    Shame…shame…shame… https://t.co/hbY9HdUGOk

  • Rita Vinhas
    Responder

    Mais uma…….familias fujam, a cidade é SÓ para turistas

    • Vasco
      Responder

      E os 40% que fugiram antes do “boom” turístico?

  • Pedro Sales
    Responder

    @omalestafeito @pedroml https://t.co/OOvPgBe4mw

  • Paula Gomes
    Responder

    O que é mais estranho é onde os do Bangladesh vao buscar o dinheiro para pagar as rendas altissimas, se muitas das vezes as lojas estão às moscas??? Nao é para ser investigado??? Mas isso da trabalho e perca de votos!!!

  • Sónia Martins
    Responder

    Eu até achava que já tinha fechado. Ia imenso a esta loja quando era criança, a minha mãe costumava ir lá comprar tecidos. É assim, o mundo muda e qualquer dia já nada resta das lojas que davam nome à rua.

  • Fabiana Pavel
    Responder

    aqui uma explicação:

  • Borges
    Responder

    Toda a gente tem pena toda a gente fica indignada, revoltada, toda a gente gosta de mostrar o descontentamento sobre este assunto nas redes sociais.

    Mas depois vão gastar o ordenado na Primark.

    Hipócritas!

  • Rui Martins
    Responder

    como se financiam mesmo-mesmo estes negócios?…
    (alguém já fez uma investigação profunda à real origem destes… https://t.co/urD646e4Ql

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