Livro conta como era a vida quotidiana na Lisboa da Belle Époque

A obra “Belle Époque. A Lisboa de finais do séc. XIX e inícios do séc. XX”, recentemente publicada, fala dos acontecimentos político-sociais que abalaram a capital entre 1890 e 1914, como o regicídio e a implantação da República, descrevendo as mudanças que o progresso lhe trouxe. Mas concentra-se na vida quotidiana na cidade. É essa a sua principal originalidade.

Entre 1890 e 1914, durante a chamada Belle Époque, Portugal atravessava tempos conturbados. Em Janeiro de 1890, acontecia o Ultimato: o Governo britânico entregara à coroa portuguesa um documento, exigindo a retirada incondicional do território compreendido entre Angola e Moçambique, que fazia parte do Mapa Cor-de-Rosa.

Apesar da forte oposição interna, Dom Carlos cedeu às exigências de Londres, levando ao despertar de um forte sentimento patriótico em todo o país. Grupos de manifestantes percorriam as ruas de Lisboa, aclamando “a pátria”, enquanto se declarava o boicote a tudo o que se relacionasse de perto ou de longe com a nação inglesa. O hino nacional, de Keil do Amaral e Lopes de Mendonça, deu voz a esse sentimento, popularizando-se num ápice, distribuído em milhares de cópias gratuitas por todo o país.

Ao mesmo tempo, a epidemia de influenza, que fizera milhares de mortos por toda a Europa, chegava a Portugal, começando por atingir as classes mais desfavorecidas e, numa segunda fase, todos os estratos sociais. Lisboa vivia, em 1890, um dos seus piores invernos de sempre.

O relato deste ano trágico é objecto de um capítulo inteiro da obra “Belle Époque. A Lisboa de Finais do Século XIX e Inícios do Século XX”, de Paula Gomes Magalhães, editado pela Esfera dos Livros. E não, não se trata de um novo estudo mais ou menos erudito sobre edifícios ou ruas que fizeram história e desapareceram, muito longe disso. Muito longe disso, fala de gente, e não apenas dos notáveis, descreve a forma como viviam, como se comportavam, como se divertiam, como comiam e até como se lavavam.





A autora – doutorada em estudos de teatro pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, licenciada em ciências da comunicação pela Universidade Nova, professora, actriz e encenadora teatral – nunca esquece a história da cidade, pelo contrário, aborda-a, inclusivamente em pormenores pouco conhecidos ou menos divulgados, e essa é uma das principais qualidades do livro.

Por exemplo, fala do suicídio de Júlio César Machado, “o escritor e jornalista com que Lisboa inteira simpatizava”, como um dos muitos que ocorreram numa época em que as mortes auto-infligidas eram em tão grande número que os jornais concordaram em não dar notícias delas, relatando-os como se fossem acidentais.

“Eram pessoas que caíam de quartos andares, por descuido; pessoas que bebiam petróleo, em vez de água da Companhia, por descuido; pessoas que despejavam revólveres no crânio, por descuido; pessoas que escorregavam para o Tejo ou se degolavam… tudo por descuido”, pode ler-se numa das inúmeras citações com que Paula Gomes Magalhães enriqueceu o seu livro, esta retirada da obra “Viagens no Chiado”, de Eduardo de Barros Lobo.

Outros acontecimentos abalaram Lisboa e o país na Belle Époque, com destaque para o regicídio, um violento terramoto que se revelou particularmente destrutivo na região do Ribatejo e a implantação da República. O livro de que aqui se fala refere todos, descrevendo, também, as mudanças que o progresso trouxe ao seu quotidiano. São muito saborosas, por exemplo, as descrições – mais uma vez, recolhidas, em grande parte, em textos da época – do caos que reinava nos transportes colectivos, antes da generalização do carro eléctrico, os incidentes que marcaram o aparecimento do automóvel, ou ainda a mudança de costumes precipitada pela introdução do animatógrafo.

Na Belle Époque, os janotas e marialvas, que tinham marcado a Lisboa romântica desapareceram e a boémia civilizava-se, ao gosto de uma burguesia nascente, fascinada pela moda e cultura francesas, que se exibia no Chiado.

Mas os pobres continuavam muito pobres e em grande número. “A verdade sobre a vida lisboeta, cada qual a encontra numas páginas do Diário de Notícias em anúncios, que se repetem dia após dia, ano após ano”, nos quais mulheres que se diziam viúvas ou abandonadas pelos maridos, “de bom comportamento e esmerada educação”, pedem auxílio a “pessoa respeitável” – lê-se noutra citação do livro, esta das “Crónicas”, de Paulo Osório (1908).

Da mesma forma, “nas páginas do Diário Ilustrado, dia após dia, a crónica do High Life inventariava aniversariantes célebres, um rol de partidas e chegadas de condes, viscondes, entre outros ilustres elementos da alta sociedade, padecimentos de saúde, agenda de recepções”.

Lisboa era uma cidade de contrastes: “A partir do centro chique, a cidade renovava-se, principalmente para norte, em largos arruamentos, que se estendiam da Avenida da Liberdade até ao Campo Grande, pela Avenida Dona Amélia (actual Almirante Reis) ou ainda em direcção aos aterros portuários”.

Mas o crescimento era desordenado, nos primeiros anos do século XX: o avanço da industrialização atraía para Lisboa uma população pobre que se alojava nos “pátios” – casas de um só piso construídas em fila nos quintais ou traseiras dos prédios burgueses – ou nas “vilas”, erguidas junto aos centros industriais da cidade -, lugares onde as janelas “não tinham caixilhos”, as paredes não eram rebocadas e as ruas estavam pejadas de lixos e dejectos.

Quem ler esta obra fica com uma ideia bastante concreta de como eram as noites no São Carlos, frequentada por gente que, na sua maioria, nada percebia de ópera, indo apenas “para ver e ser visto”. Mas também quase pode sentir o cheiro a fritos e a imundície das tabernas dos bairros tradicionais onde se cantava o fado.

Poderá passear no Chiado e conhecer as figuras típicas que o percorriam, os tolos e os excêntricos, como as manas Perliquitetes, conhecer Madame Brouillard, a vidente que a sociedade “chic” consultava. E apreciar os “garden parties” com que a alta sociedade se deleitava nos meses de Primavera e Verão. Ou ainda ir a banhos às praias de Algés e Dafundo.

Belle Époque. A Lisboa de finais do Século XIX e inícios do Século XX” descreve o colorido das ruas da cidade, onde nunca reinava o silêncio, animadas desde a madrugada pelos pregões dos vendedores, e chegar aos recantos mais íntimos das casas dos seus habitantes. Muita informação transmitida numa linguagem fluente, que não cansa o leitor.

Numa época de transformações, algo ficou na mesma: o Chiado continuava a ser a “ladeira vaidosa” onde pulsava o coração de uma cidade “polvilhada a oiro”, onde os pobres eram muitos e muito, muito pobres.

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  • Paulo Maia Guedes
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  • Rui Barradas Pereira
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