Os livreiros da Trindade, que deviam ter sido despejados a 15 de Agosto de um prédio do Largo Trindade Coelho, conseguiram ganhar tempo contestando em tribunal a intimação do senhorio.

Há cerca de dois meses, os donos da Livraria Olisipo e do restaurante Adega de S. Roque contestaram a ordem de despejo resultante da denúncia, pelo senhorio, dos contratos de arrendamento, fundamentada num projecto de “restauro profundo” do prédio do lado sul daquele largo do centro da cidade. Fizeram-no – contou ao Corvo José Vicente, dono da Olisipo – com base num parecer da Câmara Municipal de Lisboa, segundo o qual a saída dos dois comerciantes não é necessária para a execução das obras, destinadas a instalar ali um hotel de charme.

A Olisipo, casa especializada em livros antigos e gravuras nascida há 35 anos, ganhou assim mais uns tempos, tudo dependendo da celeridade dos tribunais. “Para já, tento ficar por aqui a ver o que acontece. Depois se verá”, diz José Vicente.

Ao lado, igualmente à espera da concretização da, por agora adiada, acção de despejo, está Luís Gomes, o homem da Livraria Artes e Letras, especializada em obras em segunda mão. O livreiro não tem grandes ilusões, certamente por isso não contestou judicialmente o despejo. Reconhece que o proprietário do prédio tem direito a libertar-se dos inquilinos, mas diz que a lei ao abrigo da qual o quer fazer poderia ser menos drástica. “Pelo menos pode ser que este caso sirva para mudar a lei que, por exemplo, já não contempla a obrigatoriedade de realojamento dos inquilinos”.

A saída da Baixa destas livrarias tradicionais, comenta Luís Gomes, põe fim ao ciclo “iniciado há cerca de 500 anos com a fundação das primeiras tipografias no Bairro Alto, local histórico da produção de livros em Lisboa. Aqui, por volta do séc. XIX, aproveitando o espaço oferecido por alguns palácios, vão-se instalar os jornais”.

As mudanças resultantes da aplicação da nova Lei das Rendas, que entre outras coisas torna mais céleres as acções de despejo, ocorrem numa altura em que o paradigma do negócio do livro antigo passa por uma mudança grande. Onde a localização é um factor importante. Vendedores de livros antigos e usados, como a Barateira, a Camões ou a Biblarte, já fecharam as portas.

“Ao contrário de outros tempos, o cliente de passagem tornou-se uma parte muito importante do negócio. Isto em resultado de coisas como o gradual desaparecimento dos bibliófilos nas últimas duas gerações, o menor tamanho das habitações [e do espaço de armazenamento de livros] ou a generalização da internet. É preciso que os clientes passem. Já temos alguns clientes muito jovens, o que é óptimo. É com eles que aprendemos e descobrimos os livros. É bonito, mas é uma clientela jovem sem grande poder económico que permita aguentar uma livraria”, conta o livreiro.

 
Texto e fotografia: Francisco Neves

Comentários
  • Valter Lopes Aguiar
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    Parabéns ao Xico Neves pelas excelentes reportagens. Esta é muito pertinente face à catastrófica lei das rendas que está a pôr de rastos o pequeno comércio, incluindo os alfarrabistas e pequenas livrarias, lesando assim a cultura, bem como o idosos inquilinos e pensionistas de parcos rendimentos. O presidente da Associaão de Proprietários Liboneses disse nas TVs que pensionistas de 300 Euros podiam pagar rendas de 500. Pasmem senhores!!!!Por onde anda a ministra irresponsável que não aparece não para dar uma palavra sobre os inc~endios pois detém a pasta da agricultura e do ordenamento do território

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