A aparentemente inabalável vaga turística faz mais uma vítima no epicentro da capital portuguesa. Desta vez, trata-se da loja de uma das mais emblemáticas unidades de produção de azulejaria e de cerâmica portuguesas a ser obrigada a sair do coração de Lisboa. Isto porque o prédio onde se situa desde 1916 vai acolher um hotel. E não se sabe se o estabelecimento, muito procurado por estrangeiros, vai reabrir noutro local. Está em vias de acontecer uma “perda irreparável”, diz ao Corvo o director comercial da empresa.

 

Texto: Samuel Alemão

 

 

A acção de despejo está a ser contestada judicialmente, mas tudo leva a crer que a loja da Fábrica de Sant’Anna, na esquina da Rua do Alecrim com o Largo Barão de Quintela, se ficará pelos 99 anos de vida. De portas abertas naquele local desde 1916, deverá fechá-las em breve, porque o prédio onde se encontra dará lugar a uma nova unidade hoteleira, por vontade dos seus proprietários, a Vista Alegre, pertencente ao Grupo Visabeira. “Já passámos por muitas crises, ao longo dos anos, mas esta situação é mesmo muito complicada e ainda não fazemos ideia de como vamos resolvê-la”, confessa ao Corvo o director comercial da empresa, Francisco Tomás. “Nunca pensámos que isto nos pudesse acontecer”, admite.

 

A loja – “cuja história e arquitectura são irreprodutíveis noutro local”, refere o responsável da empresa fundada em 1741 – é tida como uma referência ímpar da azulejaria e cerâmica nacionais, sendo visitada por turistas de todo o lado. “Vem aqui gente de todo o mundo, recebemos encomendas de todo o mundo. Das vendas que fazemos nesta loja, 90% são para o estrangeiro”, salienta Francisco Tomás, que ficou a saber das intenções do senhorio, “há cerca de dois meses”. Ironia suprema, a sua existência naquele local é ameaçada por um dos íncones maiores da cerâmica portuguesa, a Vista Alegre. “Esta é uma loja emblemática, que vem em tudo o que é guias e o seu encerramento representará uma perda irrecuperável”, considera o director comercial.

 

O estabelecimento é vital na estratégia comercial da firma, pois o mesmo funciona como montra da Fábrica de Sant’Anna, a produzir desde a fundação azulejos e demais peças cerâmicas na Calçada da Boa-Hora, na Ajuda, onde emprega três dezenas de pessoas – a loja emprega duas. Mas Francisco Tomás prefere destacar o simbolismo e a preservação da memória que lhe estão associados. “Nesta actividade da azulejearia, existe uma espécie de culto, em que estamos aqui um pouco para fazer um trabalho de defesa desta forma única de expressão artística. Não é tanto pelo valor do dinheiro, mas sim pela história. Quando a Fábrica de Sant’Anna fechar, não haverá muito mais gente a fazer as coisas como nós fazemos”, afirma. As técnicas usadas são as mesmas do século XVIII.

 

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O responsável comercial da Fábrica de Sant’Anna salienta o imenso conhecimento acumulado, o qual teme se possa perder irremediavelmente, caso o encerramento da loja se venha a revelar prejudicial para as perspectivas de negócio. Afinal, estamos a falar de produção artesanal e não massificada. “Temos pessoas a trabalhar connosco, na fábrica, que são já a terceira geração da mesma família. E esta é daquelas áreas em que, quando uma unidade fabril encerra, quase sempre se perde o know-how”. Francisco Tomás diz ao Corvo “não ter nada contra o hotel”, mas sim muito preocupado com a preservação da memória da azulejaria portuguesa. Uma apreensão que já extravasou fronteiras. “Mal isto se soube, começámos a receber manifestações de solidariedade de muita gente. Já tivemos até quatro ou cinco telefonemas dos Estados Unidos da América, de pessoas a perguntar se era mesmo verdade e dando palavras de apoio”.

 

O grupo cívico Fórum Cidadania Lx emitiu, nesta quarta-feira (10 de Junho), um comunicado apelando ao promotor e à Câmara Municipal de Lisboa para que travem esta processo e recordando que o estabelecimento “faz parte integrante do imóvel (palácio) registado no Inventário Municipal do Património anexo ao Plano Director Municipal em vigor”. O referido comunicado salienta que a “CML lançou recentemente o Programa ‘Lojas com História’, no qual, naturalmente, cabe uma loja com o historial da presente”. E aponta para a “boa solução recentemente conseguida pela CML junto do proprietário do imóvel onde se encontra a Ginjinha Sem Rival e Eduardino, em que perante projecto com fim idêntico se conseguiu a prorrogação do contrato de arrendamento respectivo por 8 anos” ou ainda para o caso da Ourivesaria Aliança-Tous, na Rua Garrett.

 

  • Inês Mateus
    Responder

    🙁

  • Anónimo
    Responder

    Qualquer dia Lisboa é só hotéis.

  • Isabel Braga
    Responder

    Quando a cidade desaparecer e formos só hotéis, bares e tuk-tuks, os turistas vêm cá para se verem uns aos outros?

  • Martha Tavares
    Responder

    Estão expulsando os poucos moradores do centro histórico de Lisboa, até quando haverá mais licença para hotéis?

  • Val Cesar
    Responder

    …aos poucos, nossa Lisboa vai perdendo seu charme, tudo o que temos para tornar a Cidade atraente, e que todo o Turista procura ORIGINALIDADE!!! estão a conseguir destruir e tornar tudo isto numa enorme Disneyland para esses mesmos Turistas, a especulação imobiliária tornou a Cidade proibitiva para uma grande maioria dos Alfacinhas , qualquer barraca, la porque se encontra num bairro hoje chamado de IN e que antigamente Mal Afamado, pratica preços upa…upa… abre-se restaurantes por todo o lado, como se a única coisa que temos a propor, seja a Gastronomia!!! talvez um dia o Circuito Turistico ,passe simplesmente pelo Hoteis e Hosteis e Bares e Restaurantes. Sou Lisboeta Alfacinha de gema e começo a não gostar do que vejo.

  • Ana Carla Lino
    Responder

    volto a perguntar: “E quando deixarmos de estar na moda?” Não gosto nada desta nossa nova Lisboa… ainda se estivesse limpinha e nos sentíssemos seguros…

  • Maria Leal
    Responder

    Está mal!

  • Helena Galamba
    Responder

    Vale tudo … em nome do turismo.

  • Isabel Vinhas
    Responder

    Estes senhores só sabem destruir em vez de reconstruir os edifícios

  • Álvaro de Lemos
    Responder

    Porque não manter a loja no hotel???

  • Natividade Barata
    Responder

    Aqui neste inicio da Europa ” para quem vem do hemisfério sul” só temos para oferecer turismo e serviços. os nossos governantes só querem é vender património para pagar as dividas que eles próprios contraíram sem a nossa autorização por isso já nada me espanta. hotéis 5 estrelas e de charme são precisos , até porque criam emprego “dizem eles” num país onde a mão de obra é barata, faltam as qualificações(os qualificados vão para outros países) pois as empresas de outsourcing “trabalho temporário, precário e mal remunerado”com nomes em inglês que abrem e fecham quando muito bem querem e lhes apetece oferecem “baixos custos?” para mão de obra e serviços. A preocupação com “Alma” do nosso património cultural é nula. Restam alguns mecenas “antigos” que quando desaparecerem deixarão um buraco negro para onde será sugado tudo o que restar. Soluções , são precisas para resolver situações como esta. Mais uma vez as lembranças da minha infância vêm à tona “recordo-me de colar o nariz nas montras desta loja bicentenária e achar que todas as imagens desenhadas nos azulejos ganhavam vida própria”. Eram histórias e mais histórias…
    Desejo sinceramente que o programa”Lojas com História” tenha a solução para mais este caso. Obrigada.

  • João Fernandes
    Responder

    Ainda me parece reversível o processo de “ultra-turistificar” a cidade. É óbvio que neste momento as entidades responsáveis não estão a conseguir lidar com o rápido crescimento da procura turística de Lisboa. A isto alia-se um conjunto de supostos “empreendedores”, proprietários e empresários sem capacidade de planeamento a médio prazo e sem qualquer respeito pelo património e pelos Lisboetas. A meu ver é necessário um plano a médio/longo prazo que resulte de um entendimento entre as juntas e a CML de movo a preservar, acima de tudo, a qualidade de vida dos Lisboetas e também o património histórico da Cidade … como alguém referiu … o problema destes “empresários” do dinheiro fácil é que quando secarem completamente o que puderem em Lisboa vão mudar-se para outro lado para o começar a secar.

    Não sou nada contra o turismo e sou completamente a favor do crescimento do mesmo em Lisboa mas neste momento o desnorte é demasiado. É necessário que a CML se chegue à frente e imponha a ordem.

  • Miguel Correia
    Responder

    Hotéis, hotéis e mais hotéis …

  • Sophia
    Responder

    Loja de cerâmica da centenária Fábrica de Sant’Anna vai fechar para dar lugar a hotel http://t.co/5lMtOrkqkp

  • Pedr0
    Responder

    Destruir lisboa a que preço?
    Vivi uns meses em berlim e ao fundo da rua estava um IBIS (2*), tinha um letreiro à porta e os preços nunca desciam dos 95€/noite. Aqui é o que se paga por um 5* . Vale a pena destruir Lisboa quando a rentabilidade é tão baixa?

  • Fabio
    Responder

    Prezados, o nome da festa é lucratividade. Os donos do imóvel estão procurando maximizar seus lucros. Os donos da azulejaria não pensaram que este dia chegaria. Gostaria de saber o valor deste aluguel. Mais de 100 anos em um imóvel alugado? Não pensaram em compra-lo? Que tipo de comerciante mantém um “socio” deste tipo por tanto tempo? Não cresceram o suficiente para retornarem uma marca de grande valor comercial? Resta agora a “boa vontade” e esperteza do dono do imóvel em, ou comprar a azulejaria e manter uma loja no hotel (o que seria o melhor para o negócio), o simplesmente deixar como está…

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